• O setor de Recursos Humanos evolui para RHA ao incorporar a gestão de agentes de inteligência artificial em processos híbridos entre humanos e IA nas organizações.
  • Mais de 80% dos projetos de IA falham por automatizar processos antigos sem redesenho, enquanto RHAs que inovam ganham até 70% de agilidade em recrutamento.
  • A transformação para RHA exige novas competências em tecnologia, arquitetura de processos e learning agility, além de redefinir funções e cultura organizacional no RH.
Resumo supervisionado por jornalista.

Daqui em diante, além de gerir pessoas, os RHs precisarão gerir agentes de IA, que atuarão cada vez mais de forma coparticipativa e integrada a nós, humanos, nas estruturas organizacionais. Tal como em outras profissões, portanto, os líderes – e todo o contingente de RH – devem incorporar uma nova letra (A) às suas funções, consolidando a sigla RHA, para Recursos Humanos e Autônomos.

Esse foi um dos principais assuntos nos palcos e corredores do HR4Results, evento realizado pela Gupy, em meados de março, em São Paulo, e com cobertura do Seja Relevante.

RHA é inovação, não adaptação

Mariana Dias, CEO e cofundadora da Gupy, resumiu que o avanço da tecnologia não elimina o papel humano, mas amplia a complexidade da gestão, à medida que a área passa a lidar com equipes híbridas (humanos e agentes de IA). Para ela, o ponto de atenção é a forma como a tecnologia tem sido implementada nas companhias, algo que pode (deve) ser aprimorado com maior participação dos profissionais de RH (agora RHA) na seleção de tecnologias. 

“Mais de 80% dos projetos de IA não estão dando certo, segundo a McKinsey, porque as empresas estão pegando processos antigos e colocando para automatizar. Não é isso”, disse. O RHA, portanto, não é adaptação, mas sim inovação, na visão da executiva.

A experiência da Gupy no recrutamento ilustra essa diferença de abordagem. Segundo Mariana, a empresa identificou que nem todas as etapas dos processos seletivos, por exemplo, têm a mesma natureza e, portanto, não podem usar as mesmas ferramentas comoditizadas. “A entrevista no fechamento da vaga, por exemplo, deve continuar a ser feita por humanos, enquanto outras partes do processo seletivo podem ser automatizadas”, afirmou. “Dentro dessa experiência, também percebemos que as empresas que tentaram refazer o recrutamento (adotando IA) sem mudar a lógica, não tiveram sucesso. Mas, quem conseguiu redesenhar o processo, obteve ganhos de agilidade de até 70%”, destacou.

Mariana Dias, CEO e cofundadora da Gupy
Mariana Dias, CEO e cofundadora da Gupy (Foto: Divulgação)

O ganho comentado pela executiva não está apenas na automação, mas na arquitetura do processo. É preciso, segundo ela, relacionar visão, intenção, regras, limites e cultura. “Isso envolve definir o que pode ser delegado à tecnologia, quais critérios orientam as decisões e como a cultura organizacional é incorporada aos fluxos automatizados”, detalhou.

A mudança no modelo operacional também altera os perfis profissionais dentro do RH. Segundo Mariana, com isso surgem novas funções associadas à gestão de agentes de inteligência artificial. “Agora temos o arquiteto, que define visão, cultura, limites e práticas de segurança; o designer de agentes e prompts de IA; e o operador, que passa a ser um agente de IA que executa funções operacionais”, explicou.

Assim, as atividades antes realizadas por pessoas passam a ser executadas por sistemas, enquanto os humanos assumem funções de desenho, supervisão e governança. Esse movimento amplia o escopo da área, de modo que o RH deixa de atuar apenas na gestão de pessoas para incorporar competências ligadas à tecnologia, dados e arquitetura de processos.

Cultura, aprendizado e adaptabilidade

A transição para o RHA também muda as competências individuais, e o conceito de learning agility ganha relevância nesse cenário. “A capacidade de aprender rápido não é mais uma hard skill. Agora, é uma soft skill”, disse Mariana (leia: Nem hard, nem soft: o que importa são as real skills). 

Na prática, isso desloca o foco da formação técnica para aspectos ligados à cultura e comportamento e, nesse cenário, adaptabilidade, curiosidade e aprendizado contínuo passam a ser critérios de avaliação e desenvolvimento.

Camila Pinto, diretora de People Design do iFood, ponderou ser natural que surja “medo” na implementação de IA no dia a dia dos profissionais de RH. Na foodtech, a proposta foi transformar medo em curiosidade, o que trouxe efeitos positivos não só no departamento de RH, mas em todos os demais da companhia. “Para ser IA first, trabalhamos em três dimensões: mindset, desenvolvimento de habilidades (skillset) e acesso a ferramentas (toolset), com etapas de conscientização, prática e internalização”, disse.

Camila Pinto, diretora de People Design do iFood
Camila Pinto, diretora de People Design do iFood (Foto: Divulgação)

O movimento inclui ações práticas, como criação de agentes de inteligência artificial pelos próprios colaboradores. Aliás, essa frente alcançou “resultado surpreendente” de 10 mil agentes criados em 10 meses, segundo Camila.

IA em partes do RH

Além de processos mais holísticos, como o do iFood, a tecnologia avança em partes isoladas do RH, caso da checagem de antecedentes. Murilo Oliveira é diretor de marketing da Gedanken e revelou ao Seja Relevante que, com apoio de inteligência artificial, as análises realizadas pela empresa podem envolver centenas de bases de dados simultaneamente. “Conseguimos analisar e consolidar mais de 400 bases públicas em poucos instantes, com geração automática de relatórios estruturados”, disse.

De acordo com ele, a checagem de antecedentes da Gedanken é automatizada de ponta a ponta, indo “desde a coleta de dados até a validação e apresentação das informações”. Segundo ele, isso oferece ganho de escala e padronização, reduzindo o tempo operacional, aumentando a segurança da análise e padronizando critérios, além de apoiar a conformidade com governança e LGPD.

O Seja Relevante apurou, junto aos especialistas presentes no HR4Results, que a automação promovida pela IA amplia eficiência e escala, como relatou Oliveira, mas exige revisão de processos, definição de limites e desenvolvimento de novas competências. E, sim, esse ajuste cabe à sensibilidade natural dos, agora, RHAs.

Dúvidas mais comuns

RHA significa Recursos Humanos e Autônomos, uma evolução do RH tradicional que incorpora a gestão de agentes de inteligência artificial (IA) junto à gestão de pessoas. O RHA busca processos híbridos e mais fluídos, onde humanos e agentes de IA atuam de forma integrada e coparticipativa nas organizações.

A gestão de agentes de IA é importante porque amplia a complexidade da gestão organizacional, exigindo que o RH não apenas administre pessoas, mas também supervisione sistemas inteligentes que automatizam e otimizam processos. Isso permite ganhos de agilidade, eficiência e inovação, desde que os processos sejam redesenhados para incorporar a tecnologia adequadamente.

Dentro do RHA surgem novas funções como o arquiteto, que define visão, cultura, limites e práticas de segurança; o designer de agentes e prompts de IA; e o operador, que atua como um agente de IA executando funções operacionais. Essas funções envolvem desenho, supervisão e governança dos sistemas inteligentes.

A cultura organizacional é fundamental para definir o que pode ser delegado à tecnologia, quais critérios orientam as decisões automatizadas e como os valores da empresa são incorporados aos fluxos automatizados. Uma cultura aberta à inovação, aprendizado contínuo e adaptabilidade facilita a integração bem-sucedida da IA no RH.

Um gestor de agentes de IA é o profissional responsável por identificar, coordenar e implementar o uso da inteligência artificial dentro da organização, garantindo que os agentes de IA atuem de forma eficaz e alinhada aos objetivos estratégicos da empresa.

Agentes de IA são sistemas de software que utilizam inteligência artificial para alcançar objetivos e realizar tarefas em nome dos usuários. Eles possuem autonomia para tomar decisões, aprender, se adaptar, e demonstram capacidades como raciocínio, planejamento e memória.

Ao redesenhar processos seletivos para incorporar IA, as empresas podem obter ganhos de agilidade de até 70%. Isso ocorre porque a automação é aplicada de forma estratégica, automatizando etapas que podem ser otimizadas, enquanto etapas críticas, como entrevistas finais, continuam sendo conduzidas por humanos.