- A sensação de "mattering", ou sentir-se importante, é essencial para o engajamento e bem-estar dos funcionários, impactando diretamente sua produtividade e lealdade.
- Pesquisa do Instituto Gallup revela que 70% dos trabalhadores estão desengajados devido à falta de reconhecimento e conexão com o impacto de seu trabalho nas empresas.
- Empresas que promovem o "mattering" por meio de feedback significativo e valorização individual fortalecem a cultura organizacional e reduzem a rotatividade de colaboradores.
Um conceito ainda pouco divulgado demonstra como ter a sensação valorização é essencial para o bem-estar e o bom desempenho de um colaborador de uma empresa. É o chamado “mattering”, que em tradução livre seria “ter importância” ou “ter significância”.
O tema foi o eixo central da palestra da jornalista Jennifer B. Wallace, pesquisadora renomada sobre o assunto, no SXSW (South by Southwest), realizado em Austin, nos EUA. A palestrante informou que a maioria dos trabalhadores sofre de falta de “mattering”, pois, segundo pesquisa do Instituto Gallup, 70% dos funcionários sentem-se desengajados nas empresas.
Jennifer B. Wallace, autora do livro Never Enough, que analisa como a pressão excessiva por desempenho afeta a saúde mental de jovens, e fundadora do Mattering Institute, explicou que o sentimento de importância é uma necessidade humana fundamental para a saúde mental e coesão social. Em um mundo dominado pela tecnologia, sentir-se valorizado e significativo fortalece as relações de trabalho e aumenta a produtividade. Já o isolamento corrói o bem-estar, enquanto a interdependência e o apoio mútuo combatem a ansiedade. Wallace argumentou que priorizar o valor intrínseco de cada indivíduo é essencial para que as empresas enfrentem os desafios de um futuro cada vez mais automatizado.
Colaboradores reconhecidos trabalham mais e são leais

Segundo Wallace, criar uma cultura na qual os funcionários se sentem importantes não é apenas a atitude correta, mas também um excelente negócio. Quando os colaboradores sabem que importam, eles trabalham mais, permanecem leais e trazem mais energia para suas funções. O sentimento de valorização é um motor direto de engajamento, sendo um dos melhores indicadores preditivos de produtividade e lucro. A jornalista destacou que funcionários que recebem feedback específico e significativo têm 48% menos probabilidade de procurar outro emprego e chegam a ser até cinco vezes mais engajados.
Mas como as empresas podem promover o “mattering” no ambiente de trabalho? Segundo Wallace, as organizações podem projetar intencionalmente o “mattering” em seus sistemas e em toda a jornada do funcionário. A jornalista citou algumas práticas que seriam efetivas para desenvolver o sentimento de valorização e pertencimento, por meio de exemplos ocorridos em empresas e instituições.
Como as empresas podem promover o engajamento
- Mostrar o impacto final do trabalho: Wallace citou o exemplo de uma fábrica em Wisconsin, que colocou na estação de trabalho de cada operário um cartão mostrando como a peça que ele produzia se encaixava no produto final, junto com a foto e a história da pessoa cujo sustento dependeria daquela máquina. Isso lembrou aos trabalhadores que eles não estavam apenas fabricando peças, mas construindo algo significativo.
- Rastrear e comunicar resultados positivos: um chefe de bombeiros criou um sistema para rastrear os desfechos dos resgates médicos, para que sua equipe soubesse quando seus esforços haviam salvado uma vida ou aliviado o sofrimento de alguém.
- Reconhecer equipes de bastidores: a diretora de uma ONG notou que o trabalho relevante das equipes de contabilidade e desenvolvimento passava despercebido. Ela começou a espalhar post-its públicos agradecendo a esses funcionários, mas com um diferencial: os recados focavam nas qualidades pessoais deles (exemplo: “por causa da sua ‘tenacidade’, encontramos dinheiro para manter aquela família no apartamento”).
Desconexão não ocorre por preguiça
“Na contramão do mattering nas empresas, o desengajamento ocorre não por desinteresse ou preguiça, mas porque as pessoas não acreditam que o que estão fazendo realmente faz a diferença”, advertiu a jornalista. Essa desconexão com o trabalho pode ser explicada por algumas situações listadas abaixo.
- Estratégia de proteção: quando os profissionais se sentem invisíveis, eles recuam e diminuem seus esforços como uma forma de autoproteção, pois dói menos se recolher do que continuar investindo energia em um local que os ignora. Estar desconectado do impacto final do próprio trabalho alimenta o esgotamento (burnout).
- “Anti-mattering”: o oposto de se sentir importante é o “anti-mattering”, que é a experiência ativa de ser ignorado, descartado ou tratado como sem relevância (por exemplo, quando um chefe menospreza um funcionário ou quando ocorrem demissões por e-mail em massa sem uma conversa humana). Essas atitudes são altamente destrutivas.
- Impacto na vida pessoal: o estresse de se sentir desvalorizado e esquecido no trabalho acompanha o funcionário até sua casa, um fenômeno chamado de “o longo braço do trabalho”, resultando em exaustão, irritabilidade, desgaste no casamento e interrupção da conexão com os filhos.
Os quatro pilares do “mattering”

Cultivar um ambiente profissional baseado no “mattering” não é apenas um imperativo moral ou motivacional, mas uma necessidade biológica e uma estratégia de negócio sólida, que promove lealdade, inovação e bem-estar coletivo.
O tema é ainda mais relevante diante de previsões citadas pela jornalista de que, em dez anos, humanos podem não ser tão necessários para a maioria das tarefas, o que abre uma crise de falta de pertencimento em escala global. Para operacionalizar o conceito de “mattering”, Wallace utiliza o acrônimo SAID, composto por quatro ingredientes essenciais que podem ser cultivados nas empresas:
| Pilar | Descrição |
| Significant (Significativo) | Ser reconhecido em detalhes pequenos e comuns, não apenas em grandes marcos. |
| Appreciated (Apreciado) | Saber que você faz realmente faz a diferença. |
| Invested (Investido) | Ter alguém que apoia seus objetivos e bem-estar. |
| Depended on (Dependido) | Sentir-se necessário e confiável; saber que sua ausência seria notada. |
Nostalgia por objetos e hábitos do passado
A palestra de Wallace também destacou que existe uma onda de nostalgia por hábitos e produtos de consumo do passado, que não seria impulsionada pelos objetos em si, mas por uma busca profunda por conexão humana e atenção. Embora estejamos vivendo uma das maiores ondas de tecnologia e inovação da história, muitas pessoas estão buscando refúgio em objetos e comportamento de outras épocas.
Essa nostalgia de consumo inclui, por exemplo, o aumento nas vendas de discos de vinil, o retorno dos telefones fixos e câmeras descartáveis, e até mesmo pessoas dirigindo por horas nos EUA para visitar os “Pizza Hut Classics” — restaurantes que foram redesenhados para serem exatamente como eram na década de 1990, completos com abajures antigos, toalhas de mesa quadriculadas, os clássicos copos grossos vermelhos cheios de refrigerante e os tradicionais buffets de salada.
Segundo a autora, o que realmente procura-se ao resgatar esses hábitos é a sensação de “mattering”, ou seja, o sentimento de que somos valorizados e de que agregamos valor à vida das pessoas ao nosso redor. A nostalgia está ligada ao “mattering” porque os hábitos do passado favoreciam ambientes onde as pessoas se sentiam mais importantes umas para as outras, como nos exemplos a seguir.
- Atenção: sentimos falta de quando a nossa atenção era plena. No passado, conversar em um telefone fixo garantia que a outra pessoa estivesse focada em você, diferentemente de hoje, quando as notificações de celular constantemente nos afastam uns dos outros.
- Pertencimento no cotidiano: sentimos saudade de rotinas que construíam conexão social, como jogos de cartas semanais, grandes jantares em família aos domingos e ver os mesmos rostos nos mesmos lugares todas as semanas.
- Interdependência e vizinhança: ser um bom vizinho costumava significar cuidar uns dos outros. No passado, era comum que vizinhos entrassem na casa uns dos outros para alimentar animais de estimação durante as férias ou checassem se tudo estava bem após uma tempestade.