Faz pouco tempo que o mundo – dos homens, em específico – parece ter começado a prestar atenção na chamada economia do cuidado. Foi preciso acontecer uma pandemia global para escancarar o que a maioria das mulheres sente na pele: a relevância das atividades de cuidado para a sustentação da vida humana e do sistema econômico, e as consequências que elas trazem para as carreiras e a saúde mental femininas.
De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), estima-se que 16,4% do PIB mundial esteja relacionado a atividades de cuidado. Se fosse um país, a Economia do Cuidado seria a quarta maior economia do mundo. Ela representa 11% do PIB brasileiro e reúne cerca de 25% da população empregada.
São trabalhos como preparação de alimentos, limpeza, gestão e organização da casa, atividades de assistência, apoio e auxílio diários para pessoas com diferentes graus de dependência, como bebês, crianças pequenas, pessoas idosas ou com deficiência. A forma como esse trabalho se concretiza na vida diária é diversa. Pode ser remunerado ou não remunerado, e ocorre tanto no âmbito doméstico quanto em instituições públicas ou privadas. Isso quer dizer que cuidar de uma pessoa idosa sem condições de autonomia e independência, por exemplo, é trabalho – seja ele realizado em casa ou em uma instituição de acolhimento e assistência social. O que varia, neste caso, é a qualidade da provisão do cuidado e a carga que ele acarreta para as famílias cuidadoras.
Mulheres fazem parte da maioria das cuidadoras
Historicamente, grande parte dos trabalhos de cuidado é realizado por mulheres. Números do IBGE de 2019 já indicavam que 85% do trabalho de cuidado é feito por elas. Quando remuneradas, essas trabalhadoras enfrentam baixos salários, ambientes degradados e poucos direitos assegurados – sem falar da alta taxa de informalidade.
A questão é que grande parte da provisão de cuidados não é remunerada. No mundo, as mulheres realizam mais de três quartos do trabalho de cuidado não remunerado– 12,5 bilhões de horas todos os dias, segundo a organização global Oxfam. No Brasil, as mulheres dedicam até 25 horas por semana a afazeres domésticos e cuidados, enquanto os homens dedicam cerca de 11 horas, segundo um estudo do FGV IBRE, divulgado em outubro de 2023.
Inúmeros levantamentos mostram que essa desigualdade na distribuição das tarefas de cuidado está relacionada a problemas de saúde mental feminina e níveis mais altos de insatisfação com a situação financeira e o trabalho. O estudo “Esgotadas”, da Ong Think Olga, mostra que uma mulher sobrecarregada com o cuidado tem menos tempo ou condições para se dedicar ao trabalho remunerado e a outras áreas de sua vida. Não é à toa que as mulheres apresentam 12% a mais de carga mental do que homens, e 73% mais casos de burnout.
Papel das empresas

E o que esses números dramáticos têm a ver com as empresas? Essa desigualdade na distribuição do trabalho de cuidado tem um impacto importante na competitividade das organizações. E, se por um lado, as empresas são parte do problema, elas podem – e precisam – fazer parte da solução.
Empresas que oferecem suporte com responsabilidades de cuidado tendem a ter uma força de trabalho mais engajada e produtiva. Um estudo realizado pela McKinsey & Company (2020) mostra que companhias que investem em infraestrutura de cuidado para seus funcionários têm uma taxa de retenção 25% maior. Isso é particularmente relevante para empresas de médio porte, que podem encontrar dificuldades em competir com grandes corporações por talentos qualificados.
Já a falta de suporte adequado para responsabilidades de cuidados pode levar ao aumento do absenteísmo e à redução da produtividade. De acordo com a pesquisa conduzida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), trabalhadores que possuem apoio na área de cuidados faltam ao trabalho 30% menos do que aqueles que não possuem.
O investimento em programas de promoção de saúde mental feminina nas mulheres também pode trazer resultados muito positivos para todos. Estes programas podem oferecer parcerias com clínicas de psicoterapia especializadas em transtornos mentais e estímulo à prática de atividades físicas, por exemplo. Uma boa escuta com grupos de mulheres mais engajadas no tema certamente irá indicar ótimas sugestões de ações.
Em síntese, a economia do cuidado e o trabalho não remunerado das mulheres criam desafios importantes para a equidade de gênero no mercado de trabalho e para a competitividade das empresas. Esses fatores limitam a participação feminina e criam barreiras ao crescimento profissional das mulheres. As empresas, por sua vez, perdem talentos valiosos e enfrentam dificuldades para manter políticas inclusivas.
Apesar dos benefícios, investir nessas ações pode representar desafios significativos, especialmente para empresas de médio porte, que podem enfrentar limitações de recursos financeiros e até mesmo barreiras na cultura organizacional. No entanto, é preciso focar nas oportunidades. A implementação de políticas e ações de suporte a atividades de cuidado e de promoção da saúde mental das mulheres pode ser um diferencial competitivo, atraindo talentos, melhorando a imagem corporativa e até mesmo aumentando resultados financeiros.

*Marina Spínola, professora do Centro de Inteligência em Médias Empresas da FDC
Dúvidas mais comuns
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A economia do cuidado engloba o trabalho de cuidado, remunerado e não remunerado, direto e indireto, prestado pelos setores público e privado, incluindo micro, pequenas e médias empresas, organizações sem fins lucrativos, a economia social e solidária e os domicílios. Esse trabalho é fundamental para a sustentação da vida humana e do sistema econômico.
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Estima-se que 16,4% do PIB mundial esteja relacionado a atividades de cuidado, o que faria da economia do cuidado a quarta maior economia do mundo. No Brasil, ela representa 11% do PIB e envolve cerca de 25% da população empregada, mostrando sua relevância para a sustentação da vida e para o funcionamento econômico.
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Historicamente, as mulheres realizam a maior parte do trabalho de cuidado, tanto remunerado quanto não remunerado. No Brasil, 85% desse trabalho é feito por mulheres, que dedicam até 25 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados, enquanto os homens dedicam cerca de 11 horas. Essa desigualdade impacta a saúde mental e a carreira feminina.
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A sobrecarga de trabalho de cuidado não remunerado contribui para problemas de saúde mental, como maior incidência de burnout e carga mental elevada. Mulheres sobrecarregadas têm menos tempo e condições para se dedicar ao trabalho remunerado e outras áreas da vida, resultando em insatisfação financeira e profissional.
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As empresas são parte do problema, mas também podem ser parte da solução ao oferecer suporte para responsabilidades de cuidado. Investir em infraestrutura de cuidado e programas de promoção da saúde mental feminina pode aumentar o engajamento, a produtividade e a retenção de talentos, além de melhorar a competitividade e a imagem corporativa.
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Empresas que investem em suporte para cuidados têm uma taxa de retenção 25% maior e trabalhadores que recebem apoio faltam 30% menos ao trabalho. Além disso, programas de saúde mental feminina podem melhorar o bem-estar dos funcionários, resultando em maior produtividade e um ambiente de trabalho mais inclusivo.
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Empresas, especialmente as de médio porte, podem enfrentar limitações financeiras e barreiras culturais para implementar políticas de suporte ao cuidado. No entanto, focar nas oportunidades e ouvir as necessidades das mulheres pode ajudar a superar esses desafios e transformar essas ações em diferenciais competitivos.