Os agricultores familiares produzem grande parte dos alimentos que chegam à nossa mesa, mas também são os que mais sofrem com pobreza e insegurança alimentar. Intervenções baseadas em doações ou subsídios temporários auxiliam esses produtores no curto prazo, mas falham em gerar escala ao não resolverem desafios de gestão enfrentados no campo. O Projeto B.E.N. (Bem-Estar e Nutrição), articulado pela DSM, empresa especializada em nutrição e saúde, buscou uma solução para esse problema, a partir da estruturação de cadeias produtivas com base na lógica de mercado.

Projeto B.E.N.: Ecossistema de Produção Familiar de Ovos

As diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) consideram o ovo como um alimento prioritário para o desenvolvimento cognitivo e capaz de mitigar o atraso no crescimento e a desnutrição. No aspecto produtivo, representa uma atividade de baixo custo inicial, de ciclo financeiro rápido e de fácil implementação em pequenas propriedades.

Segundo um estudo de caso de pesquisadores do Núcleo de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral (FDC), foi a partir desse diagnóstico que a DSM mobilizou parceiros para criar o Ecossistema de Produção Familiar de Ovos, iniciativa que ganhou forma no Brasil no município de Rebouças (PR). O projeto apostou na construção de governança e infraestrutura local e uniu a cooperativa (COMDAFAR), o parceiro operador (Golden Ovos) e o poder público para que as decisões e fluxos funcionassem de forma interdependente.

Um dos gargalos para o pequeno produtor é o gerenciamento do capital de giro e dos riscos operacionais. No modelo desenhado em Rebouças, a COMDAFAR passou a coordenar a gestão financeira e descontou automaticamente os custos de ração e insumos antes do repasse aos produtores. Essa profissionalização garantiu a sustentabilidade da operação e mitigou a inadimplência.

Além da oferta, o ecossistema solucionou a equação da demanda ao integrar esses pequenos produtores a compradores institucionais, por meio de políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). O modelo assegurou vendas estáveis, preços justos e consumo recorrente. A prefeitura local atuou cedendo o terreno para o entreposto e custeando apoio logístico.

Para Julian Fronckzak, presidente da Golden Ovos, a motivação para entrar no projeto estava na possibilidade de testar um modelo de negócios mais inclusivo. “Quando surgiu a oportunidade de trabalhar com agricultores familiares, a gente viu que podia ser mais do que um negócio tradicional. Não era só integrar produtores, era tentar criar uma alternativa de renda para famílias que estavam ficando para trás no modelo convencional”, comentou.

O impacto simultâneo na renda e na nutrição 

O sucesso da abordagem é fruto de uma troca que prefere o investimento de longo prazo à doação efêmera. Em Rebouças, a integração de oito famílias agricultoras gerou uma produção mensal de cerca de 330 mil ovos.

O impacto econômico foi direto: cada família passou a contar com uma renda extra média de R$ 3.660 mensais, o que trouxe uma estabilidade financeira em contraste à alta volatilidade de suas atividades anteriores. O impacto social e nutricional alcançou escala populacional, com ovos produzidos abastecendo 242 escolas públicas e 118 entidades sociais da região, para o benefício de mais de 30 mil pessoas.

A inovação como diferencial 

Mãos seguram ovos em embalagem plástica transparente em uma prateleira de supermercado, destacando a inovação como diferencial no Projeto B.E.N.
Foto: Sergey Ryzhov / Shutterstock / Modificada com IA

No âmbito dos negócios, o Ecossistema de Produção Familiar de Ovos se consolidou como um modelo de inovação para a DSM. Embora não tenha gerado lucros financeiros diretos, a iniciativa recuperou o investimento inicial e alavancou um ativo intangível de alto valor: a legitimidade da companhia em transformar sua expertise em nutrição em soluções concretas para desafios da humanidade.

Segundo Christoph Goppelsroeder, CEO da DSM, a iniciativa teve um impacto profundo no engajamento da equipe, permitindo que os colaboradores sentissem um orgulho real de suas atividades, a ponto de compartilharem o entusiasmo com as próprias famílias. “Para nós, o projeto fez todo o sentido em termos de conhecimento, já que somos um dos maiores atores em micronutrientes e em nutrição animal. Além disso, a iniciativa engajou os colaboradores, que finalmente puderam fazer algo de que se orgulhavam. Como pai, eu podia contar ao meu filho o que estava fazendo no trabalho e me sentir orgulhoso”, disse.

Esse caráter reforçou a reputação da empresa e a projetou como referência em soluções de nutrição e inclusão produtiva.

A inovação também se tornou um diferencial competitivo para a atração e retenção de talentos. Diante de propostas de emprego concorrentes, os profissionais priorizam trabalhar em empresas que demonstram estratégia, visão e ações tangíveis na área de sustentabilidade, comprovando que o compromisso autêntico e bem executado em ESG fortalece a marca empregadora.