- A gestão de resíduos no Brasil é ineficiente, com reciclagem abaixo de 10%, gerando perdas econômicas anuais de R$ 14 bilhões e custos futuros de até R$ 135,9 bilhões até 2050.
- A baixa reciclagem decorre da falta de investimentos, adesão populacional e políticas públicas robustas, além de desafios estruturais e culturais no setor de resíduos sólidos.
- Melhorar a gestão de resíduos e implementar a economia circular pode gerar empregos, reduzir a dependência de matérias-primas e posicionar o Brasil como líder em sustentabilidade na América Latina.
O Brasil gera cerca de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano e enfrenta o desafio de melhorar suas práticas de gestão destes materiais. Isso porque a reciclagem abrange somente um terço desse montante, o que representa uma perda econômica de pelo menos R$ 14 bilhões por ano. Dados recentes revelam que, embora mais de 33% do lixo produzido seja potencialmente reciclável, as taxas de reciclagem variam entre 2,4% e 8,3%, dependendo da fonte. Essa disparidade revela a fragilidade do sistema de reciclagem brasileiro.
O desperdício desses recursos representa não somente cifras bilionárias perdidas, mas também custos crescentes, decorrentes da gestão inadequada dos resíduos. Projeções indicam que essa despesa pode atingir a marca de R$ 18 bilhões até 2040, caso medidas efetivas não sejam implementadas de forma rápida.
Os dados são do Panorama da Gestão de Resíduos no Brasil, relatório do Núcleo de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral (FDC). De acordo com o material, a falta de investimentos em infraestrutura, a baixa adesão da população à coleta seletiva e a ausência de políticas públicas robustas são alguns dos fatores que contribuem para o cenário de desperdício.
Panorama da Gestão de Resíduos no Brasil
O relatório da FDC revelou o panorama atual da gestão de resíduos no Brasil. O documento, criado com o objetivo de retratar o cenário atual, além de apontar caminhos estratégicos para um futuro mais sustentável e economicamente viável, mostra que, passados 15 anos desde a implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), o país ainda está abaixo dos padrões globais de reciclagem. Num comparativo, países europeus contam com taxas de reciclagem que superam os 50%.
O Brasil tinha a meta de aumentar continuamente a coleta de materiais recicláveis e promover seu reuso na indústria, mas isso não avançou.
Para os especialistas envolvidos no estudo, o país ainda não encontrou o caminho da implementação e do aprimoramento da legislação, o que seria a justificativa para a estagnação.
A PNRS foi celebrada em 2010 como um passo fundamental para o desenvolvimento sustentável brasileiro, mas os desafios persistem. A efetiva aplicação da lei levanta questões sobre os obstáculos enfrentados e as estratégias necessárias para que o Brasil consiga transformar seus resíduos em recursos, acompanhando o ritmo de países que já adotaram com sucesso os princípios da economia circular.
A pesquisa mapeou cadeias de recicláveis como papel, vidro, alumínio, plástico e embalagens multicamadas, e apresentou como resultado o fato de que os índices de reciclagem no país são baixos. “Apesar do alto potencial, os índices de reciclagem efetiva no Brasil são alarmantemente baixos”, revela o documento.
Em termos de perdas econômicas,os custos da gestão inadequada de resíduos podem chegar a R$ 135,9 bilhões até 2050 se medidas eficazes não forem implementadas. Contudo, de acordo com o estudo, os principais obstáculos para a gestão de resíduos no Brasil não são apenas técnicos ou financeiros, mas também estruturais e culturais.
O relatório sugere um conjunto de soluções para transformar o mercado de recicláveis no Brasil. Segundo o documento, “promover uma economia circular no Brasil exige coordenação intersetorial, inovação, investimento em infraestrutura e, sobretudo, planejamento baseado em evidências.”
A transição para essa economia pode gerar novos mercados, criar empregos qualificados, reduzir a dependência de matérias-primas e diminuir a pressão sobre aterros sanitários. Além disso, o estudo aponta que a mudança pode posicionar o Brasil como líder em sustentabilidade na América Latina.
O que é gestão de resíduos?

Por definição, a gestão de resíduos abrange a coleta, transporte, tratamento e descarte seguro e sustentável dos materiais. Isso engloba a separação e reciclagem de tais itens, compostagem, tratamento de resíduos perigosos, descarte correto em aterros sanitários e a educação da sociedade sobre a relevância desse processo para o meio ambiente e a saúde pública.
A gestão de resíduos é vista como essencial pela instituição, especialmente para reduzir os impactos negativos da produção de lixo no meio ambiente e na sociedade. Além disso, esta gestão pode impulsionar a economia circular, um modelo que prioriza a redução, reutilização e reciclagem de materiais, e contribui para a geração de renda.
Conforme a Política Nacional de Resíduos Sólidos, existem responsabilidades para todos os elos da cadeia produtiva que geram resíduos, sejam eles empresas, indivíduos ou o poder público.
É responsabilidade das empresas que produzem os itens a serem descartados garantir que os resíduos não sejam descartados de forma inadequada, quando poderiam ser reaproveitados ou reutilizados. Os resíduos são classificados de diversas formas, considerando sua origem, composição e periculosidade.
A gestão de resíduos é composta por uma série de ações, que têm como objetivo reduzir os impactos ao meio ambiente, em um esforço para proteger a saúde pública, implementando medidas que assegurem o manuseio e o descarte apropriados dos resíduos produzidos.
Importação de resíduos ameaça a cadeia de reciclagem

O governo federal publicou recentemente um novo decreto no Diário Oficial da União que regulamenta a importação de resíduos sólidos pela indústria brasileira. A medida estabelece cotas para a importação de alguns materiais e revoga o decreto anterior (nº 12.438/25, de 17 de abril de 2025). Essa decisão atende às solicitações de catadores de materiais recicláveis, ao mesmo tempo em que considera as necessidades da indústria e incentiva a economia circular.
Segundo publicação do Capital Reset, o setor de recicláveis alerta que a medida pode causar uma queda drástica nos preços desses produtos no mercado interno, desestruturando uma cadeia produtiva que já é incipiente. Os trabalhadores mais vulneráveis da cadeia seriam os mais afetados, a ponto de se referirem à norma como o “decreto da fome” e clamarem por sua revogação.
A lei, que altera a Política Nacional de Resíduos Sólidos e proíbe a importação destes materiais, foi sancionada no início de 2025. No entanto, como parte da regulamentação, uma lista extensa de produtos foram enquadrados como exceção à lei e podem ser importados. Entre eles estão: vidro, determinados plásticos PET, papéis, papelão e resíduos de alumínio, aço e ferro. A decisão surpreendeu diversos grupos do setor, uma vez que o Brasil possui mais de 3 mil cooperativas de catadores e vasta disponibilidade interna de materiais recicláveis.
“Não houve clareza dos critérios [do decreto] e a impressão que deu é de que setores com maior influência conseguiram incluir materiais [que gostariam de importar], o que deixa o processo sem muita transparência sobre esses materiais estarem ou não sendo devidamente avaliados”, declarou Adriano Augusto, professor do Núcleo de Sustentabilidade da FDC, à Capital Reset.
O Brasil gera cerca de 11,3 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano. O trabalho de catadores de materiais reciclados enfrenta desafios, como a falta de reconhecimento e a dificuldade de as cooperativas investirem em infraestrutura. Além disso, empresas e organizações públicas demonstram pouco interesse em fazer parcerias. A FDC, em parceria com a ANCAT e a Novelis, desenvolveu o projeto Pra>Frente Se liga, Recicla! A iniciativa consiste em uma plataforma de educação para catadores de materiais reciclados e autônomos. A parceria tem como objetivo desenvolver soluções para o setor, buscando capacitar os profissionais e fomentar o interesse em parcerias com as cooperativas.
Aterros sanitários

Os aterros sanitários representam uma etapa complexa na gestão de resíduos no Brasil. Sua função principal é o descarte final de materiais que não são reciclados, reutilizados ou tratados de outras formas. A PNRS orienta a organização do manejo de resíduos no país, sendo que um de seus objetivos é direcionar o que seria descartado e não tem valor para reciclagem para aterros, reduzindo o impacto ambiental de outras formas de descarte, como os chamados lixões.
No entanto, mesmo com a PNRS em vigor, parte das matérias-primas recicláveis ainda é destinada a esses aterros, trazendo riscos à saúde pública e desperdício econômico. Essa destinação impacta o potencial de geração de valor, que é estimado em R$ 14 bilhões por ano.
O modelo de funcionamento dos aterros sanitários e a gestão de resíduos no Brasil continuam sendo um ponto central nas discussões sobre desenvolvimento sustentável e economia circular.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente, a discussão sobre a gestão de resíduos tem sido pauta em âmbito nacional e internacional por algumas décadas, impulsionada pelo crescimento da consciência ambiental coletiva. O ministério acredita que a crescente complexidade das questões ambientais, sociais e econômicas atuais exige uma nova postura dos três níveis de governo, da sociedade civil e da iniciativa privada.
“Se manejados adequadamente, os resíduos sólidos adquirem valor comercial e podem ser utilizados em forma de novas matérias-primas ou novos insumos”, declarou o ministério em seu site oficial.
De acordo com o IBGE, em uma pesquisa relativa ao ano de 2023, 31,9% dos municípios ainda utilizam lixões para a disposição final de resíduos sólidos, enquanto 28,6% das cidades destinaram seus rejeitos em aterros sanitários. Por outro lado, somente 18,7% fizeram a destinação em aterros controlados.
Gestão de resíduos hospitalares

O governo brasileiro relatou que, em 2023, apesar das normativas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os hospitais brasileiros ainda estão em fase de adaptação sobre a gestão de resíduos hospitalares ou resíduos de serviços de saúde (RSS).
Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), somente 30% do lixo infectante é destinado corretamente, via incineração. Segundo o órgão, cerca de 30% são destinados aos aterros sanitários e mais de 15% para os lixões. Tal prática expõe o meio ambiente ao alto risco de contaminação.
Os medicamentos descartados também exigem destinação correta. Apesar de não serem considerados lixo hospitalar, remédios vencidos ou não utilizados devem ser entregues em farmácias ou unidades de saúde que ofereçam coleta específica para esse fim.
A RDC nº 33/03 da Anvisa é a principal norma que regulamenta a gestão de resíduos de serviços de saúde no Brasil. Essa resolução define diretrizes essenciais para o manejo, tratamento e descarte final desses resíduos. Entidades setoriais indicam que todas as unidades de saúde sigam rigorosamente as determinações da Anvisa.
Atores da economia circular de resíduos no Brasil
No atual cenário global, que exige ações cada vez mais sustentáveis, a economia circular de resíduos emerge como um pilar central para o futuro. No Brasil, a engrenagem que move a reciclagem de embalagens e produtos conta com a participação de diversos atores. A colaboração entre os elos dessa cadeia é essencial para o sucesso da circularidade.
Com o avanço global das cidades inteligentes, a sustentabilidade caminha juntamente aos projetos e a questão dos resíduos é importante para essa confluência.
“Se o descarte dos resíduos sólidos é importante para a preservação do meio ambiente das cidades, imagine isso em uma cidade do tamanho da capital paulista. A reciclagem ainda é a melhor maneira de solucionar o problema”, declarou Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), especialista em cidades e meio ambiente.
A jornada de um produto, desde sua concepção até sua eventual reciclagem, envolve uma série de ações que impactam diretamente a sustentabilidade. As Indústrias de embalagens figuram como um dos pontos de partida, sendo as grandes responsáveis pelo design e fabricação dos recipientes, uma etapa que define, em grande parte, sua reciclabilidade. A escolha de materiais, a complexidade da estrutura e a facilidade de separação de componentes são decisões tomadas por tais indústrias que ressoam por toda a cadeia. Uma embalagem desenhada com a circularidade em mente é o primeiro passo para um descarte e reuso eficientes.
Em seguida, as indústrias de produtos entram em cena. Elas utilizam as embalagens e as colocam no mercado, tornando-se os principais responsáveis pela logística reversa pós-consumo. Essa responsabilidade se traduz na necessidade de garantir que, após o uso, as embalagens retornem à cadeia produtiva, seja para reciclagem ou reuso. O cumprimento dessa etapa é vital para fechar o ciclo e evitar que resíduos valiosos sejam descartados.
O comércio e varejo, por sua vez, atuam como a ponte entre os produtos e os consumidores. Com papel significativo na promoção do descarte responsável, seja por meio de sinalização clara nos pontos de venda, seja por campanhas de conscientização ou a disponibilização de pontos de coleta específicos para determinados tipos de resíduos. A proximidade com o consumidor final os coloca em uma posição estratégica para influenciar o comportamento de descarte.
Diversas empresas brasileiras já apostam na economia circular, inclusive como apelo de marketing. Para o diretor do Núcleo de Sustentabilidade da FDC e autor do benchmarking, Heiko Hosomi Spitzeck, abordagens sustentáveis “não só melhoram a reputação das marcas, mas também contribuem para a criação de um ambiente de negócios mais competitivo e alinhado às demandas contemporâneas”. Em sua visão, além de reduzir custos e riscos, a adoção de boas práticas ESG também traz uma diferenciação no mercado.
Reformulações
Foi somente a partir de 2020 que o Brasil começou a implementar regulamentações mais rigorosas sobre a gestão de resíduos sólidos. Novas diretrizes foram publicadas com metas claras, focando não apenas na reciclagem, mas também na redução, reutilização e em estratégias para repensar o consumo. De acordo com a FDC, atualmente, o desafio do Brasil é assimilar essas novas leis. O setor ainda espera a publicação de normas específicas para plásticos e papelão. A execução das metas dependerá da mobilização de todos os envolvidos.
“O fortalecimento do sistema de gestão de resíduos sólidos no Brasil requer a mobilização integrada de todos os atores da cadeia. A adoção das ações propostas não apenas fomentará a economia circular, mas também criará um sistema mais eficiente, inclusivo e sustentável. A colaboração entre governo, indústria, comércio, consumidores e cooperativas é essencial para transformar os desafios em oportunidades de desenvolvimento”, aponta o estudo da FDC.