Enquanto parte dos profissionais opta por entregar apenas o mínimo no trabalho, em um movimento de pouco engajamento com as obrigações e maior preocupação com a qualidade de vida, empresas recorrem a estratégias silenciosas para suprir lacunas sem abrir novos processos seletivos. Essas práticas, nomeadas, respectivamente, de quiet quitting e quiet hiring, alertam para a maneira como empresas gerenciam talentos, especialmente em tempos de orçamento restrito.

De acordo com o diretor de crescimento da Infojobs e porta-voz do Pandapé, Thomas Costa, há um duelo silencioso nas organizações, no qual “de um lado, os profissionais dizem ‘não vou mais trabalhar em excesso pelo mesmo reconhecimento’; de outro, as empresas dizem ‘então vamos redistribuir as funções sem contratar mais pessoas”.

Diante desse cenário, identificar e realocar talentos internos, por meio de movimentações laterais ou verticais, pode ser benéfico tanto para os colaboradores quanto para as empresas, desde que haja planejamento, clareza e valorização dos funcionários. Sem esses cuidados, o que deveria ser oportunidade vira sobrecarga.

Leia também:

Quiet firing: entenda a resposta das empresas para o quite quitting

O que são quiet quitting e quiet hiring

O termo “quiet quitting” é traduzido como “demissão silenciosa” e refere-se a um comportamento no qual o colaborador cumpre apenas suas atribuições formais, sem se engajar além do necessário. No Brasil, o fenômeno tem sido comum entre millennials e a geração Z, que valorizam qualidade de vida, ambientes saudáveis e desenvolvimento da carreira.

De maneira a responder a esse movimento e considerar as limitações de recursos de uma empresa, o quiet hiring se propõe a suprir lacunas e demandas crescentes com os próprios recursos humanos. Para isso, realoca talentos internos, por meio de promoções ou redirecionamentos, sem a abertura de novos processos seletivos.

Em vez de recrutar, as companhias podem investir em mapeamento de habilidades, criar planos de desenvolvimento e usar a tecnologia a favor da mobilidade interna. É o caso da Renner, que utiliza a plataforma Talent Hub para cruzar as pretensões dos profissionais com as oportunidades na empresa. Assim, a varejista consegue, ao mesmo tempo, reter talentos e fortalecer a cultura de valorização.

Como aplicar o quiet hiring de forma estratégica

Ainda que alguns do quadro de funcionários estejam em quiet quitting, a situação pode se transformar em uma oportunidade de reconexão entre empresa e equipe. Para que isso aconteça, segundo Costa, é necessária uma avaliação constante dos escopos de trabalho, evitando a acumulação de funções sem retorno claro em resultados.

Ele também destaca a clareza nos planos de carreira, que devem indicar caminhos de crescimento, desde que o profissional demonstre comprometimento e entregas. 

Dentre outros aspectos, especialistas agruparam algumas iniciativas a serem tomadas para que o quiet hiring seja aplicado de maneira mais eficaz, confira a seguir.

  • Mapear habilidades internas: conhecer as competências e o potencial dos funcionários permite que os responsáveis por realocar as pessoas sejam mais assertivos.
  • Investir em qualificação: identificadas as habilidades internas, é preciso capacitar o profissional para que esteja apto a realizar as demandas que o novo cargo exige.
  • Comunicação clara: ao saber quais são as oportunidades e como funcionam as movimentações internas, reduz-se a probabilidade de frustração.

Com a aplicação correta dessa prática, a empresa pode ganhar em frentes como (1) retenção de talentos, (2) otimização de custos e (3) competitividade. Ao manter o quadro, a empresa faz com que o funcionário se sinta mais valorizado, elimina custos de seleção e treinamento de novos funcionários e consegue responder com maior velocidade às demandas do negócio. Isso porque o quiet hiring pode estar ligado a mudanças temporárias, como férias, licenças e participação em determinados projetos.

Escuta ativa para evitar sobrecarga

Foto: izkes/ Shutterstock

Apesar dos benefícios, o quiet hiring pode gerar atrito quando é feito sem diálogo. Se não houver uma escuta organizacional ativa, o que era para ser uma valorização pode se tornar uma imposição. Por consequência, a frustração aumenta, a produtividade cai e a rotatividade cresce.

Leia também:

Andrea Krewer, da Sodexo, defende a conexão com pessoas 

“O colaborador não quer que o herói seja invisível. A empresa não pode viver de sobrecarga planejada. O ponto de equilíbrio é dar propósito para os dois lados e isso só se constrói com cultura, comunicação e liderança”, conclui Thomas.

Dúvidas mais comuns

Quiet hiring é uma estratégia empresarial que consiste em suprir lacunas e demandas crescentes utilizando os próprios recursos humanos da empresa, realocando talentos internos por meio de promoções ou redirecionamentos, sem abrir novos processos seletivos.

Quiet quitting é o comportamento do colaborador que cumpre apenas suas atribuições formais, sem se engajar além do necessário, enquanto quiet hiring é a resposta das empresas para suprir demandas sem contratar, realocando funcionários internamente para maximizar a produtividade.

Quando bem aplicado, o quiet hiring valoriza os funcionários ao oferecer oportunidades de crescimento e desenvolvimento por meio de movimentações internas, planos de carreira claros e capacitação, o que aumenta o engajamento e a sensação de valorização do colaborador.

É fundamental realizar um mapeamento das habilidades internas, investir em qualificação dos profissionais, manter uma comunicação clara sobre as oportunidades e planos de carreira, além de garantir uma escuta ativa para evitar sobrecarga e frustração dos colaboradores.

O quiet hiring pode trazer benefícios como retenção de talentos, otimização de custos ao evitar processos seletivos externos, maior competitividade e agilidade para responder às demandas do negócio, além de fortalecer a cultura de valorização interna.

Sem planejamento, clareza e diálogo, o quiet hiring pode gerar sobrecarga de trabalho, frustração, queda na produtividade e aumento da rotatividade, pois os colaboradores podem se sentir pressionados e desvalorizados.

A escuta ativa permite que a empresa entenda as necessidades e limites dos colaboradores, evitando a sobrecarga e promovendo um equilíbrio entre as demandas da organização e o bem-estar dos funcionários, o que é essencial para o sucesso do quiet hiring.