- As tarifas impostas pelos EUA impactam negativamente médias empresas brasileiras, especialmente nos setores têxtil e moveleiro, reduzindo produção e faturamento.
- Cerca de 80% das médias empresas afetadas atuam na indústria da transformação, enfrentando cancelamentos de pedidos, ociosidade e queda na competitividade internacional.
- A baixa maturidade em gestão e internacionalização dessas empresas aumenta sua vulnerabilidade, evidenciando a necessidade de aprimoramento para mitigar riscos financeiros e comerciais.
As tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos expõem empresas brasileiras de médio porte, que têm relações comerciais com o mercado norte-americano, à redução na produção e ao declínio no faturamento. Segundo estimativa da Fundação Dom Cabral (FDC), 10,8 mil negócios deste segmento, dos 74 mil ativos, estão sujeitos ao tarifaço, com destaque para os setores têxtil e moveleiro, que enfrentam dificuldades crescentes para manter produção, empregos e receitas.
Sem escala para competir globalmente e com baixa diversificação geográfica, essas companhias têm sofrido cancelamentos de pedidos, paralisação de linhas de produção e retração de receitas. A situação revela fragilidades da indústria brasileira e acende o alerta sobre o grau de maturidade das empresas, no que diz respeito à gestão, planejamento e acesso a capital. Apesar da baixa porcentagem de organizações com classificação excelente nesse quesito, o professor e pesquisador da FDC, Diego Marconatto, acredita que essa lacuna é, ao mesmo tempo, uma “enorme oportunidade”.
Indústria da transformação é a mais afetada
Diante das taxações norte-americanas, o professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Paulo Roberto Feldmann, disse ao Valor Econômico que os setores têxteis e de móveis se encontram em uma situação na qual ficam “encurralados pelas tarifas”. Essa projeção vai de encontro à pesquisa de Eduardo Menicucci, professor da FDC, que aponta que a indústria da transformação é a mais afetada pelas tarifas norte-americanas, dentre as médias empresas brasileiras que exportam, com 80,59% de participação.
Segundo Menicucci, as empresas de médio porte são as mais vulneráveis à volatilidade do comércio internacional. “Destas empresas, a maioria (cerca de 80%) está concentrada na indústria de transformação, segmento especialmente atingido pelas novas barreiras comerciais”, explica.
Uma vez que o valor da taxação não poderá ser repassado integralmente pelo importador no preço final do produto, as empresas se veem obrigadas a lidar, de acordo com a mercadoria comercializada, com questões de empregabilidade, continuidade dos negócios, estoque, dívidas e menor competitividade no exterior, como afirmou o presidente do Sindicato das Indústrias Moveleiras de São Bento do Sul (Sindusmobil), Luiz Carlos Pimentel ao Valor. De acordo com Menicucci, esse impacto pode representar um encarecimento médio de 36% para o consumidor final americano, o que coloca em risco a competitividade das exportadoras nacionais em diversos setores.
“A nova tarifa tira a competitividade dos móveis brasileiros, abalando um comércio bilateral conquistado pelas nossas empresas com eficiência, competitividade, inovação e sustentabilidade”, ressaltou Pimentel.
Efeitos do tarifaço
Na prática, empresários já sentem os efeitos do tarifaço, com cancelamentos de pedidos, que resultam no encolhimento da produção e na concessão de férias coletivas para os colaboradores. A Móveis Serraltense, de São Bento do Sul (SC), além de liberar os funcionários por duas semanas no mês de julho, espera enfrentar, nos próximos três meses, uma ociosidade que pode chegar a 50%. A estimativa leva em consideração a perspectiva de redução da produção, considerando que o escoamento dos produtos para o exterior, no mesmo período do ano passado, correspondeu a 80% da produção.
A situação se repete em outras localidades, como em Nova Prata (RS), onde a Artemobili deu férias coletivas a seus 360 empregados após o cancelamento da maior parte dos pedidos externos. Já a Toro Bianco, no polo moveleiro de Arapongas (PR), viu os embarques de agosto serem suspensos.
Gestão de médias empresas precisa ser aprimorada

O Radar de Mercado da FDC trouxe dados que mostram que o tarifaço atinge um setor que já vinha apresentando sinais de enfraquecimento. Entre 2021 e 2024, o número de médias empresas em recuperação judicial saltou de 197 para 416, ou seja, mais que dobrou. Já em comparação com o ano de 2022, no ano passado (2024) houve uma queda de 10% no lucro líquido dessas companhias. Nesse sentido, Menicucci advertiu que “se não houver amenização nas tarifas, algumas dessas empresas vão ficar em situação muito fragilizada, principalmente as que têm dívidas”.
Além das barreiras externas, faltam preparo e internacionalização para uma gestão mais sustentável dos negócios. Apenas 13% das médias empresas brasileiras têm subsidiárias fora do país, embora 85% operem no modelo B2B. A atuação em mercados estrangeiros reduz a dependência única e exclusiva do mercado brasileiro e mitiga riscos políticos e econômicos como o tarifaço.
Outro fator relevante para a saúde financeira do negócio é a maturidade de gestão. No Brasil, um estudo da FDC, de 2023, relatou que apenas 11% das médias empresas atingiram um nível de excelência nesse tópico.