• A pandemia acelerou a inovação das empresas brasileiras no combate à miséria, ampliando o investimento social privado para R$ 5,3 bilhões em 2022, 63% acima do previsto.
  • Empresas como Ambev, XP Investimentos e Gerdau adotam estratégias baseadas em métricas de negócios e parcerias para ampliar impacto social, indo além da filantropia tradicional.
  • A pressão do ESG e a demanda por responsabilidade social colocam a sustentabilidade no centro dos negócios, influenciando decisões de investidores e expandindo práticas sociais para empresas de todos os portes.
Resumo supervisionado por jornalista.

Cerca de 33,1 milhões de brasileiros estão em situação de insegurança alimentar grave, segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19, divulgado em junho de 2022. Esse número representa 15,5% da população brasileira e – a grosso modo – contabiliza as pessoas que passam fome no Brasil. Frente a um desafio como esse, a miséria precisa ser combatida de modo diferente e a sociedade brasileira já busca caminhos mais inovadores.

A pandemia jogou luz sobre os problemas sociais e pediu por ação de empresas privadas e de pessoas, mostrando que o papel de combate à miséria não é apenas do poder público. Os números mais recentes do Censo GIFE, do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE) – que mapeia o investimento social privado no Brasil – estimam um aporte recorde de R$ 5,3 bilhões em 2022, volume de recursos 63% superior ao projetado antes da pandemia.

Para Cláudio Boechat, professor associado da Fundação Dom Cabral (FDC) e consultor sênior da Ambipar VG, a pressão da pandemia fez com as empresas adotassem um papel social que ultrapassou a criação de empregos. Em reportagem da Época Negócios, ele destaca que novos protagonistas têm surgido, mais voltados ao empreendedorismo, assim como os antigos têm adotado novos papéis, voltados à filantropia. “Eles estão apoiando-se em métricas de negócios – como metas, escala e colaboração – para desenvolver uma nova forma, mais eficiente, de combater os problemas sociais do Brasil”, afirmou em entrevista à revista Época.

Qual o papel das empresas?

O professor da FDC destaca a atuação de empresas como a Ambev, que calcula parte dos bônus de seus executivos a partir do resultado de projetos sociais tocados pela empresa. Boechat lembra que o desafio agora é fazer com que as companhias tragam as ações de responsabilidade social e sustentabilidade para o centro de seus negócios. “Muitas vezes as decisões não são aceitas pelo conselho de acionistas. A companhia pode ter uma equipe maravilhosa trabalhando nessa área, mas na hora de aumentar o orçamento desses projetos, eles são barrados por acionistas que alegam não querer abrir mão dos lucros”, argumenta. 

A pressão da pauta ESG, no entanto, tem um efeito positivo. A BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, defende que o PIB global irá retrair 25% até 2040 caso as mudanças climáticas e a desigualdade não sejam combatidas. Isso provoca as grandes corporações, já que há potencial de efeito cascata destruidor para os seus negócios.

miseria

O mercado de investimentos já compreende a questão e Boechat aponta que, se uma empresa deseja receber um aporte de recursos de grandes investidores, ela precisa mostrar que tem uma correta. “À medida que isso se expande, há um espraiamento da preocupação com o ESG em empresas de pequeno e médio portes, que são fornecedoras dessas grandes”, explica Boechat.

O que as empresas já estão fazendo?

A seguir, alguns exemplos do que o setor privado já tem feito para combater os problemas sociais:

• A Ambev quer formar 5 milhões de brasileiros nos próximos dez anos, a partir de sua universidade corporativa, que já formou 5 mil profissionais da área de tecnologia nos últimos três anos. A empresa também tem outras iniciativas sociais, como auxílio a pequenos varejistas.

• A XP Investimentos quer atingir 50 milhões de pessoas em até 10 anos com projetos de educação. Um deles é o de educação financeira que, a partir da plataforma Nova Escola, visa criar conteúdo sobre o tema para professores e alunos de escolas públicas.

• A Gerdau começou a investir R$ 40 milhões para reformar 13 mil habitações vulneráveis no Brasil ao longo dos próximos dez anos. A empresa tem bancado 30% das reformas das casas, enquanto os 70% restantes são financiados com capital da própria Gerdau, com juros abaixo do mercado.

• O programa Todos à Mesa conta com a participação de diversas empresas e é liderado pelo iFood para doar comida a ONGs de todo o País. Mais de 3,4 mil toneladas de alimentos já foram doados desde 2021.

Dúvidas mais comuns

Inovação social compreende o desenvolvimento de soluções inovadoras para problemas e necessidades que afetam toda a sociedade. Essas soluções podem estar em produtos, processos, leis, movimentos ou na combinação desses elementos, visando gerar impacto social positivo.

As empresas têm adotado um papel social que vai além da criação de empregos, utilizando métricas de negócios como metas, escala e colaboração para combater problemas sociais. Elas incorporam ações de responsabilidade social e sustentabilidade no centro de seus negócios, pressionadas pela pauta ESG e pela demanda de investidores por práticas responsáveis.

Exemplos incluem a Ambev, que pretende formar 5 milhões de brasileiros em dez anos por meio de sua universidade corporativa; a XP Investimentos, que desenvolve projetos de educação financeira para escolas públicas; a Gerdau, que investe na reforma de habitações vulneráveis; e o programa Todos à Mesa, liderado pelo iFood, que doa alimentos para ONGs em todo o país.

A pandemia evidenciou os problemas sociais e acelerou a atuação das empresas no combate à miséria, aumentando o investimento social privado em 63% em 2022. Isso fez com que as empresas adotassem novos papéis sociais, focados em empreendedorismo e filantropia, e buscassem soluções mais eficientes para os desafios sociais.

Quatro tipos comuns de inovação são: Inovação de Produto/Serviço (lançamento de algo novo ou melhorado), Inovação de Processo (melhorias na produção ou entrega), Inovação de Marketing (novas estratégias de mercado) e Inovação Organizacional (mudanças na gestão ou estrutura). Além disso, existem inovações incrementais e radicais, e categorias como inovação aberta e arquitetônica.

A pauta ESG (ambiental, social e governança) é importante porque grandes investidores, como a BlackRock, alertam que a desigualdade e as mudanças climáticas podem causar retração econômica global. Empresas que adotam práticas ESG atraem investimentos e ajudam a mitigar riscos sociais e ambientais que impactam seus negócios.

Empreendedorismo social é a criação de negócios ou iniciativas que buscam soluções inovadoras para problemas sociais, como revitalização de comunidades, saneamento, atendimento médico acessível, inclusão digital e apoio cultural. Essas ações promovem desenvolvimento sustentável e melhoram a qualidade de vida de populações vulneráveis.