• O conceito de regeneração está substituindo a sustentabilidade nas empresas ao focar na restauração e revitalização de ecossistemas e comunidades de forma proativa e sistêmica.
  • Empresas como Natura, Patagonia e Ikea adotam práticas regenerativas e circulares, como agricultura regenerativa, economia circular e programas de devolução para reduzir impactos ambientais.
  • A transição para a regeneração exige medir impactos com relatórios de dupla materialidade e pequenas transformações que promovem mudanças significativas no setor corporativo.
Resumo supervisionado por jornalista.

O conceito de regeneração, em substituição ao de sustentabilidade, começa a ganhar tração no mundo corporativo. Não que seja algo novo.

O Fórum Econômico Mundial (WEF), por exemplo, já discutia o tema em 2024, apostando como as empresas poderiam aproveitar a tendência, desde que considerassem o trio de regeneração de pessoas, lugares e do planeta. A brasileira Natura, por sua vez, adota relatórios que vão além dos resultados financeiros. Em 2022, ela mostrou que para US$ 1 faturado, teria entregue US$ 2,7 em benefícios à sociedade.

Fórum Econômico Mundial no Davos 2026 com bandeiras de vários países e cenário de montanhas nevadas ao fundo.
Foto: World Economic Forum via Flickr

Ao contrário da sustentabilidade, focada em reduzir os danos, pela diminuição do consumo ou das emissões de gases de efeito estufa, entre outros, a regeneração trata de restaurar, renovar e revitalizar ecossistemas e a saúde das comunidades. Ela é de impacto sistêmico e de longo prazo. Acima de tudo, é proativa e não reativa, como a sustentabilidade.

O conceito, como pontua artigo do site Stanford Social Innovation Review, privilegia o aperfeiçoamento dos sistemas, repondo recursos naturais.

Os exemplos incluem a marca Patagonia que, ao entrar no setor alimentício em 2012, adotou a agricultura regenerativa para restaurar a saúde do solo, a biodiversidade e os ecossistemas, em vez de esgotá-los. Ela também foi uma das fundadoras da Aliança Orgânica Regenerativa (ROA) para criar certificações padronizadas de sustentabilidade.

Já a produtora de café Illy montou um plano de três fases focado em reter carbono no solo, melhorar práticas agronômicas com plantações-piloto sem carbono, desenvolver sementes mais resilientes às mudanças climáticas e migrar plantações para maiores altitudes ou latitudes.

A Dr. Bronner’s, fabricante de sabonetes, por sua vez, passou a certificar seus ingredientes com selos de práticas orgânicas regenerativas e comércio justo, criando relacionamentos diretos com agricultores de países como Sri Lanka, Gana e Índia.

Circularidade

Pessoa segurando uma caixa com cabos e componentes eletrônicos reciclados, promovendo o reuso de produtos eletrônicos e combatendo a cultura do descarte na tecnologia
Foto: Estrada Anton / Shutterstock

As iniciativas também envolvem a economia circular, como é o caso da Interface, que inovou ao alugar seus carpetes e pisos em vez de vendê-los, cobrando uma mensalidade pela instalação, manutenção e remoção. Quando o cliente não precisa mais do piso, a empresa o retira para reciclar ou revender, criando um sistema de circuito fechado carbono negativo.

A startup Back Market, por sua vez, tem um modelo parecido, atuando como uma plataforma de venda de produtos eletrônicos recondicionados, promovendo o reuso e combatendo a cultura do descarte no setor de tecnologia.

Indo na contramão de empresas que lucram com novos lançamentos frequentes, a fabricante holandesa de celulares Fairphone incentiva os consumidores a consertarem seus aparelhos em vez de substituí-los, com o objetivo de minimizar o uso de metais.

Já a famosa varejista Ikea criou um programa em que os clientes podem devolver produtos usados em troca de créditos, com descontos de 30% a 50% do valor original na loja, para que esses itens sejam revendidos.

A jornada de circularidade que envolve a regeneração não é simples, como explica o artigo da consultoria EY. Um dos requisitos é medir os impactos das estratégias, com iniciativas diferenciadas como os relatórios de dupla materialidade de ESG. São documentos que exploram aspectos externos à empresa, inclusive na economia, e não somente nos stakholders tradicionais, como faz a Natura.

De acordo com especialistas da consultoria, a maioria das empresas encontra-se em diferentes pontos de sua jornada simultaneamente, talvez sendo sustentáveis ​​em uma dimensão e caminhando rumo à neutralidade em outra. Segundo eles, é difícil para qualquer empresa ser verdadeiramente regenerativa nos dias de hoje, mas é possível iniciar pequenas transformações. São essas mudanças pontuais, inclusive, que resultarão em uma grande transformação, tanto dentro quanto fora da companhia. 

Dúvidas mais comuns

Regeneração é o ato de se renovar, refazer ou recuperar, podendo ser um processo biológico, moral/espiritual ou técnico/químico. No contexto geral, significa restaurar ou renovar algo que estava degradado, como ecossistemas ou sistemas sociais, promovendo um renascimento ou reconstrução após um dano ou perda.

Enquanto a sustentabilidade foca em reduzir danos, como diminuir o consumo e as emissões de gases, a regeneração busca restaurar, renovar e revitalizar ecossistemas e comunidades. A regeneração é proativa, de impacto sistêmico e de longo prazo, enquanto a sustentabilidade é mais reativa e voltada para a redução de impactos negativos.

Empresas como Natura, Patagonia, Illy, Dr. Bronner's, Interface, Back Market, Fairphone e Ikea adotam práticas regenerativas que incluem agricultura regenerativa, certificações orgânicas, economia circular, reuso de produtos e programas de devolução para revenda, promovendo a restauração ambiental e social.

Economia circular é um modelo que busca manter produtos, materiais e recursos em uso pelo maior tempo possível, reduzindo o desperdício. Ela se relaciona com a regeneração ao promover sistemas de circuito fechado, como aluguel e reciclagem de produtos, que ajudam a restaurar recursos naturais e minimizar impactos ambientais.

Um dos principais desafios é medir os impactos das estratégias regenerativas, que envolvem aspectos externos à empresa e à economia. Muitas empresas estão em diferentes estágios da jornada regenerativa, sendo sustentáveis em algumas áreas e buscando neutralidade em outras. A transformação completa é complexa, mas pequenas mudanças podem gerar grandes impactos.

Relatórios de dupla materialidade em ESG avaliam não só os impactos financeiros e operacionais para a empresa, mas também os efeitos externos que a empresa causa na sociedade e no meio ambiente. Eles são importantes para medir de forma mais ampla e transparente os resultados das estratégias regenerativas e sustentáveis.