Por trás dos grandes cartazes, das promoções, da propaganda massiva e do ambiente muitas vezes sofisticado dos super e hipermercados, existe uma realidade desconhecida pela maioria dos clientes. O universo das chamadas “redes associativas” ou “centrais de negócios” reúne 94 grupos, que congregam nada menos que 3.000 médias empresas, em 14 estados brasileiros.
Esse contingente invisível para a maioria dos consumidores gera negócios e empregos que contribuem para o desenvolvimento das regiões. E a boa notícia é que o setor está em expansão, com mais da metade dos empreendedores planejando aumentar a atuação.
Esse cenário foi descoberto por pesquisa realizada em agosto e setembro deste ano, pelo Observatório Brasileiro de Redes e Centrais de Negócios, coordenado pelo professor Douglas Wegner, da Fundação Dom Cabral (FDC).
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Ações conjuntas alavancam competitividade

Pela definição do Observatório, diferente das redes corporativas, que têm filiais próprias, e do modelo de franquias, as redes associativas ou centrais de negócios reúnem médias empresas independentes, de um mesmo setor. As empresas participantes de uma rede associativa mantêm sua individualidade legal, mas realizam ações conjuntas para alavancar sua competitividade. A colaboração permite ganhos de escala, redução de custos e parcerias para inovação coletiva.
Ainda conforme o levantamento, o setor de supermercados reúne o maior número de redes associativas no Brasil, seguido dos setores de varejo de material de construção e farmacêutico. Apesar de muitos desafios enfrentados, em especial a concorrência com grandes varejistas, as centrais de negócios têm um cenário promissor pela frente e demonstram características muito positivas, conforme levantou a pesquisa:
- 76,1% das redes existem há mais de 15 anos
- 45,2% das centrais cresceram nos últimos três anos
- 52,4% das redes pretendem expandir os negócios
Sudeste reúne maior parte das centrais

O Mapa das Redes traçado pelo Observatório mostrou que a maior concentração de redes associativas de supermercados está na região Sudeste do Brasil (43,6%). Somente no estado de Minas Gerais há 16 redes ativas, reunindo centenas de médias empresas. As demais redes mapeadas concentram-se na Região Sul (27,6%), seguida por Nordeste (25,5%) e Centro-Oeste (3,2%). Não foram identificadas redes de formato associativo na Região Norte, o que, segundo Wegner, representa uma oportunidade para empresários e entidades de apoio ao empreendedorismo.
Apesar do cenário favorável em torno das redes associativas, elas enfrentam muitos desafios. O maior deles, segundo os 42 gestores entrevistados, refere-se à concorrência com grandes players. As mudanças estruturais do setor de varejo de alimentos ocorridas na última década, como a agressividade dos atacarejos (modelo que combina características de atacado e varejo, vendendo produtos para o público final e empresas) e a concentração de mercado afetam as redes associativas, onde predominam empresas de porte médio. Por isso, muitas centrais afirmaram que precisam atrair novas lojas para sobreviver e alcançar ganhos coletivos.
É preciso desenvolver governança
O segundo principal desafio é desenvolver governança e promover alinhamento entre os associados. Para os gestores entrevistados, o modelo associativista depende de um forte espírito coletivo. Mas conseguir esse alinhamento não é simples, exigindo estratégias de engajamento e mecanismos de fortalecimento da confiança entre os parceiros.
Um terceiro desafio refere-se à base de associados – o número de empresas ligadas e sua heterogeneidade. Apesar do crescimento do total de redes no Brasil nas duas últimas décadas, muitas ainda possuem abrangência regional e baixo número de participantes, o que limita o poder de negociação com fornecedores e ações coletivas. O quarto desafio refere-se a tributos e ao ambiente regulatório brasileiro, que não favorece a atuação associativa.
Futuro exige emprego de tecnologia
A pesquisa reforçou que o futuro das centrais envolve a profissionalização da gestão e boas práticas de governança. As redes precisam implementar iniciativas que estimulem o engajamento e o comprometimento dos associados nas ações coletivas. Isso é fundamental para que as centrais sejam percebidas como relevantes pelos seus membros. Trata-se de buscar o melhor da gestão e aprender com modelos consolidados – como franquias e redes corporativas. A intercooperação entre redes também é uma estratégia que pode alavancar o modelo associativista, promovendo aumento de escala e benefícios para os participantes.
A preparação para o futuro também exige que as centrais invistam no uso de novas tecnologias, como inteligência artificial e blockchain, incorporando-as aos seus processos. Isso significa adotar tecnologias que melhorem processos internos e aumentem eficiência, como a tomada de decisões mais rápida e mais bem fundamentada, a análise de dados de mercado e de clientes para estratégias mais assertivas, bem como a aplicação de ferramentas que ampliem o engajamento e a participação dos associados na vida da rede.