Referência global em estratégia e ética empresarial, o professor Subi Rangan, membro-executivo do Programa de Gestão Avançada (PGA) e integrante do Conselho Curador da Fundação Dom Cabral (FDC), levou ao FDC Alumni Experience – Legados que criam futuros uma reflexão sobre o século XXI. Em sua análise, questionou se esse período foi predominantemente positivo, misto ou profundamente traumático.
A proposta, segundo ele, é estimular uma reflexão que nos ajude a compreender melhor o mundo atual. “Guerra, fome, desertificação e inflação não são problemas do passado. O século XXI nos ensinou que a estabilidade é uma fragilidade e que o futuro exige líderes capazes de gerenciar não o triunfo, mas a constante incerteza.”
Subi Rangan lembrou que na virada do ano 2000, a palavra-chave não era trauma, mas sim triunfo, quando o mundo encerrava o século XX com a sensação de ter resolvido os grandes problemas da humanidade. “Acreditávamos ter encontrado as duas respostas definitivas para a existência coletiva: a democracia para garantir a paz e o capitalismo para garantir a prosperidade. Havia o sentimento confortável de que tínhamos chegado ao ‘fim da história’. Bastava adotar o modelo, relaxar e aproveitar. O século XXI, contudo, revelou ter um propósito pedagógico muito mais cruel: destruir a ilusão da paz permanente, o mito da segurança e a promessa de prosperidade linear para todos.”
Para o professor, que também é docente na área de estratégia no Insead, a paz é uma construção que precisa ser cultivada e renovada todos os dias. Ela não é um estado natural da geopolítica, mas sim um esforço crônico. E as ferramentas julgadas infalíveis para garanti-la começaram a falhar.
A própria democracia tornou-se uma grande incógnita global. “Dos Estados Unidos ao Brasil, da Índia à Europa, percebemos que reduzir a democracia a um processo eleitoral a cada poucos anos não é suficiente para sustentá-la. Quando as instituições se esvaziam, a estabilidade desmorona”, afirmou.
Choques que redesenharam o cenário global

Esse processo de ruptura, ressalta Rangan, ocorreu por meio de uma sucessão de choques estruturais que redesenharam a realidade contemporânea em cinco grandes atos: o choque da segurança (2001); o choque climático (2006); o choque da confiança financeira (2008); o choque da ascensão da China e Desglobalização (2008-2012) e o choque da autocracia sanitária (2020).
O atentado às Torres Gêmeas fragmentou os EUA, transformou a segurança interna em uma obsessão e alimentou divisões que persistem até hoje nas discussões sobre fronteiras e soberania. A crise climática não é uma previsão, mas uma realidade, com incêndios florestais devastadores. Embora a transição para a energia verde seja notável, o mundo ainda depende de 60% de combustíveis fósseis.
A crise financeira global destruiu mais de 100 milhões de empregos e, junto com eles, a confiança no livre mercado. A abertura da China tirou quase um bilhão de pessoas da pobreza, mas o desequilíbrio estrutural entre a China produzir para o mundo e o Ocidente consumir gerou o esvaziamento da indústria manufatureira na Europa e nos EUA. “O livre comércio provou-se desigual”, apontou Rangan.
A pandemia da COVID-19 devastou o planeta, ceifando milhões de vidas e desafiando a premissa de que a saúde pública global estava sob controle. Diante do colapso, o Estado surgiu como salvador. O governo voltou com força total, e a máxima de que “quanto menos governo, melhor” foi soterrada pela necessidade de sobrevivência. Isso deixou como herança uma inflação global crônica e um Estado muito mais intervencionista.
Logo, conclui o especialista, o verdadeiro teste para a elite não é o tamanho do portfólio de investimentos ou o faturamento da empresa no próximo trimestre. A questão central, segundo Rangan, é responder a uma pergunta simples: o que você escolheu abraçar e proteger em um mundo que parece estar se desfazendo?
Citando como exemplo alguns alunos que utilizam inteligência artificial (IA) para escrever artigos, mas se recusam a ler o texto que a própria ferramenta produziu, Rangan afirma que estamos diante de um “deslizamento cognitivo”, criando uma geração com excesso de informação e escassez absoluta de sabedoria.
Vantagem competitiva da inteligência humana
Mas nem tudo está perdido, ressalta Rangan, pois existe o setor quaternário, da reconexão humana. “É o espaço onde a inteligência mecânica falha miseravelmente, porque ela não tem coração, ela tem dados. Nós temos empatia. Ela tem algoritmos, nós temos caráter.”
Para ele, reconstruir a confiança no capitalismo e nas instituições passa por parar de perseguir apenas o PIB e as métricas quantitativas de desempenho (outputs), para priorizar resultados (outcomes) que devolvam a dignidade às pessoas. “Isso se resume a quatro pilares: justiça absoluta, bem-estar real, economia regenerativa e integração entre performance e progresso”.
Encerrando suas reflexões, Subi Rangan ressaltou que o termo alumni (alunos) vem da raiz latina que significa “aqueles que foram nutridos”, trazidos à luz do conhecimento.
Logo, se fomos nutridos pelas melhores instituições, nossa responsabilidade não é buscar o sucesso individual. O sucesso nos dá uma carreira e dinheiro. A contribuição nos dá alegria.
Ele lembra que as instituições não são perfeitas, pois são feitas de decisões diárias de indivíduos.
Se a elite e os mais velhos cruzarem os braços por medo ou conveniência, o futuro será exatamente o pesadelo da Torre de Babel, uma construção tecnológica massiva, fria, onde ninguém se entende e ninguém sabe para quem ela foi construída.
Na visão de Rangan, é preciso construir espaços onde as pessoas queiram viver e onde as futuras gerações desejem construir suas vidas. “Corram o risco de falhar servindo. Tenham coragem de escolher uma causa e fiquem com ela até o fim. O futuro é uma escolha que fazemos hoje”.
Dúvidas mais comuns
-
-
Subi Rangan refere-se ao 'deslizamento cognitivo' como um fenômeno onde as pessoas têm acesso a ferramentas e informações em excesso, mas carecem de sabedoria para utilizá-las adequadamente. Ele exemplifica com alunos que usam inteligência artificial para escrever artigos mas se recusam a ler o texto produzido, demonstrando uma geração com abundância de informação e escassez absoluta de sabedoria. Este conceito reflete a desconexão entre o acesso à tecnologia e a capacidade crítica de compreensão.
-
-
Segundo Subi Rangan, o século XXI foi marcado por cinco choques estruturais: o choque da segurança (2001), com o atentado às Torres Gêmeas; o choque climático (2006), com crises ambientais devastadoras; o choque da confiança financeira (2008), que destruiu mais de 100 milhões de empregos; o choque da ascensão da China e desglobalização (2008-2012), que desequilibrou a produção global; e o choque da autocracia sanitária (2020), com a pandemia da COVID-19. Esses eventos transformaram fundamentalmente a realidade contemporânea e as expectativas sobre estabilidade global.
-
-
Rangan argumenta que reduzir a democracia a um processo eleitoral a cada poucos anos não é suficiente para sustentá-la. Quando as instituições se esvaziam de significado e confiança, a estabilidade desmorona. Dos Estados Unidos ao Brasil, da Índia à Europa, observa-se que a democracia enfrenta crises profundas porque deixou de ser uma construção contínua de confiança e passou a ser apenas um ritual eleitoral, sem o fortalecimento diário das instituições que a sustentam.
-
-
Para Rangan, o sucesso oferece uma carreira e dinheiro, enquanto a contribuição oferece alegria e propósito. Ele enfatiza que aqueles que foram nutridos pelas melhores instituições têm a responsabilidade de não buscar apenas o sucesso individual, mas de contribuir para a sociedade. A contribuição representa um compromisso com causas maiores e com a construção de um futuro melhor para as gerações futuras, diferentemente do sucesso que é fundamentalmente pessoal.
-
-
Subi Rangan propõe quatro pilares fundamentais: justiça absoluta, bem-estar real, economia regenerativa e integração entre performance e progresso. Esses pilares visam substituir a perseguição exclusiva por PIB e métricas quantitativas de desempenho (outputs) por resultados (outcomes) que devolvam dignidade às pessoas. Essa abordagem busca reconstruir a confiança no capitalismo e nas instituições através de uma visão mais humanizada e sustentável.
-
-
Rangan destaca que a inteligência mecânica (IA) falha miseravelmente no setor quaternário da reconexão humana porque tem dados, mas não tem coração; tem algoritmos, mas não tem caráter. A inteligência humana, por sua vez, possui empatia, caráter e capacidade de conexão genuína. Essa diferença fundamental torna a inteligência humana insubstituível em contextos que exigem compreensão profunda, julgamento ético e construção de confiança entre pessoas.
-
-
Rangan argumenta que a paz precisa ser cultivada e renovada todos os dias, não sendo um estado natural da geopolítica, mas sim um esforço crônico. As ferramentas julgadas infalíveis para garantir a paz, como a democracia e o capitalismo, começaram a falhar no século XXI. Isso significa que a estabilidade não é um destino alcançado, mas um processo contínuo de trabalho, negociação e renovação de compromissos com valores compartilhados.
-
-
Rangan enfatiza que a verdadeira responsabilidade da elite não é o tamanho do portfólio de investimentos ou o faturamento da empresa, mas responder a uma pergunta fundamental: o que você escolheu abraçar e proteger em um mundo que parece estar se desfazendo? Ele alerta que se a elite e os mais velhos cruzarem os braços por medo ou conveniência, o futuro será um pesadelo onde ninguém se entende. A responsabilidade é construir espaços onde as pessoas queiram viver e onde futuras gerações desejem construir suas vidas, correndo o risco de falhar servindo.