A agenda de políticas ambientais, sociais e de governança (ESG) entrou em uma nova fase, na qual a exigência primária é a comprovação. A evolução do mercado financeiro reflete essa mudança, segundo o relatório Sustainable Bond Analysis.

O documento mostra que o volume global de emissão de títulos sustentáveis atingiu cerca de US$ 1,1 trilhão em 2025, demonstrando estabilidade, mas também mudanças na composição desse mercado, que teria passado por uma transformação profunda. A China despontou como o maior país emissor, registrando volumes que representam o dobro do mercado dos Estados Unidos. O movimento chinês foi alavancado por incentivos a políticas de finanças verdes e uma forte participação de seu setor bancário.

O que se observa é o domínio absoluto dos títulos verdes, ou green bonds, que representam a modalidade preferida para garantir que o capital flua para onde o impacto é real e tangível. Projetos de energia renovável, transporte limpo e eficiência energética lideram a atração de capital, evidenciando uma preferência por setores alinhados a estratégias de descarbonização.

O mesmo relatório crava que a era do “greenwashing” encontra seu fim na exigência por transparência: investidores agora demandam revisões externas pós-emissão e relatórios detalhados que comprovem a alocação dos recursos, seja em despesas de capital (CAPEX) ou operacionais (OPEX). O impacto gerado também precisa ser contabilizado.

Nesse cenário, o retorno sobre o investimento (ROI) da sustentabilidade é medido pela capacidade das empresas de acessar esses bolsões trilionários de capital com taxas mais vantajosas, condicionadas, no entanto, à entrega de resultados comprovados e auditados. O declínio no volume de emissão de títulos vinculados à sustentabilidade e títulos sociais genéricos demonstra que o mercado está mais focado em ativos tangíveis e metas inquestionáveis.

Agro usa IA para mapear carbono

Uma jovem planta verde cresce no solo, com gráficos digitais sobrepostos a ela, exibindo gráficos e dados, simbolizando a agricultura inteligente e a tecnologia de monitoramento de plantas na nova era do ESG.
Foto: Leonid Sorokin/ Shutterstock

A agricultura é um dos setores onde a necessidade de métricas exatas e tecnologia de ponta é mais evidente. Responsável por uma fatia significativa das emissões globais, com cerca de 25% a 60% das emissões de Escopo 3 no segmento de alimentos e bebidas, o agronegócio passa por uma revolução impulsionada pelos dados.

De acordo com estudo do Banco Mundial, o investimento em IA é um exemplo disso, criando um ambiente agrícola data-driven e auditável, permitindo que o produtor prove suas práticas sustentáveis e acesse linhas de crédito alternativas, como seguros indexados ao clima. O documento ressalta que o ecossistema do agro precisa ser fundamentado em dados abertos e interoperáveis, exigindo investimentos maciços em infraestrutura pública digital.

Na prática, o novo agro utiliza a IA para resolver problemas reais e complexos por toda a cadeia de valor. Existem hoje mais de 60 casos de uso aplicados ao setor.

A tecnologia permite acelerar a pesquisa por sementes mais resilientes ao clima, oferece sistemas de monitoramento de solo em tempo real, melhora a detecção de pragas e fomenta a agricultura de precisão. Além da porteira, a IA otimiza a transparência do mercado por meio de rastreabilidade, previsão de preços e uso de contratos inteligentes, mitigando desperdícios.

MRV é a língua do novo ESG

Ícones relacionados à sustentabilidade e à redução de CO₂ flutuam sobre musgo verde, interligados por uma linha branca ondulada. O fundo desfocado cria um tema natural e ecológico, ilustrando a nova era do ESG e sua ênfase na responsabilidade ambiental.
Foto: 3rdtimeluckystudio/ Shutterstock

A ponte entre as práticas de sustentabilidade no agro e o financiamento climático corporativo atende por uma sigla que domina as salas de conselho: MRV, de mensuração, reporte e verificação. Trata-se da infraestrutura tecnológica e institucional responsável por quantificar, documentar e validar as mudanças nos estoques de carbono.

Na avaliação do Atlas de Sustentabilidade, a urgência por MRV rigoroso emergiu de uma discussão em 2024. Enquanto o mercado voluntário de créditos de carbono agrícola encolheu 57%, caindo para US$ 36,1 milhões, devido à crise de confiança gerada por escândalos de “créditos fantasmas”, os investimentos em soluções digitais de MRV dispararam para US$ 2,3 bilhões. A mensagem é clara: o mercado não desistiu da sustentabilidade, mas recuou das medições de baixa integridade.

Historicamente, o MRV de carbono no solo dependia de amostragens físicas caras e lentas, custando de US$ 50 a US$ 100 por acre. Hoje, abordagens híbridas que unem satélites e aprendizado de máquina revolucionaram essa economia, reduzindo os custos de verificação para menos de US$ 10 por acre, e tornando o processo viável em escala continental. As startups e gigantes da tecnologia agora competem para oferecer a melhor correlação entre imagens de satélite e amostragem física de solo, reduzindo a incerteza estatística e garantindo credibilidade.

O MRV é, portanto, a nova linguagem comum. Sem ele, a sustentabilidade não é passível de auditoria, e sem auditoria, não há acesso a mercados premium. A aprovação de novas metodologias rigorosas, aliadas ao selo de qualidade do Integrity Council for the Voluntary Carbon Market (ICVCM), fez com que créditos de carbono de alta integridade passassem a comandar prêmios de preço de 15% a 25% no mercado.

Com regulações avançando rapidamente na Europa (CSRD) e nos EUA (SEC), a contabilidade voluntária está se transformando em exigência de compliance regulatório. Assim, a estratégia deixou de focar apenas em comprar créditos no mercado à vista (spot market); corporações estão firmando acordos de longo prazo diretos com os produtores para garantir reduções reais dentro de suas próprias cadeias de valor, dividindo os custos de transição.

Novas rotas comerciais

Um pequeno globo, rodeado por contêineres coloridos, repousa sobre tabelas e gráficos empresariais impressos, simbolizando o comércio global e a logística na nova era do ESG.
Foto: NikOStudio/ Shutterstock

Enquanto a tecnologia e a ciência redefinem a sustentabilidade no nível micro e de produção, as tensões globais reconfiguram o tabuleiro onde esses negócios operam. Durante décadas, as cadeias de suprimentos globais foram desenhadas com um único objetivo: eficiência e minimização de custos. No entanto, o mundo entrou em uma fase de reconfiguração de rotas comerciais pautada pela geopolítica.

A distância geopolítica média do comércio global, uma métrica que avalia o quão alinhados politicamente estão os parceiros comerciais, caiu cerca de 7% entre 2017 e 2024. Grandes potências começaram a desviar seus negócios de parceiros distantes ideologicamente. Os Estados Unidos, por exemplo, reduziram sua parcela de comércio de bens manufaturados com a China, substituindo-a gradativamente pelo México, que se tornou seu maior fornecedor em 2023, e por países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), especialmente o Vietnã.

Em contrapartida, a China aprofundou substancialmente seus laços comerciais com economias em desenvolvimento no chamado “Sul Global”, incluindo parceiros da própria ASEAN (nações do Sudeste asiático), Rússia e América Latina, com o Brasil desempenhando um papel de grande destaque no fornecimento agrícola.

De acordo com a consultoria McKinsey, a distância geográfica do comércio aumentou de forma ligeira e constante, evidenciando que o fenômeno não é um simples “nearshoring” (trazer a produção para países vizinhos), mas sim a busca por alianças estratégicas mais resilientes e seguras. O mundo descobre que quase 40% do comércio de produtos globalmente concentrados, ou seja, aqueles onde poucos países dominam o fornecimento, ocorre entre economias geopoliticamente distantes. Isso cria vulnerabilidades enormes que líderes globais agora consideram como a principal ameaça à economia no longo prazo.

Sustentabilidade e geopolítica

O novo desenho das cadeias globais obriga as corporações a aplicar uma segmentação estrutural: é necessário equilibrar a adoção de novas tecnologias sustentáveis com a segurança no fornecimento. Alguns países atuam como pontes. É o caso do Vietnã, que importa insumos chineses, adiciona valor e exporta para os Estados Unidos, demonstrando a complexidade da nova rede global.

O resumo desse novo cenário é que sustentabilidade, tecnologia e geopolítica não são departamentos isolados dentro de uma corporação. O mercado entrou em uma era onde o financiamento trilionário de títulos verdes exige métricas (MRV) aplicadas a cadeias de suprimentos que estão sendo ativamente redesenhadas para evitar choques políticos.

Esse movimento vai do agro, que captura carbono auditável por satélites, às indústrias que reorientam fornecedores do Sudeste Asiático à América Latina. O que os especialistas apontam é que a sobrevivência do ciclo atual exigirá lideranças capazes de dominar, simultaneamente, o clima, os dados, o capital e o mapa-múndi.