– O setor agropecuário enfrenta oportunidades e desafios com a inclusão no Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), que pode proporcionar financiamento e capacitação para práticas agrícolas sustentáveis, mas também levanta preocupações sobre custos adicionais e perda de competitividade.
– Durante o terceiro workshop da Fundação Dom Cabral, foram discutidos modelos de mercados regulados e voluntários, destacando que 99% dos créditos de carbono no setor agro virão do mercado regulado, com o Brasil entre os países que dominam a modalidade voluntária.
– Especialistas enfatizaram a importância de reconhecer e valorizar as práticas de agricultura regenerativa, além de promover diálogos entre diferentes stakeholders para enriquecer a agenda do agro e contribuir para a nova NDC brasileira, que visa reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
Resumo supervisionado por jornalista.A inserção do setor agropecuário no mercado regulado de carbono tem oportunidades e desafios. Entre os benefícios do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), em desenvolvimento, está a possibilidade de financiamento para uma transição justa, incluindo capacitação, máquinas e assistência técnica para os produtores, ajudando a reduzir a resistência política. Outro ganho é a possibilidade de o setor acelerar, entre outras práticas, o manejo de fertilizantes de baixa emissão.
No campo dos desafios, existe um receio de que a regulação do SBCE gere custos adicionais para a produção de alimentos, e, com isso, perda de competitividade. Explicando: se o Brasil for a única jurisdição a incluir o agro no seu sistema regulado, há o risco de perda de competitividade e fuga de carbono, em função do deslocamento da produção para regiões sem preço de carbono, o que poderia, potencialmente, elevar as emissões globais.
Esses e outros pontos foram discutidos no terceiro workshop organizado pela Fundação Dom Cabral (FDC), em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (ICS), dentro do projeto “Diálogos sobre o mercado de carbono e a nova NDC brasileira”. O evento, realizado em agosto de 2025, trouxe alguns modelos de benchmarking de mercados regulados e comparações com estratégias voluntárias.
Para Fábio Marques, diretor técnico do projeto na FDC, o valor do carbono associado às atividades do agro precisa ser avaliado corretamente e os mercados são instrumentos importantes para garantir esse correto reconhecimento.
Ele destacou que o agro brasileiro adota uma série de medidas para a redução das emissões de gases do efeito estufa (GEE), entre elas a agricultura regenerativa (com o restauro e melhoria de ecossistemas), a estocagem e sequestro de carbono por meio de tratamento e gestão dos solos, remoções de carbono por meio da integração lavoura-pecuária-floresta e florestas como fontes sustentáveis de biomassa.
“Essas medidas precisam ser reconhecidas e valorizadas para que, de fato, o valor do carbono associado ao agro seja tratado de maneira correta”, argumentou.
Mercado regulado domina
Durante o workshop, os especialistas destacaram as diferenças entre os mercados regulados, que trazem obrigatoriedades de adesão e são mais limitados e definidos por lei, e os voluntários, cuja adesão é espontânea e tem um controle de qualidade variável, dependendo do padrão e de quem certifica a emissão de créditos, diferente.
O modelo brasileiro para o mercado regulado (SBCE), por exemplo, prevê créditos, mas não existe ainda nenhuma especificação.
Entre os benchmarks mostrados no encontro estão os do estado do Oregon (EUA), que adota escalonamento de créditos concedidos, e os da Nova Zelândia, que pretende precificar as atividades de carbono do agro até 2030.
No caso do mercado voluntário global, os dados mostram que esse modelo contribui com apenas 1% do total de créditos emitidos e com 11% do total de projetos no agro. Ou seja, os outros 99% de créditos viriam do mercado regulado, que ainda deteria 89% dos projetos no agro.
Cinco países, inclusive o Brasil, concentram a modalidade voluntária e representam 75% das iniciativas, sendo 64% delas chinesas. Dos créditos gerados, 92% estão ligados ao uso de biodigestores de rejeitos (56%), pastagens sustentáveis (25%) e agroflorestal (11%).
Agro regenerativo em pauta

Para José Carlos Pedreira de Freitas, sócio-diretor da Hecta Desenvolvimento Empresarial nos Agronegócios e conselheiro do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), o workshop mostrou ser um espaço de reflexão e geração de conteúdo, contribuindo com a nova agenda do agro regenerativo.
Cláudia Veiga Jardim, gerente de Sustentabilidade Corporativa da Syngenta, empresa global do setor do agronegócio, especializada em tecnologias para proteção de cultivos e no desenvolvimento de sementes, reforçou a importância de os eventos da FDC promoverem “discussões de alto nível e com a presença de distintos atores”. “É desta reunião que surge a riqueza das contribuições”, disse.
O executivo Maurício Adade, da DSM-Firmenich, empresa global de nutrição e saúde animal com forte presença no Brasil, os documentos que estão sendo gerados a partir dos debates promovidos na FDC têm grande relevância para o setor. “O que estamos discutindo aqui tem de ser recebido pelo governo federal como uma contribuição de grande legitimidade, pois as pessoas que têm participado dos encontros são especialistas e representantes de todos os setores”, destaca.
Alexandre Prado, líder de Mudanças Climáticas do WWF-Brasil, organização da sociedade civil de interesse público, integrante da rede internacional WWF (World Wide Fund for Nature), destaca que as “discussões promovidas pela FDC têm sido muito técnicas”, o que segundo ele é bastante positivo, e “robustas”. O especialista também destacou a diversidade dos participantes.
O secretário de Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Aloisio Melo, também participou do encontro, falando via videoconferência.
NDC brasileira
Daniel Parreiras, coordenador do FDC Agroambiental, ressaltou a mobilização do workshop, que trouxe uma audiência qualitativa, com representantes de produtores rurais, agroindústria, poder público e terceiro setor.
“O fundamental e, ao mesmo tempo, o que diferencia essas iniciativas de outros encontros, foi a capacidade de promover o encontro e a troca de opiniões e visões distintas em um mesmo fórum”, destaca. “Debates semelhantes já estavam acontecendo, mas restritos aos setores. Na FDC, conseguimos avançar e promover diálogos”, completou.
O terceiro workshop faz parte de uma iniciativa mais ampla, que é o FDC Agroambiental, centro de inteligência com ações em três grandes áreas: conhecimento e pesquisas; cursos e programas; e laboratórios.
Nos dois primeiros workshops do projeto foram debatidas as contribuições à nova NDC brasileira, principal instrumento para que cada país contribua com metas de mitigação, adaptação e financiamento, dentro de um esforço global de cooperação climática. No Brasil, a mais recente NDC, atualizada em 2023, prevê reduzir as emissões dos gases de efeito estufa em 48% até 2025 e 53% até 2030 em relação a 2005, além de atingir a neutralidade climática em 2050.