– As “soft skills”, ou habilidades comportamentais, estão se tornando mais relevantes que as competências técnicas no ambiente de trabalho atual, segundo pesquisa da Harvard Business Review.
– Líderes devem desenvolver habilidades sociais, como comunicação clara e empatia, para extrair o melhor de suas equipes e se adaptarem às rápidas mudanças do mercado.
– O estudo aponta que profissionais com uma ampla base de soft skills são mais resilientes e tendem a alcançar cargos mais altos e salários maiores, enquanto o conhecimento técnico tem um prazo de validade cada vez menor.
Resumo supervisionado por jornalista.No novo ambiente de trabalho, no qual as mudanças tecnológicas se impõem de forma cada vez mais rápida e a todo momento desafiam esquemas pré-estabelecidos, as chamadas “soft skills”, ou habilidades comportamentais, estão ganhando mais espaço que as competências técnicas.
Segundo especialistas e também de acordo com uma pesquisa da Harvard Business Review, o novo profissional deve reunir e cultivar características como boa comunicação, pensamento crítico, adaptabilidade, talento para atuar em grupo e muita inteligência emocional.
No caso específico dos líderes, para alcançar sucesso, agora, é preciso desenvolver habilidade social, que reúne competências como capacidade de se comunicar de forma clara, nutrir empatia pelos membros das equipes e ter sensibilidade para coordenar diferentes expertises, extraindo de seus times o melhor que têm para dar.
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Tanto para gestores quanto para os coordenados, as qualidades comportamentais ganharam tanta relevância que, segundo a coach executiva Adriana Gomes, mestre em Psicologia Social e do Trabalho, já há um movimento no mercado que renomeia as “soft skills” como “power skills”.
“Essas competências não são mais apenas desejáveis, mas determinantes para que o profissional tenha sucesso e possa crescer”, explicou a coach, em reportagem publicada no Valor Econômico.
Estudo nos EUA avaliou habilidades profissionais
A pesquisa da Harvard Business Review analisou, entre 2005 e 2019, mais de mil ocupações, 70 milhões de transições de emprego e centenas de habilidades profissionais usadas na progressão de carreira, nos EUA. O estudo foi conduzido por Moh Hosseinioun, pós-doutorando em gestão na escola de negócios americana Kellogg School of Management; Frank Neffke, líder de programas de pesquisa do centro de estudos Complexity Science Hub, em Viena, Áustria; e os professores Hyejin Youn, da Universidade Nacional de Seul, na Coreia do Sul, e Letian Zhang, também da Kellogg.

Como conclusão, o estudo apontou que os talentos que possuíam “uma ampla base de soft skills”, antes colegas que investiram somente em competências técnicas, ascenderam a cargos maiores e se mostraram mais resilientes em meio às transformações do mercado de trabalho, que inclui o emprego de Inteligência Artificial, por exemplo.
“Isso ocorreu porque as soft skills ajudaram esses trabalhadores a serem mais adaptáveis e lhes deram terreno para se adequar a transições organizacionais, uma característica valorizada em posições de maior remuneração”, afirmou Hosseinioun.
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Capacidade de compreensão de textos é valorizada
Segundo o coautor da pesquisa, o estudo constatou que, além dos chamados “talentos sociais”, pessoas com alta capacidade de compreensão de textos e habilidades de comunicação tendem a aprender mais rápido e dominar competências complexas com o passar dos anos. O pensamento crítico e a habilidade de resolver problemas intrincados também são fundamentais no atual universo do trabalho.
A pesquisa também concluiu que quem reúne mais soft skills ganha mais do que quem oferece apenas capacitação técnica ou tecnológica. Esses profissionais tornaram-se mais “valiosos”, destacou Hosseinioun.
O professor acrescentou que posições “que combinam capacidade cognitiva e habilidade social” pagam os maiores salários. Nos EUA, a quantidade de cargos que exige um alto nível de interação social cresceu quase 12 pontos percentuais entre 1980 e 2012, enquanto as posições que precisam de muito esforço matemático e pouco contato humano diminuíram.
Conhecimento agora tem “prazo de validade”
A novidade, segundo o que mostrou a pesquisa e comentários de especialistas, é que agora “conhecimento tem prazo de validade”. Segundo Hosseinioun, “a vida útil” das habilidades, ou o tempo no qual metade do que se sabe fica obsoleto, caiu de dez anos, na década de 1980, para quatro anos, nos tempos atuais.

“Em breve, essa duração pode ser reduzida para menos de dois anos”, alertou o professor.
Os gestores não escapam dessa nova dinâmica de conhecimento e sensibilidade. A tendência de valorização das soft skills é ainda mais pronunciada no patamar das chefias, segundo Hosseinioun.
“Uma análise de 34 milhões de vagas de emprego gerenciais nos EUA mostra que, desde 2007, os empregadores triplicaram a proporção de colocações que enfatizam aspectos como colaboração, coaching e influência, enquanto o volume de requisitos ligados à liderança tradicional, como saber centralizar decisões, encolheu”, informou o professor.
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Líderes devem cultivar aprendizado contínuo
Na opinião de David Braga, CEO e headhunter da Prime Talent Executive Search, de recrutamento de profissionais, a capacidade de os líderes se adequarem a situações inesperadas e de se comunicar de forma efetiva está valendo “ouro” nas organizações. Braga sustentou que os gestores precisam cultivar uma mentalidade de aprendizado contínuo, de resiliência e abertura para experimentar novas formas de trabalhar.
“Cerca de 39% das habilidades consideradas essenciais hoje se tornarão obsoletas até 2030”, sentenciou o executivo, baseando-se em pesquisa do Fórum Econômico Mundial. “Pessoas adaptáveis não apenas respondem bem às mudanças, mas antecipam tendências e contribuem para a inovação nas organizações”, acrescentou.
Como avaliar e estimular as soft skills
A partir dos resultados que coletou, Hosseinioun revelou três orientações para que as lideranças consigam priorizar as soft skills em seus quadros, conforme resumido abaixo.
1. Contrate os candidatos certos: avalie pontos fortes, como habilidade para resolução de problemas, adaptabilidade e comunicação; nas entrevistas de emprego, faça perguntas para entender como os candidatos aprendem, colaboram e respondem a incertezas.
2. Desenvolva talentos: invista em desenvolvimento logo no início da carreira dos funcionários; fortaleça a colaboração e a agilidade de aprendizagem e não apenas a proficiência técnica.
3. Saiba liderar: valorize as habilidades dos membros da equipe, reconheça qualidades como resolução colaborativa de problemas; promover feedbacks e dinâmicas de grupo pode enfatizar o desenvolvimento de competências, incorporando-as à cultura da empresa.