• Países emergentes devem evitar retaliações contra grandes potências para não arcar com custos econômicos elevados e limitar perdas em disputas comerciais globais.
  • A fragmentação geopolítica e a competição subsidiada por EUA, China e UE desafiam o desenvolvimento dos mercados emergentes, exigindo estratégias de integração seletiva e abertura comercial.
  • Manter o compromisso com o multilateralismo e fortalecer blocos regionais são essenciais para que países emergentes aumentem sua resiliência e poder de negociação internacional.
Resumo supervisionado por jornalista.

Em um quadro de fragmentação política mundial, o sucesso dos países emergentes depende de um equilíbrio delicado: atender às necessidades defensivas contra a concorrência desleal, sem sacrificar os benefícios da exposição à competição internacional.

O maior trunfo estratégico desses países reside na capacidade de construir integração e força coletiva entre pares e permanecerem seletivamente abertos ao mundo. Os países emergentes também devem evitar a retaliação a grandes potências, pois o custo econômico é alto e reações mais radicais podem ser extremamente custosas para nações com menor poder de barganha.

Estas recomendações foram expostas no relatório “Política industrial na era da fragmentação geopolítica: estratégias dos mercados emergentes”, publicado pela Universidade de Adelaide, da Austrália. O texto é assinado por Douglas C. Lippoldt, membro sênior não residente do Centro para Inovação em Governança Internacional (CIGI, Canadá) e economista especializado em comércio internacional; e Carlos A. Primo Braga, professor adjunto da Fundação Dom Cabral (FDC) e professor visitante do El Colegio de México, com passagens no Banco Mundial e como professor de Economia Política Internacional e diretor do Evian Group, IMD, Suíça.

Fragmentação geopolítica desafia desenvolvimento

Para os autores, a fragmentação geopolítica atual desafia as estratégias de desenvolvimento dos países emergentes ao desmantelar o sistema comercial multilateral baseado em regras e ao forçar esses países a navegar em um cenário de concorrência subsidiada e restrições tecnológicas lideradas pelas grandes potências.

Os principais desafios são lidar com a chamada erosão da governança global, capitaneada por ações protecionistas dos EUA, distorções nos chamados “Três Grandes” (EUA, China e União Europeia), que utilizam subsídios massivos e barreiras comerciais e pressão por alinhamento geopolítico, que muitas vezes forçam os países emergentes a “escolher lados” em disputas comerciais, tecnológicas e de segurança nacionais.

O texto descreve uma mudança radical na ordem econômica global, marcada pelo fim da Pax Americana e a erosão do sistema comercial multilateral. Eventos como a imposição de tarifas abrangentes pelos EUA em 2025 sinalizaram o abandono do papel americano como garantidor da abertura de mercados, substituindo o multilateralismo por uma abordagem baseada no poder e em transações bilaterais. Essa fragmentação é alimentada pela rivalidade entre grandes potências, o aumento do nacionalismo econômico e a ascensão de modelos alternativos de governança, como o da China.

Os mercados emergentes (países como Brasil, Índia e Indonésia, caracterizados por dinamismo econômico, mas que ainda não atingiram o nível das economias avançadas) são os mais afetados por essa fragmentação. A principal ameaça é a quebra dos padrões tradicionais de vantagem comparativa diante de concorrentes das grandes potências que são fortemente subsidiados. Além disso, os países emergentes enfrentam pressões para alinhamento geopolítico, o que pode restringir o acesso a tecnologias e mercados essenciais.

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O papel dos “Três Grandes”: EUA, China e UE

A política industrial – intervenção governamental para promover setores específicos – ressurgiu globalmente como resposta a vulnerabilidades em cadeias de suprimentos, competição tecnológica e imperativos climáticos. Esse movimento é liderado por três blocos principais, os chamados “Três Grandes”, cujas ações geram efeitos em cascata para os países emergentes.

1. Estados Unidos

Visualização do horizonte de Nova York, com destaque para os edifícios altos, o One World Trade Center ao fundo, e a bandeira dos Estados Unidos voando ao vento, representando um centro financeiro global. A imagem destaca o crescimento econômico das grandes cidades nos países emergentes.
Foto: TZIDO SUN/ Shutterstock

O enfraquecimento da chamada Pax Americana (Paz Americana) – período de relativa estabilidade geopolítica, econômica e militar mundial sob a liderança dos EUA, iniciado após a 2ª Guerra Mundial, e caracterizado pela hegemonia do dólar, expansão da OTAN e forte influência do país na ordem global – e de instituições como a OMC e o FMI, criou um vácuo de liderança, onde a abordagem baseada no poder substitui as regras internacionais.

Além disso, recentemente, os EUA impuseram tarifas elevadas de importação de insumos e produtos a várias partes do mundo, inclusive em nações emergentes, e implementaram medidas como a Lei CHIPS, que impulsiona o desenvolvimento e a fabricação doméstica de semicondutores, e a Lei de Redução da Inflação (IRA). Esse cenário gera incerteza para economias que dependem da abertura de mercados para crescer.

2. China

Panorama de Xangai, na China, destaque para arranha-céus modernos e o rio que atravessa a cidade, simbolizando o crescimento de países emergentes.
Foto: Lushengyi/ Shutterstock

O país foca em iniciativas como a Made in China 2025 – plano industrial estratégico do governo para que a nação saia da condição de “fábrica mundial de baixo custo” para tornar-se líder global em alta tecnologia, visando aumentar a autossuficiência e o domínio em setores como robótica, IA, veículos elétricos e aeroespacial – para reduzir a dependência tecnológica de demais países do mundo.

A China também adotou a Belt and Road Initiative, conhecida como Nova Rota da Seda, que é o maior plano de infraestrutura, comércio e investimento externo do país, com objetivo de conectá-lo à Ásia, Europa, África e América Latina via rotas terrestres e marítimas, impulsionando o comércio e expandindo a influência geopolítica chinesa. Este conjunto de modelos combina orientação para exportação com subsídios massivos, o que enfraquece a estabilidade do comércio multilateral global.

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3. União Europeia

Bandeiras da União Europeia tremulando ao vento na frente do edifício do Parlamento Europeu em Bruxelas, destacando a representatividade da UE na política mundial.
Foto: Francisco Duarte Mendes/ Shutterstock

Busca uma “autonomia estratégica aberta”, promovendo o abastecimento interno e a resiliência por meio, por exemplo, do Plano Industrial do Acordo Verde, estratégia lançada em 2023 para acelerar a transição para emissões líquidas zero, fortalecendo a competitividade de sua indústria limpa. O plano foca em aumentar a produção local de tecnologias sustentáveis, simplificar regulamentações e financiar a inovação. 

Além disso, a União Europeia adotou a Lei das Matérias-Primas Críticas. Em vigor desde 2024, trata-se de um conjunto de medidas para garantir fornecimento seguro, sustentável e diversificado de materiais essenciais (lítio, magnésio, terras raras) para a transição ecológica e digital. O objetivo é reduzir a dependência externa extrema, fortalecendo a capacidade interna de extração, processamento e reciclagem, o que impacta a ordem econômica internacional e afeta a produção de países emergentes.

O que os mercados emergentes devem fazer

Para navegar neste ambiente, os autores propõem uma estratégia de “integração seletiva” a ser adotada pelas nações emergentes. Para eles, o maior trunfo estratégico de tais mercados nesta era de fragmentação é a capacidade de permanecer seletivamente abertos, construindo força coletiva sem sucumbir a tendências protecionistas que historicamente retardaram o desenvolvimento, adotando atitudes como as expostas abaixo.

  1. Abertura estratégica: manter a abertura comercial como padrão, mas aplicar medidas defensivas direcionadas e transparentes contra a concorrência subsidiada de forma desleal.
  2. Fortalecimento e integração regional: priorizar acordos Sul-Sul e blocos regionais (como a ASEAN – Associação de Nações do Sudeste Asiático – e o Mercosul) para ganhar escala, promover a resiliência coletiva e fortalecer o poder de negociação.
  3. Manutenção do multilateralismo: apesar das crises, manter os compromissos com a OMC é visto como um interesse próprio, pois a organização ainda oferece um mecanismo para contestar abusos de forma coletiva.
  4. Políticas de ajuste interno: implementar políticas de proteção social e educação para ajudar trabalhadores e comunidades afetadas pela competição internacional.

O que os mercados emergentes devem evitar:

  1. Retaliação direta: não tentar retaliar grandes potências, pois o custo econômico é alto e a influência de países menores em guerras comerciais é limitada. As retaliações podem ser extremamente custosas para países com menor poder de barganha.
  2. Abandono do multilateralismo: permanecer comprometido com a OMC, que ainda oferece a melhor estrutura para países sem grande poder de barganha bilateral contestarem abusos.
  3. Substituição de importações ampla: evitar o retorno a políticas protecionistas generalizadas que, no passado (como no Brasil e Argentina), sufocaram a inovação e geraram ineficiências.
  4. Negligência socioambiental: não ignorar normas trabalhistas e ambientais, pois a proatividade nessas áreas fortalece a posição comercial perante consumidores globais e evita barreiras futuras.

Dúvidas mais comuns

Países emergentes são nações que apresentam crescimento econômico acelerado e características como industrialização, abertura econômica e desenvolvimento humano médio, mas que ainda não alcançaram o nível das economias avançadas.

Os países emergentes devem evitar retaliações diretas contra grandes potências porque o custo econômico dessas ações é alto e sua influência em guerras comerciais é limitada, o que pode resultar em prejuízos significativos para essas nações com menor poder de barganha.

A fragmentação geopolítica desafia os países emergentes ao desmantelar o sistema comercial multilateral baseado em regras, forçando-os a lidar com concorrência subsidiada, restrições tecnológicas e pressões para alinhamento geopolítico, o que pode limitar seu acesso a mercados e tecnologias essenciais.

A estratégia recomendada é a "integração seletiva", que envolve manter a abertura comercial com medidas defensivas contra concorrência desleal, fortalecer a integração regional, manter o compromisso com o multilateralismo e implementar políticas internas de proteção social e educação.

Os "Três Grandes" lideram movimentos de política industrial que incluem subsídios massivos, barreiras comerciais e estratégias para fortalecer suas indústrias domésticas, como a Lei CHIPS nos EUA, o plano Made in China 2025 e o Plano Industrial do Acordo Verde na União Europeia, impactando diretamente os países emergentes.

Manter o compromisso com a OMC é importante porque, apesar das crises, ela oferece um mecanismo coletivo para contestar abusos comerciais e proteger os interesses dos países emergentes que possuem menor poder de barganha bilateral.

Os países emergentes devem evitar retaliações diretas contra grandes potências, o abandono do multilateralismo, políticas protecionistas amplas que sufocam a inovação e a negligência das normas trabalhistas e ambientais, pois essas atitudes podem prejudicar seu crescimento e competitividade global.