As palavras do ano costumam funcionar como um termômetro social e, em 2025, não foi diferente. Neste ano, as palavras escolhidas por diferentes dicionários apontam, de forma direta, para os efeitos da tecnologia sobre o comportamento humano. Rage bait, escolhida pelo Oxford, parassocial, eleita pelo Dicionário Cambridge, e vibe coding, destaque da Collins, traduzem fenômenos distintos, mas conectados em torno do impacto da incorporação de ferramentas tecnológicas, como a inteligência artificial, no dia a dia das pessoas. 

Mais do que modismos linguísticos, essas expressões sintetizam as transformações que o desenvolvimento de tecnologias cada vez mais disruptivas e entremeadas no cotidiano da sociedade provocam. A monetização das emoções, a reconfiguração dos vínculos sociais e a transformação da relação entre pessoas e sistemas digitais carregam, em última instância, o significado das palavras do ano.

Rage bait pesca emoções negativas

Uma mulher e um homem tendo uma conversa emocional intensa em um ambiente doméstico
Imagem gerada digitalmente

Escolhida como palavra do ano pelo Oxford, rage bait, ou isca de raiva, na tradução para o português, define conteúdos criados deliberadamente para provocar indignação, frustração e revolta, com o objetivo de gerar engajamento online. O crescimento do termo, que triplicou em uso ao longo do último ano, acompanha a intensificação de debates sobre regulação de plataformas e seus conteúdos para preservar o bem-estar digital. 

Embora o conceito dialogue com práticas mais antigas, como o clickbait, o rage bait se diferencia por explorar emoções negativas de forma sistemática e inaugura uma lógica de chamar a atenção. Conteúdos que despertam raiva tendem a gerar mais comentários, compartilhamentos e tempo de permanência, o que resulta em uma melhor performance. 

A compensação para esse tipo de conteúdo fez com que o rage bait evoluísse para estratégias de rage-farming, descrito por Oxford como “uma tentativa mais consistente de manipular reações e gerar raiva e engajamento ao longo do tempo, disseminando conteúdo com iscas para provocar raiva”.

Termo “parassocial” revela relações mediadas pela tecnologia

Se o rage bait fala da manipulação das emoções, parassocial trata a forma como vínculos afetivos são reconfigurados no ambiente digital. A palavra escolhida pelo dicionário Cambridge descreve relações unilaterais em que indivíduos desenvolvem sentimentos de proximidade com celebridades, influenciadores ou, mais recentemente, chatbots de inteligência artificial.

O termo, criado em meados da década 1950 para caracterizar a relação desenvolvida por telespectadores para com as personalidades da TV, voltou a ganhar destaque em um cenário marcado por podcasts confessionais, lives constantes e assistentes conversacionais. Episódios recentes como o bloqueio do “parceiro parassocial número 1” do streamer IShowSpeed impulsionaram as buscas pelo conceito.

A professora de psicologia social experimental na Universidade de Cambridge, Simone Schnall, explica que “com a quebra da confiança na mídia tradicional e convencional, as pessoas se voltam para personalidades individuais como autoridades e, ao passarem muitas horas consumindo seu conteúdo, desenvolvem laços parassociais”.

Vibe coding opera por intuição, não por variáveis

Na esfera do trabalho e da produção, o dicionário Collins registra o vibe coding como a palavra do ano. O termo descreve o uso da inteligência artificial para programar sistemas a partir de linguagem natural, guiado mais pela intuição do que pelo domínio técnico de códigos e sintaxes.

O conceito, associado à popularização de ferramentas generativas, retrata uma nova dinâmica na programação. Em vez de aprender linguagens formais, usuários passam a “conversar” com máquinas, descrevendo o que desejam que elas façam. De acordo com o Collins, se trata de “programar por intuição, não por variáveis”, o que divide especialistas acerca dos impactos que essa adoção pode causar. Há quem veja como algo revolucionário e há quem enxergue como imprudente.

Em suma, a ascensão do termo indica uma mudança cultural, na qual a tecnologia deixa de ser percebida apenas como um sistema técnico e passa a se integrar à experiência cotidiana de forma quase intuitiva.