- A reforma administrativa é um processo contínuo e estrutural que visa modernizar o funcionamento do Estado, alinhando-o aos interesses da sociedade com eficiência e custo aceitável.
- O grupo de trabalho da Câmara dos Deputados debate questões estruturais como sistema de carreiras, vínculos, remunerações e gestão meritocrática, buscando superar disfunções e desalinhamentos institucionais.
- A participação ativa da sociedade civil e instituições como a Fundação Dom Cabral é essencial para garantir uma reforma que fortaleça o Estado, proteja princípios democráticos e qualifique políticas públicas.
Recentemente, a Câmara dos Deputados criou um grupo de trabalho (GT) para elaborar uma proposta de reforma administrativa.
O termo Reforma administrativa é uma denominação popular para um conjunto de medidas cujo objetivo é melhorar o funcionamento do Estado, proporcionando incentivos para que as organizações públicas se voltem aos interesses da sociedade, com um custo aceitável.
Por um lado, a reforma administrativa é um processo contínuo, tema perene, que ocorre na atuação gradual das áreas governamentais responsáveis pelas políticas públicas de gestão: planejamento, avaliação de políticas públicas, gestão de pessoas, gestão de suprimentos, governo digital e organização governamental, entre outros.
Por outro ângulo, de tempos em tempos, intensifica-se o debate em torno da necessidade de mudanças mais estruturais e abrangentes. Isto se justifica porque há limitações estruturais que não podem ser tratadas de forma gradualista e incremental, mas, também, porque há problemas nas áreas citadas acima, as quais estão muito correlacionados – o que impõe uma visão sistêmica e uma atuação integradora.
Questões estruturais
Dentre as questões estruturais estão o sistema de carreiras, vínculos e remunerações, que se tornou anacrônico, disfuncional e injusto. Incluem-se também a necessidade de adotar modelos robustos de gestão do desempenho e de ocupação de cargos gerenciais, segundo requisitos meritocráticos.
A organização governamental também padece de muitas disfunções, tais como a proliferação de tipos de personalidades jurídicas e o nivelamento da autonomia gerencial. O modelo de gestão do desempenho institucional não está integrado a um planejamento governamental. Estas limitações e lacunas promovem significativo desalinhamento de resultados e baixo aproveitamento de recursos.
As soluções para estes problemas vêm sendo debatidas há anos, capitaneadas pela sociedade civil (com destaque para a atuação do Instituto República e o Movimento Pessoas à Frente), com a presença da academia. A Fundação Dom Cabral (FDC) tem tido uma atuação essencial neste processo, aportando dados, estudos e a interlocução com professores da área de gestão pública.
A FDC também esteve presente nas reuniões técnicas e audiências do GT da Câmara, trazendo contribuições relevantes ao diagnóstico de problemas e modelagem de soluções, em linha com a atuação do Centro de Gestão Pública e do projeto Imagine Brasil.
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Reforma administrativa deve proteger princípios democráticos
A nova fase da reforma administrativa no Congresso apresenta avanços metodológicos e um discurso mais comprometido com a escuta social. O GT tem a oportunidade de construir um novo pacto em torno da administração pública. Para isso, é fundamental que a sociedade civil permaneça atenta, participativa e crítica.
A verdadeira reforma administrativa será aquela capaz de fortalecer o Estado, proteger os princípios democráticos e qualificar a entrega de políticas públicas.
Concluir essa etapa com responsabilidade, diálogo e compromisso com resultados pode tornar essa reforma diferente das anteriores. Mais do que mudar regras, trata-se de fortalecer o Estado e qualificar a entrega de serviços à população. Nesse caminho, a contribuição permanente FDC tem sido fundamental, reunindo conhecimento técnico e compromisso com a gestão pública de qualidade.
* Renata Vilhena e Humberto Martins, professores da Fundação Dom Cabral (FDC)