Com mais de duas décadas de experiência em grandes multinacionais de bens de consumo, indústria farmacêutica e agora no segmento de estética médica, a executiva Andrea Gaeta traz para a liderança uma combinação de rigor técnico, adaptabilidade cultural e empatia. Segundo ela, a posição executiva é uma plataforma de transformação contínua.

Andrea Gaeta, CEO da Classys, em entrevista sentada à mesa com microfone no estúdio, ao lado de banners e tela com imagens coloridas.
Andrea Gaeta, CEO da Classys (Foto: Divulgação / Legacy Talks)

Nesta entrevista para o FDC Legacy Talks, a CEO da Classys para o Brasil, Colômbia e Argentina aborda como a agilidade de aprendizado (learning agility) permite superar os desafios ao mudar de segmento, analisa o forte crescimento da tecnologia coreana no mercado de estética e detalha suas estratégias para entregar performance financeira sólida, mantendo a saúde mental das equipes.

Carreira diversa e a transição para a área comercial

O desejo de Andrea de se tornar CEO nasceu aos 18 anos, ao ingressar na faculdade. Para transformar esse objetivo em realidade, a executiva desenhou uma carreira intencional, construindo o que chama de “camadas de aprendizado” em grandes organizações.

Em sua passagem pelo Itaú, absorveu a excelência operacional e o foco no cliente. Na Natura, compreendeu a força de uma marca e a gestão de redes de consultoras. Já na Alpargatas, vivenciou a construção de cultura, o cuidado com pessoas e os desafios da internacionalização, ao gerenciar operações em Portugal. Mais tarde, na Danone e na Nestlé, aprofundou competências na gestão de stakeholders e capacidade de influência, enquanto na indústria farmacêutica lidou com compliance, ambiente regulatório rigoroso e a união entre ciência e entrega de resultados para pacientes.

No entanto, o momento mais marcante de sua trajetória ocorreu após uma década de consolidação na área de marketing, quando uma liderança de RH apontou que, para alcançar o cargo de CEO, seria fundamental vivenciar a linha de frente comercial.

“Eu tinha uma carreira de muitos anos em marketing e precisava começar a fazer uma transição para um lugar que eu não conhecia. Mesmo sem estar preparada, comecei de fato minha carreira na área comercial do nada, com muita vontade de aprender, com grande disposição”, explica. “Se eu puder dar um conselho, seria simplesmente ir, porque o que me trouxe até aqui foi ter complementado minha bagagem de marketing com a área comercial”, completa.

Tecnologia sul-coreana na América Latina

A mudança repentina para a área de vendas trouxe o desafio de enfrentar a insegurança e o sentimento de vulnerabilidade. Para Andrea, a “síndrome do impostor”, sentimento que acomete muitos executivos, somente é vencida quando o profissional compreende que ninguém assume um novo desafio estando totalmente pronto. Em sua avaliação, a escolha para uma posição ocorre pelo histórico executivo, pelas competências comportamentais demonstradas e pela capacidade de entrega.

Nesse cenário, a executiva destaca a learning agility como a habilidade mais crítica para a liderança moderna. “Mudar de setor exige a capacidade adaptativa de imergir no novo modelo de negócios e dominar suas particularidades em cerca de três meses, tornando-se uma referência para o time em curto espaço de tempo”, detalha.

Na operação local, a executiva destaca que a Classys já estava presente no mercado brasileiro há quase uma década por meio de distribuidora local (MedSystems). Com a aquisição da parceira em março de 2026, a multinacional assumiu a atuação via venda direta no país.

O movimento fortalece a presença da marca em um ecossistema que engloba mais de 15 mil clínicas parceiras na região. O momento do mercado é promissor: o Brasil ocupa a posição de quarto maior mercado global de estética, apresentando crescimento contínuo de duplo dígito ao ano, além da alta receptividade do público às inovações de origem coreana.

A estratégia da empresa não se limita ao fornecimento de equipamentos consagrados, como o Ultraformer, um ultrassom micro e microfocado para lifting e firmeza, mas na oferta de um ecossistema completo.

“O que a Classys quer imprimir como líder desse mercado é oferecer um ecossistema holístico para as clínicas. Não é só sobre o equipamento, mas a continuidade de treinamentos para otimização de resultados, assistência técnica e geração de demanda para os pacientes e médicos”, explica a CEO.

A inovação na companhia se traduz tanto no desenvolvimento tecnológico quanto na criação de protocolos combinados, permitindo que os clientes médicos rentabilizem seus investimentos.

Liderança multicultural e escuta ativa

Na gestão regional da América Latina, Andrea ressalta a importância da escuta ativa para liderar diferentes culturas de trabalho. Em vez de aplicar uma réplica automática das políticas brasileiras nos demais países, a executiva enfatiza que é necessário compreender as particularidades regulatórias, trabalhistas e os hábitos locais.

Segundo ela, um dos pilares da sua gestão é a convicção de que alta performance e bem-estar corporativo são complementares. A executiva rejeita a cultura de resultados sustentada na normalização do esgotamento emocional e do burnout.

Para manter o pulso da organização sem filtros hierárquicos, a CEO realiza semanalmente o “Café com o CEO”, um encontro aberto com colaboradores de diversas áreas para discutir a rotina de trabalho e coletar feedbacks diretos. A gestão conta também com uma política efetiva de portas abertas e incentivo à autonomia e ao trabalho em equipe.

Em relação às transformações tecnológicas, a inteligência artificial já faz parte do cotidiano da Classys para análise de dados, ganho de eficiência interna e otimização de tempo. O próximo passo estratégico é a utilização da IA para antecipar tendências de consumo e comportamento, informa a CEO. Para ela, a tecnologia exigirá que os futuros líderes desenvolvam a capacidade de fazer perguntas mais inteligentes, buscando meandros e insights que vão além das respostas automatizadas.

Sobre o que é inegociável em sua liderança, ela resume o assunto em quatro pontos.

  1. Ética e integridade: valores e princípios que não se negociam em qualquer circunstância.
  2.  Decisões baseadas em fatos: avaliação técnica e racional do cenário, mesmo diante de mudanças rápidas.
  3. Empatia e respeito: consciência sobre o impacto humano das decisões difíceis.
  4. Transformação de problemas em oportunidades: habilidade de converter limites e riscos em alavancas de crescimento

Andrea relembra, ainda, uma lição que ficou marcada em sua carreira, quando precisou interromper um projeto de integração logística que não apresentava indicadores de recuperação. Ao fazer isso, ela exigiu a troca de parceiros em meio a uma crise operacional.

“Quando você está no meio da tempestade ou mergulhado no problema, a tendência é tomar decisões emocionais. É preciso sair da operação, ter uma visão de helicóptero para olhar de fora e, então, tomar a decisão mais sensata e racional para acalmar o time e proteger o negócio”, conclui.

Recomendações de Andrea Gaeta

  • Livro: Hábitos Atômicos, de James Clear. A executiva destaca que grandes transformações não exigem rupturas drásticas imediatas, mas sim a implementação de pequenos hábitos diários mantidos com disciplina de execução.
  • Filme: King Richard: Criando campeãs, cinebiografia das famosas irmãs Venus e Serena Williams, do tênis. Para Andrea, a obra ilustra a importância de o líder acreditar no potencial das pessoas e investir no desenvolvimento de talentos, antes mesmo que os grandes resultados apareçam.

Confira a entrevista completa no YouTube e no Spotify:

https://open.spotify.com/episode/6Xgrf0OTblyzkp96hMNiDj?si=0lbQ2isRR2ug-j978Vqnuw