Criar filhos pode interferir e até atrapalhar o desenvolvimento profissional de funcionários, inclusive os gestores. Esse antigo (porém ainda corrente) raciocínio é o inverso do que consultores descobriram nas relações entre liderança e parentalidade. Ser mãe ou pai de uma criança pode funcionar como um poderoso laboratório de desenvolvimento não só humano como também profissional. Os filhos ensinam a liderar, pois exigem competências que são também necessárias no mundo do trabalho, como clareza de propósito, escuta ativa, tomada de decisões em ambientes complexos e gestão emocional diante da imprevisibilidade.
Segundo artigo de Michelle Levy Terni, CEO da consultoria Filhos no Currículo e mãe de três crianças, a parentalidade pode ser útil e inspiradora no universo da liderança empresarial. Realizada pela Filhos no Currículo, em parceria com o Movimento Mulher 360 (uma associação de empresas comprometidas com a equidade de gênero), e a empresa de recrutamento Talenses Group, a pesquisa “Radar da Parentalidade” ajudou a traçar paralelos cada vez mais relevantes na relação entre filhos e liderança.
Salto nos resultados

A pesquisa, que ouviu mais de 800 profissionais em 2024, teve uma edição anterior, em 2020. A comparação entre os dois levantamentos mostrou um avanço muito significativo no que os pais pensam sobre a relação entre cuidar dos filhos e ocupar um papel de líder empresarial. Em 2020, apenas 15% dos respondentes se viram desenvolvendo a habilidade de liderança por meio da parentalidade. Mas esse número passou por um grande salto em 2024, alcançando 48% dos entrevistados.
Para Michelle Terni, a diferença entre as duas edições da pesquisa tem uma leitura clara: cada vez mais os pais percebem que habilidades desenvolvidas com os filhos – como paciência, empatia, tolerância, capacidade de priorizar e criatividade – transbordam do campo afetivo de casa para o universo profissional. A gestora argumenta que não se trata de romantizar os desafios, mas de reconhecer que criar uma criança exige um repertório sofisticado de competências.
Provocação aos RHs
Essa constatação, porém, ainda não é percebida ou estimulada pelas corporações. Terni lança então uma provocação aos departamentos de Recursos Humanos, que deveriam “ter o papel de conectar essas experiências ao desenvolvimento profissional de forma estruturada”. A gestora sugere que as empresas passem a acolher figuras parentais com consistência, em um “ambiente no qual o apoio ao retorno da licença não dependa da sorte de ter um líder sensível, mas de uma política clara e sustentável”.
“Essa vivência, no entanto, ainda é invisível nos programas de formação de lideranças das empresas. Fica a pergunta: e se o RH reconhecesse esse campo de aprendizado como uma trilha legítima de desenvolvimento? E se, ao mapear talentos, considerasse também o que acontece fora das salas de reunião — nos quartos escuros das madrugadas em claro, onde tantas decisões complexas são tomadas com amor, responsabilidade e intuição?”, instiga Terni.
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Trabalho sem crachá

O artigo sustenta ainda que a liderança desenvolvida na parentalidade é muitas vezes silenciosa, mas profundamente estratégica. Mães e pais tomam decisões sob pressão, lidam com crises inesperadas, conduzem negociações diárias entre limites e afeto, desenvolvem escuta ativa, comunicação não violenta e presença. Tudo isso, sem cargo e sem crachá.
“Não é à toa que, cada vez mais profissionais relatam que só depois da chegada dos filhos se sentiram, de fato, prontos para liderar”, sustenta Terni.
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Revolução no mundo corporativo
A gestora acrescenta que nem sempre são só os programas de desenvolvimento que ajudam os líderes a desenvolverem suas competências profissionais. Muitas vezes, o conhecimento está “nas mãos que embalam, negociam e acolhem, no cotidiano de quem cuida”. E conclui que, talvez, “a maior revolução que o mundo corporativo possa fazer seja, justamente, aprender com quem já lidera todos os dias dentro de casa”.