• O Spotify está redefinindo a personalização no streaming ao lançar o “Taste Profile”, que permite aos usuários visualizar e modificar seu perfil algorítmico de preferências musicais.
  • A empresa evoluiu por cinco fases estratégicas, culminando na atual etapa de geração e interatividade, onde o algoritmo é guiado diretamente pelo usuário por meio de IA generativa e comandos em linguagem natural.
  • A personalização colaborativa fortalece o vínculo do usuário com a plataforma, tornando o controle do algoritmo uma vantagem competitiva no mercado de streaming musical.
Resumo supervisionado por jornalista.

Não é novidade que a inteligência artificial vem transformando a relação de empresas e pessoas com a tecnologia, especialmente no que diz respeito a comportamento e  personalização. Nesse sentido, o painel do South by Southwest (SXSW) encabeçado pelo co-CEO do Spotify, Gustav Söderström, com participação da cantora Lainey Wilson e do podcaster David Friedberg, trouxe a ideia de que a IA deixa de atuar apenas como um filtro invisível de conteúdos para se tornar uma ferramenta de colaboração direta entre plataformas, criadores e público.

O entendimento de que a indústria de mídia passa da era da recomendação para a da geração é acompanhado pelo lançamento do novo recurso do Spotify, o “Taste Profile”. Com a pretensão de dar mais controle sobre a personalização aos clientes, a ferramenta permite a visualização e modificação do próprio perfil algorítmico de preferências musicais. A funcionalidade simboliza o que Söderström descreveu como a “quinta montanha” na evolução estratégica da plataforma ou, mais precisamente, a fase em que o algoritmo deixa de apenas observar o gosto do público e passa a ser guiado por ele.

As quatro montanhas que moldaram o Spotify

Para explicar o momento atual da empresa, Söderström apresentou a trajetória do Spotify como uma sequência de quatro “montanhas” estratégicas. Elas correspondem a fases distintas em que a companhia precisou superar desafios ou limites do modelo anterior para alcançar um novo patamar de operação.

A primeira montanha foi o acesso. No início do streaming, o desafio era enfrentar a pirataria e oferecer uma experiência superior para competir com downloads ilegais. Como resposta, desenvolveram um sistema com latência de 200ms juntamente ao modelo freemium, que combinava acesso gratuito com uma versão paga.

Gustav Söderström, co-CEO do Spotify durante o SXSW 2026
Gustav Söderström, co-CEO do Spotify (Imagem: transmissão via YouTube/ canal SXSW)

A segunda montanha foi a mobilidade. Com a ascensão dos smartphones, o streaming precisava migrar do desktop para o celular. O Spotify respondeu liberando o modo “shuffle” gratuito para usuários mobile em 2013, ampliando o engajamento da plataforma.

A terceira montanha foi a ubiquidade. Em vez de permanecer restrito a computadores ou celulares, o serviço buscou presença em múltiplos dispositivos. O protocolo Spotify Connect permitiu integrar a plataforma a uma variedade de aparelhos que vão de caixas de som a carros conectados.

A quarta montanha foi a adaptação de formatos. Com a expansão para podcasts e audiolivros, a empresa precisou unificar diferentes tipos de conteúdo em uma mesma interface, reduzindo a fragmentação entre aplicativos.

Geração e interatividade guiam a quinta montanha

Agora, segundo Söderström, o Spotify entra em uma quinta fase: a da geração e interatividade. A lógica predominante até então baseava-se na recomendação de conteúdos a partir do comportamento passado do usuário. À medida que a personalização se torna o principal valor dessas plataformas, esse modelo começa a ceder espaço a sistemas generativos, capazes de criar experiências ainda mais personalizadas.

Com essas mudanças, a natureza da interação entre usuário e plataforma também é alterada. Agora, o público pode dialogar com o sistema usando linguagem natural para orientar recomendações ou gerar playlists específicas. A plataforma, inclusive, lançou recentemente uma funcionalidade do tipo generativa, a “Prompted Playlist”. Nela, o usuário descreve, em um prompt, o que deseja na playlist a ser montada, passando por estilos, artistas e ocasiões em que vai ser conectada.

Assim, o streaming sai de um modelo “de um jogador”, no qual o algoritmo decide o que aparece, para um ambiente mais próximo de uma experiência “multiplayer”, na qual usuário e sistema constroem juntos a experiência de consumo.

Taste Profile e o controle do algoritmo aprimoram a personalização

O exemplo mais concreto e recente dessa mudança no Spotify é o novo “Taste Profile”. O recurso reúne os principais elementos que formam o perfil musical de cada usuário, com base no modelo já existente.

A diferença é que, pela primeira vez, o ouvinte pode editar esse modelo algorítmico de acordo com suas preferências. Caso o sistema esteja preso a gostos antigos ou ignore novos interesses, o usuário pode ajustá-los manualmente.

Em um contexto no qual mais de 80% dos ouvintes consideram a personalização o aspecto mais importante do serviço, de acordo com dados da empresa, dar ao usuário mais controle sobre ela torna-se também uma estratégia competitiva. Ou seja, quanto maior o envolvimento com o próprio perfil de gosto, mais elevado tende a ser o vínculo com a plataforma.

IA, criatividade e autenticidade

David Friedberg e Lainey Wilson durante o SXSW 2026
David Friedberg e Lainey Wilson (Imagem: transmissão via YouTube/ canal SXSW)

Durante o painel, o investidor David Friedberg comparou a IA generativa a tecnologias que democratizaram a criação no passado, como sintetizadores ou softwares de edição de imagem. Para ele, a tecnologia reduz custos e amplia o potencial criativo de artistas e produtores.

Já Lainey Wilson alertou para o medo da despersonalização e do uso indevido da imagem e voz, à medida que conteúdos gerados por IA se multiplicam. Em meio a esse temor, a autenticidade humana ganha ainda mais valor. Experiências coletivas, por sua vez, como shows ao vivo, continuam insubstituíveis, o que ajuda a explicar o crescimento do mercado de eventos musicais.

A síntese do debate sugere que o futuro do streaming tende a ser híbrido, sustentando uma colaboração contínua entre tecnologia, criadores e público. E, nessa dinâmica, o controle do gosto pode se tornar tão importante quanto o próprio conteúdo.

Dúvidas mais comuns

O "Taste Profile" é uma funcionalidade do Spotify que permite aos usuários visualizar e modificar seu próprio perfil algorítmico de preferências musicais, dando mais controle sobre a personalização do serviço.

O Spotify está evoluindo de um modelo de recomendação passiva para um modelo colaborativo, onde o usuário pode interagir diretamente com o algoritmo, ajustando preferências e gerando playlists personalizadas por meio de comandos em linguagem natural.

As quatro montanhas foram: 1) acesso, enfrentando a pirataria e oferecendo modelo freemium; 2) mobilidade, migrando para dispositivos móveis; 3) ubiquidade, integrando múltiplos dispositivos via Spotify Connect; 4) adaptação de formatos, unificando músicas, podcasts e audiolivros em uma interface única.

A quinta montanha representa a fase de geração e interatividade, onde o algoritmo deixa de apenas recomendar conteúdos baseados no histórico do usuário para colaborar com ele na criação de experiências personalizadas, como playlists geradas por prompts de linguagem natural.

A IA generativa democratiza a criação, reduz custos e amplia o potencial criativo de artistas e produtores, permitindo novas formas de interação e produção musical, embora também levante preocupações sobre autenticidade e uso indevido de imagem e voz.

Dar controle ao usuário aumenta o envolvimento com o perfil de gosto pessoal, melhora a personalização e fortalece o vínculo com a plataforma, tornando-se uma estratégia competitiva importante em um mercado onde mais de 80% dos ouvintes valorizam a personalização.

O Spotify permite que os usuários descrevam suas preferências em linguagem natural para gerar playlists específicas, como na funcionalidade "Prompted Playlist", tornando a interação mais intuitiva e colaborativa entre usuário e algoritmo.