O cinema continua afetando milhões de espectadores, produzindo fenômenos culturais globais e alimentando uma das mais poderosas máquinas de criação de imaginário coletivo. Mas, por trás da magia que permanece visível ao público, a indústria atravessa uma profunda reorganização econômica, tecnológica e comportamental. A mesma transformação que reduziu a exclusividade das salas de exibição, pressionou modelos de streaming e fragmentou a atenção das audiências também oferece pistas valiosas para executivos que enfrentam desafios semelhantes em outros setores.
Essa é a reflexão desenvolvida por Érica Bamberg, professora associada da Fundação Dom Cabral (FDC), no artigo 7th Art: a crise por trás da magia. Cinéfila notória, a especialista em transformação empresarial se destaca por aplicar o repertório de atividades artísticas como instrumento de análise de fenômenos organizacionais. Em períodos de mudança, criatividade e incerteza, cinema, literatura e outras expressões culturais funcionam como fontes para compreender dinâmicas de adaptação, renovação e liderança. Mas, neste caso, a autora toma a referência da própria indústria criativa, porque o setor aglutina, de forma aguda, inquietações de líderes de várias indústrias.
A professora argumenta que o público não abandonou o audiovisual. O que mudou foi a forma de consumir, comentar, valorizar e remunerar conteúdos. A relevância cultural permanece, mas os mecanismos que sustentavam a captura de valor econômico perderam parte da aderência que tiveram durante décadas.

O exemplo mais emblemático talvez seja o Oscar. Embora continue sendo um dos principais símbolos de reconhecimento da indústria, a cerimônia registrou queda de audiência na televisão norte-americana. Ao mesmo tempo, preservou sua capacidade de gerar repercussão, debates e circulação cultural muito além da transmissão principal. Para a autora, esse fenômeno não representa uma exceção, mas um sintoma de mudanças estruturais.
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O paradoxo da atenção
Uma das transformações mais significativas está na forma como a atenção é distribuída. Durante décadas, experiências culturais compartilhadas dependiam do controle de canais relativamente concentrados, como grandes redes de cinemas, emissoras nacionais de televisão e veículos de comunicação de massa. Hoje, a produção de conteúdo e a influência cultural estão mais distribuídas entre criadores, comunidades e plataformas digitais.
Paradoxalmente, porém, a definição do alcance tornou-se mais centralizada. Embora mais agentes participem da formação de opinião, a visibilidade de conteúdos é cada vez mais mediada pelos algoritmos das plataformas. A descentralização da produção convive com uma crescente concentração dos mecanismos de distribuição da atenção.
Essa mudança também altera a própria natureza dos produtos culturais. Trechos de filmes, cenas específicas, momentos de premiações e cortes compartilhados nas redes sociais deixaram de funcionar apenas como instrumentos de divulgação. O que antes servia como degustação passou, em muitos casos, a constituir um produto em si, capaz de gerar audiência, relevância e monetização paralelamente à obra original.
Liturgias em transformação
A professora observa que as mudanças atingem diretamente a experiência de consumo. Com janelas de exibição mais curtas e lançamentos chegando rapidamente às plataformas digitais, a ida ao cinema passou a exigir uma nova proposta de valor.
A questão já não é apenas assistir ao filme. É justificar o deslocamento, a ocasião e a experiência. Nesse contexto, exibidores passaram a investir em telas maiores, sistemas de som mais sofisticados e ambientes mais confortáveis. O hábito permanece. O ritual, porém, foi redefinido.
O mesmo ocorre em outras etapas da cadeia. A expansão acelerada do streaming deu lugar a uma fase marcada por maior disciplina financeira, busca por rentabilidade e pressão por eficiência operacional. A abundância de conteúdo deixou de ser suficiente para garantir crescimento sustentável.
Para Érica Bamberg, a principal lição para líderes empresariais está na dificuldade de distinguir aquilo que constitui o pilar de um negócio daquilo que representa apenas sua forma histórica de operação. “Empresas maduras costumam confundir essência com forma. Passam a proteger canal, processo, arquitetura comercial ou ritual de consumo como se fossem a própria alma do negócio. Quando isso acontece, a revisão do modelo é sentida como ameaça, não como responsabilidade”, afirma.
Segundo a autora, esse é o chamado paradoxo do legado. O que antes foi fonte de vantagem competitiva, hoje pode se transformar em obstáculo para a renovação. A marca continua forte, o reconhecimento permanece, mas o modelo que sustentou o sucesso deixa de responder adequadamente às novas condições do mercado.
O cinema ilustra esse processo de forma particularmente clara. Sua essência não está em uma plataforma específica, em uma janela de exibição ou em um formato de distribuição. Está na capacidade de produzir experiências, narrativas e pertencimento cultural.
Coadjuvantes roubam a cena
As mudanças também alteraram o equilíbrio entre os agentes que compõem o ecossistema do entretenimento. Criadores, produtores, exibidores, plataformas digitais, influenciadores, comunidades de fãs e mecanismos tradicionais de legitimação passaram a disputar atenção e relevância em condições muito diferentes das observadas há poucos anos.
“Nа criação, o dilema ficou mais duro. Na produção, o desafio passou a ser sustentar qualidade sob maior pressão por retorno. Na exibição, passou a ser merecer o deslocamento do público. Na premiação, passou a ser preservar autoridade cultural em um ecossistema onde fandoms, creators, plataformas e recortes virais também disputam legitimidade”, enumera a pesquisadora.
“Já não basta contar boas histórias. É preciso produzir obras capazes de sobreviver à lógica algorítmica, ao excesso de oferta e à fragmentação da atenção sem perder força autoral”
Érica Bamberg
O resultado é uma dissociação crescente entre os mecanismos que geram relevância e aqueles que capturam valor econômico.
Quando os modelos deixam de explicar a realidade
Uma leitura que pode ser extraída desse cenário é que rupturas profundas não transformam apenas mercados. Elas também colocam em xeque os próprios instrumentos usados para interpretá-los.
Em períodos de mudança acelerada, indicadores históricos frequentemente passam a oferecer explicações incompletas. Os sinais continuam existindo, mas se dispersam por mais canais e também esgotam os mecanismos de análise tradicionais. O desafio passa a ser identificar padrões emergentes antes que eles apareçam nos resultados consolidados.
A experiência do cinema sugere uma lição aplicável a líderes de qualquer setor: a necessidade de substituir modelos excessivamente rígidos por abordagens dinâmicas, baseadas em dados, aprendizado contínuo e revisão constante de hipóteses.
Quando a lógica do mercado muda, não basta atualizar estratégias. Muitas vezes é necessário atualizar a própria sensibilidade.
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A especialista em estratégia empresarial e cinéfila afirma que a indústria cinematográfica continua produzindo fascínio, relevância e impacto cultural. O problema não está na perda de importância do cinema, mas na necessidade de reconstruir os mecanismos que transformam essa importância em sustentabilidade econômica. “Os motores de relevância e suas estratégias de captura de valor já não coincidem como antes. O entretenimento continua produzindo fascínio. O desafio está em sustentar economicamente, com novo desenho, uma relevância que não desapareceu, mas se deslocou”, pondera.
Para empresas de qualquer segmento, a mensagem é semelhante. Prestígio, reputação e reconhecimento permanecem ativos valiosos. Mas, em ambientes de transformação contínua, eles não substituem a capacidade de revisar formatos, interpretar novos sinais e adaptar modelos de negócio antes que o legado se transforme no principal obstáculo à renovação.