- A saúde financeira dos colaboradores é reconhecida como componente essencial da saúde mental e física, tornando-se uma preocupação corporativa no Brasil.
- Pesquisa da fintech Onze indica que 64% dos trabalhadores tiveram saúde mental afetada por problemas financeiros, com ansiedade e insônia como principais sintomas.
- Empresas como Fundação Dom Cabral adotam metodologias inovadoras para avaliar pobreza multidimensional, ampliando ações de bem-estar para colaboradores e suas famílias.
A saúde financeira dos colaboradores deixou de ser uma questão estritamente pessoal e se consolidou como um ponto crítico para as empresas no Brasil. Em um contexto de altas taxas de endividamento – onde mais de 78% das famílias brasileiras estavam com dívidas em maio deste ano, conforme a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) –, o ambiente corporativo tem sido instigado a abrir a conversa sobre o tema.
E o impacto vai muito além do caixa. A questão financeira está intrinsecamente ligada à saúde emocional, formando o que especialistas chamam de “tripé da saúde: financeira, mental e física”. De acordo com um levantamento da fintech Onze, feito em setembro de 2024, 64% dos trabalhadores já tiveram a saúde mental afetada por problemas financeiros, sendo que 71% destes sofreram de ansiedade e 57% de insônia. O cenário de crise é reforçado pelo registro de mais de 267 mil afastamentos por transtornos mentais no primeiro semestre de 2025, mantendo uma curva de alta preocupante.
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A dificuldade em lidar com as finanças é generalizada: 80% dos participantes da pesquisa Hábitos Financeiros dos Brasileiros, realizada em 2024, afirmaram ter dívidas, e 41% disseram entender pouco ou quase nada sobre finanças pessoais e investimentos. A isso se soma a onda perigosa que é o crescimento das apostas esportivas (bets), que, para 47% dos 23 milhões de apostadores em 2024, resultaram em endividamento, tornando-se uma questão de saúde pública.
Para lidar com essa realidade complexa e muitas vezes solitária, organizações maduras têm implementado abordagens holísticas, que incluem desde a educação financeira e campanhas de conscientização sobre dívidas e vícios, até a oferta de suporte psicossocial e assessoria jurídica. No entanto, algumas empresas buscam ir além, investindo em ferramentas robustas para medir e combater a vulnerabilidade em suas raízes.
Organizações como a multinacional Basf e a brasileira Magazine Luiza possuem projetos em prol do tripé de saúde dos colaboradores, mas também consideram que é necessário um papel ativo do colaborador, ou seja, ele precisa estar aberto e consciente da importância do tema.
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ComViver

Na Fundação Dom Cabral (FDC) foi desenvolvido o Projeto ComViver: uma pesquisa de equilíbrio social que endereça a pobreza multidimensional entre seus funcionários e respectivas famílias.
O projeto é considerado inovador por seu ineditismo no Brasil, utilizando a metodologia do Índice de Pobreza Multidimensional Empresarial (IPMe), uma adaptação da ferramenta desenvolvida pela Iniciativa de Pobreza e Desenvolvimento Humano (OPHI) da Universidade de Oxford.
O conceito de pobreza multidimensional reconhece que a dignidade da vida envolve mais do que apenas a renda. O método Alkire-Foster, que serve de base, utiliza três macro dimensões (saúde, educação e padrão de vida) e 12 indicadores (como nutrição, escolaridade, saneamento básico, habitação e bens) para determinar a incidência e intensidade da pobreza em um grupo familiar.
A FDC firmou contrato em outubro de 2022 com a Wise Responder (parceira da OPHI) para aplicar o IPMe, tornando-se a primeira organização a implementar esta ferramenta no país. A iniciativa se diferencia de outras ações de bem-estar por ser uma abordagem abrangente e integrada, cujo escopo ultrapassa as responsabilidades tradicionais do RH ao incluir os familiares dos colaboradores em sua análise.
A primeira aplicação da pesquisa, realizada em 2023, foi entre os colaboradores da própria instituição, o que permitiu avaliar se existiam famílias em situação de pobreza multidimensional e fazer um acompanhamento individualizado e confidencial. Além disso, a pesquisa permitiu identificar tendências de toda a população da FDC, fazendo com que novos programas e ações do RH fossem criados e/ou fortalecidos para endereçar questões de atenção geral, como o caso da saúde financeira dos colaboradores.
“O Projeto ComViver reflete a alma da Fundação Dom Cabral em seu sentido mais genuíno, colocando em primeiro lugar o aspecto humanizador na relação com seus colaboradores. Guiado pela missão da FDC de contribuir para o desenvolvimento da sociedade, este é um projeto que encarna de maneira pragmática a sabedoria de que para o fazer de forma efetiva é indispensável que os colaboradores da FDC estejam fortalecidos. E isso passa por colocar em prática mecanismos concretos que criem condições para que os colaboradores tenham uma vida profissional plena e uma vida pessoal (com suas respectivas famílias) que seja próspera”, afirma André de Almeida, professor e pesquisador da FDC, que conduz o projeto ao lado da professora associada Flávia Alvim. Segundo ele, essa postura reforça a ideia de que, além de visar um retorno mensurável em produtividade, as empresas devem encarar essas ações como uma contrapartida social, promovendo o cuidado integral dos colaboradores e gerando um impacto positivo que se reverte para toda a comunidade.