O acirramento da competição por mercados, as novas plataformas sociais e a velocidade das mudanças nos hábitos de consumo passaram a exigir tempos de resposta cada vez menores para as empresas. Para equilibrar a necessidade de adaptação contínua com a estabilidade e o alinhamento corporativo, os indicadores-chave de desempenho (KPIs) surgiram como ferramentas vitais.
O artigo “O uso e o sentido dos indicadores para práticas estratégicas mais eficazes”, publicado na Revista DOM, da Fundação Dom Cabral (FDC), revelou que organizações ainda limitam o potencial dessas ferramentas ao utilizá-las para o monitoramento do passado e o atingimento de metas operacionais e financeiras.
A ilusão da métrica fria e o poder do sensemaking
Os autores Maria Elisa Brandão e Mauricio Belons, respectivamente professora do Programa de Mestrado Profissional em Administração da FDC e mestre em Gestão Contemporânea das Organizações, também pela FDC, argumentam que os números não devem ser vistos apenas como métricas frias ou um fim em si mesmos, mas sim como artefatos sociais e de meio. A eficácia dos indicadores depende diretamente do processo de sensemaking (construção de sentido) entre os tomadores de decisão e os colaboradores.
É por meio da interpretação – influenciada pela cultura organizacional, pelas experiências acumuladas e pelas relações humanas – que os dados brutos ganham significado e se transformam em ações concretas. Se o aspecto social é ignorado e o uso dos números focam na cobrança de metas, o modelo pode gerar rigidez, resistência e burocracia, o que reduz a gestão ao acompanhamento de números.
Derrubando silos para uma visão sistêmica

A pesquisa qualitativa conduzida com executivos brasileiros destacou que existe um potencial subutilizado para aplicar os KPIs na inovação, na busca de oportunidades e no ajuste contínuo de estratégias. Foi identificado que muitas empresas organizam seus indicadores em silos em que cada área acompanha seu próprio conjunto de métricas com pouca inter-relação, o que priva a companhia de uma visão sistêmica e holística.
Os autores destacaram a necessidade de incorporar uma visão externa e de mercado, correlacionando indicadores de áreas distintas e integrando métricas referentes ao comportamento dos clientes, inovação e oferta.
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A gestão por indicadores requer uma governança estruturada que vai além da tecnologia. Segundo o estudo, o sucesso organizacional depende do equilíbrio entre a racionalidade dos dados com os processos colegiados e coletivos de interpretação. Cuidar do sentido gerado sobre os números é tão importante quanto o próprio KPI em si. As empresas têm o potencial de transformar a frieza algorítmica em um motor de engajamento que legitima esses indicadores como vetores para as decisões futuras.