- Natália Dias, diretora do BID Invest, defende o capital como instrumento de transformação social e ambiental por meio de finanças sustentáveis e parcerias público-privadas.
- Sua experiência em bancos internacionais e públicos mostra que o setor privado busca retorno rápido enquanto o público atua em mercados emergentes com capital paciente para inovação e sustentabilidade.
- A liderança feminina no mercado financeiro enfrenta barreiras estruturais e culturais, exigindo maior representatividade e valorização da diversidade para melhorar desempenho e justiça social.
Com mais de três décadas de experiência no mercado financeiro, a diretora de Mercado de Capitais do BID Invest, Natália Dias, defende o uso do capital como um motor de transformação, especialmente por meio de finanças sustentáveis e parcerias entre os setores público e privado.
Nessa entrevista para o Legacy Talks, a executiva discute a importância de uma liderança humanizada e a responsabilidade de ser uma das poucas mulheres em cargos de alta gestão no mercado financeiro, ressaltando a diversidade como fator de performance e justiça social.
Formada em administração e finanças, Natália curiosamente tinha a intenção de trabalhar com moda, devido à sua inclinação natural para as artes e para o lado criativo. No entanto, o universo corporativo e a estrutura de conhecimento oferecida durante sua graduação acabaram por fasciná-la, levando-a a trilhar uma carreira de quase 30 anos no mercado financeiro, começando em Wall Street aos 22 anos.
Vinda de uma família de advogados, ela optou por seguir um caminho diferente ao escolher a administração, fugindo da “concorrência em casa”. O perfil de pessoa “curiosa”, que adora estudar, mantém os interesses da executiva em artes plásticas, literatura e música, o que exigiu que ela conciliasse esse lado criativo com o desempenho técnico no mercado financeiro. Mas também a leva a se reinventar como profissional de finanças, assumindo sempre novos desafios como na atuação em diferentes áreas do mercado financeiro, a especialização em África e a transição recente para o setor público.
Bancos de investimento internacionais
Antes de ingressar no BID Invest, Natália construiu uma carreira no mercado financeiro. A maior parte de sua trajetória ocorreu em bancos de investimento internacionais, focando em grandes empresas e operações complexas. Em seu histórico profissional, ela trabalhou em instituições financeiras globais como o JP Morgan Chase, o Bank of America e o Standard Bank, onde ocupou o cargo de CEO.
Nessa trajetória, a executiva concentrou-se na área de investment banking, lidando com captação de recursos nos mercados local e internacional de capitais, operações de financiamento a projeto, reestruturação de dívidas e fusões e aquisições (M&A) para grandes corporações.
Natália também teve uma passagem relevante pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), onde vivenciou a conexão entre o público e o privado. No banco público, liderou a aprovação da nova política de investimento da BNDESPAR com foco em sustentabilidade e a retomada de seus investimentos, liderou captações de recursos no mercado local e internacional e teve contato intenso com mercados asiáticos, especialmente a China, sendo que uma das experiências envolveu a realização da primeira captação do banco em moeda chinesa.
Para ela, essa combinação de experiências, que une o conhecimento técnico e disciplina comercial dos bancos privados internacionais com a visão estratégica, de inovação e desenvolvimento do setor público, moldou sua atual liderança no BID Invest.
Diferenças entre privado e público
O fato de conhecer os dois universos trouxe uma bagagem diferenciada para Natália. De acordo com ela, nos bancos de investimento internacionais, a estrutura tende a ser matricial e menos hierarquizada no dia a dia da execução de projetos.
Ela detalha que, diferentemente de empresas tradicionais, a gestão em bancos de investimento envolve o reporte a um chefe local e, simultaneamente, à matriz no exterior. Além disso, a liderança muitas vezes ocorre por influência e competência técnica dentro de um projeto específico, e não apenas pelo cargo formal, exigindo uma postura mais empreendedora por parte dos colaboradores.
“Já no setor público e em negociações entre bancos de desenvolvimento, a gestão pode envolver rituais e hierarquias mais rígidas”, entre outras características.
A diretora do BID Invest lembra que uma diferença fundamental de gestão reside no apetite ao risco e no horizonte de tempo do investimento. Na avaliação dela, os bancos privados focam na alocação de capital em ambientes nos quais as condições já estão estabelecidas e a gestão é marcada pela velocidade, janelas de oportunidade, alta competição e a necessidade de convencer clientes a realizar transações complexas que gerem retorno comercial.
Os bancos públicos, por sua vez, atuam onde existem “falhas de mercado” ou tecnologias não testadas. Neste caso, a gestão pública deve prover “capital paciente” e promover a mitigação de riscos para o desenvolvimento de novas tecnologias e mercados, como na descarbonização.
“O papel do setor público é criar as condições facilitadoras e o ambiente regulatório para atrair o investimento privado posteriormente”, argumenta.
Liderança feminina

Para Natália, os desafios e responsabilidades da liderança feminina no mercado financeiro transcendem a mera competência técnica, envolvendo barreiras estruturais, mudanças de mentalidade e um compromisso social ampliado.
A executiva lembra que se trata historicamente de um ambiente masculino, o que traz um peso simbólico para a mulher que ocupa cargos de diretoria. Segundo ela, um senso comum é que a mulher, ao atingir certa idade, priorizará a vida pessoal e a maternidade em detrimento da carreira, o que pode levar a um boicote silencioso.
Ela argumenta que, embora o início da carreira possa ser ágil e baseado no desempenho, é comum haver uma estagnação quando a mulher atinge níveis de média gerência ou vice-presidência. Natália relata que, para chegar à alta liderança (C-Level), o intervalo de tempo é maior e muitas vezes a profissional não é considerada naturalmente para a vaga, exigindo que ela ativamente se candidate e lute pelo espaço – aliás, essa foi a experiência da executiva no Standard Bank. Na ocasião, a iniciativa de se candidatar ao cargo partiu dela mesma, que competiu com vários profissionais do sexo masculino, e acabou assumindo a posição.
Natália acredita que a régua para as mulheres é sempre mais alta – seja por imposição própria ou pela cultura corporativa. Há uma tendência de mulheres “não confiarem tanto no taco” e não se sentirem preparadas para ocupar posições de liderança. “Além disso, a representatividade em cargos de linha de frente, responsáveis por perdas e lucros, ainda é muito baixa, girando em torno de 6% globalmente, visto que muitas líderes estão concentradas em áreas de suporte, como RH, marketing e e jurídico”, completa.
Capital como instrumento de transformação
A trajetória de Natália ilustra a integração entre propósito e finanças, ao transformar o capital em um instrumento de transformação social e ambiental.
De acordo com ela, o “capital tem o poder de mudar o mundo”, ou seja, o direcionamento de recursos financeiros define quais transformações ocorrem na sociedade. Natália argumenta que o mercado financeiro tem um papel relevante, ao decidir onde alocar recursos, podendo direcionar o desenvolvimento.
No plano pessoal, a executiva destaca que essa visão se concretiza com sua especialização em finanças sustentáveis, principalmente na estruturação de mecanismos que garantem que o dinheiro captado seja aplicado em objetivos específicos de desenvolvimento.
Entre os exemplos práticos, ela cita o uso de bônus verdes, azuis e, mais recentemente, a primeira captação de bônus amazônicos sob a diretrizes elaboradas conjuntamente pelo Grupo BID e o Banco Mundial, para alinhar a captação de recursos às necessidades específicas da região.
Outra iniciativa feliz foi o financiamento para a substituição de uma usina térmica por fonte solar no Chile, onde foram estabelecidos indicadores de performance que exigiam a contratação de mulheres e investimento em treinamento, vinculando o financiamento à causa social.
A integração entre propósito e finanças também se manifesta na sua postura de “feminista tardia” e na defesa da diversidade. A executiva argumenta que a diversidade não é apenas uma questão moral, mas um imperativo de negócios, citando evidências de que empresas diversas tomam decisões mais robustas e têm melhor desempenho financeiro.
Para Natália, é fundamental transformar o ambiente corporativo para que a equidade de gênero e racial “sejam parte do negócio, e não apenas ações afirmativas isoladas”.
Recomendações
Além do filme O Agente Secreto, que assistiu recentemente, ela indica o internacional Amores Possíveis (de Wong Kar-wai), como exemplo de cinema asiático poético e sutil.
Entre os livros mencionados, Natália destaca a leitura recente do Labirinto dos Desgarrados, de Amin Maalouf. Para ela, uma obra sobre geopolítica que narra a história de 4 países (Japão, Russia, China e EUA) que desafiaram a hegemonia ocidental do pós segunda guerra.
A Mais Recôndita Memória dos Homens, romance do escritor senegalês Mohamed Mbougar Sarr e vencedor do prêmio Goncour, é outra sugestão. Natália descreve o livro como uma história fascinante, explorando temas como a história africana, literatura, o colonialismo, identidade e a originalidade e suspense.
Feminismo para os 99%, do trio de autoras Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser, completa as indicações, e aborda a transformação da sociedade para que a igualdade de gênero promova transformação da sociedade como um todo, indo além da elite corporativa.
Confira a entrevista completa no YouTube e no Spotify: