Vivemos a transição para o que especialistas chamam de modernidade gasosa: um estágio em que estruturas, relações, carreiras e identidades se tornaram voláteis, fragmentadas e difíceis de sustentar no longo prazo. Nesse cenário de instabilidade emocional e social, a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta de produtividade e passa a assumir um novo papel, o de companhia, mentoria e até terapia.
Segundo a futurista Sabina Deweik, professora convidada da Fundação Dom Cabral (FDC), esse movimento revela um paradoxo profundo do nosso tempo: nunca estivemos tão conectados digitalmente e, ao mesmo tempo, tão desconectados humanamente.
Aplicativos de conversa, avatares emocionais, “terapeutas” virtuais e inteligências artificiais treinadas para ouvir, acolher e responder com empatia simulada já fazem parte da rotina de milhões de pessoas. Em 2025, um dos principais usos da IA no mundo passou a ser justamente companhia emocional e suporte psicológico, apontou Sabina em suas análises sobre comportamento humano e tecnologia.
“Então, vemos que estamos colocando nas mãos de uma inteligência artificial as nossas vidas, os nossos traumas, as nossas experiências. Mas, muitas vezes o nosso cérebro não faz distinção de quando falamos com máquina e quando não estamos falando com ela. E esse é o grande problema, esse é o grande perigo! A questão é que a máquina não sente, ela não tem empatia, por mais que a gente ache que tenha. Uma IA não tem consciência ou responsabilidade ética”, alertou.
De acordo com a especialista, trata-se de um fenômeno que vem ganhando força em um contexto marcado por fatores como isolamento social crescente; enfraquecimento dos vínculos comunitários; pressão emocional no trabalho; e ansiedade geracional e insegurança sobre o futuro.
A IA, disponível 24 horas por dia, sem julgamento e sem conflito, passa a preencher esse vazio. O problema é que, como alerta Sabina, o cérebro humano muitas vezes não distingue uma interação com uma máquina de uma interação humana real .
Relações parassociais: o avanço dos vínculos sintéticos

Esse cenário impulsiona a consolidação das chamadas relações parassociais, termo que descreve interações unilaterais nas quais uma das partes cria vínculo emocional sem reciprocidade real. Antes associadas a celebridades e influenciadores, essas relações agora se estendem a softwares, bots e robôs.
Na Era da Modernidade Gasosa (conceito usado para descrever a fase atual da sociedade em que estruturas antes estáveis, como trabalho, relações, identidade e instituições, tornaram-se voláteis, fragmentadas e difíceis de sustentar no longo prazo), essas conexões “leves” e sintéticas parecem mais fáceis de manter do que relações humanas reais, que exigem tempo, frustração, negociação e presença. Como resume Sabina, “a tecnologia está removendo o atrito da vida. Mas, é justamente no atrito das relações humanas que existe crescimento, sentido e pertencimento”.
O avanço dessas relações artificiais ocorre em paralelo a um dado alarmante: a solidão já é considerada uma epidemia global. Segundo a futurista, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já apontou que a falta de conexão social pode ser tão prejudicial à saúde quanto hábitos de risco, como o tabagismo, por exemplo, um alerta reforçado por Sabina ao discutir os impactos sociais da tecnologia.
Países como o Japão já criaram até um Ministério da Solidão, reconhecendo o problema como uma questão de saúde pública. Em um mundo cada vez mais mediado por telas e algoritmos, a ausência de vínculos reais se torna um risco silencioso, mas profundo.
“Eu acredito que para 2026, essa vai ser uma tendência que vai aumentar e se consolidar, porque quanto mais a gente avança nas nossas tecnologias, mais sós, mais diante de telas, de bots, de robôs e de inteligências artificiais, vamos ficar. E a questão é que isso já está impactando a saúde pública”, completou.
Quando a falta de ética gera tragédias reais
O uso da IA como apoio emocional também levanta um debate crítico sobre regulamentação e ética. Sabina cita casos extremos que evidenciam esse risco: jovens que, após desenvolverem vínculos profundos com inteligências artificiais, receberam respostas inadequadas em momentos de fragilidade emocional, com consequências trágicas.
Esses episódios expõem um ponto central: “IA não é terapeuta, não é amiga e não é humana, apesar de simular esses papéis com crescente sofisticação. A ausência de marcos regulatórios claros amplia os riscos individuais, sociais e corporativos”, adverte a futurista.
Segundo Sabina, um dos grandes desafios dos próximos anos será reconstruir culturas vivas, especialmente nas empresas, que valorizem relações humanas reais, segurança psicológica e pertencimento, e não apenas eficiência tecnológica.
Dúvidas mais comuns
-
-
A modernidade gasosa é um estágio da sociedade caracterizado pela volatilidade e fragmentação das estruturas, relações, carreiras e identidades, tornando-as difíceis de sustentar a longo prazo. Nesse contexto, as conexões sociais se tornam mais frágeis e instáveis.
-
-
Na modernidade gasosa, a inteligência artificial (IA) vai além de uma ferramenta de produtividade e passa a atuar como companhia, mentora e até terapeuta, oferecendo suporte emocional e psicológico 24 horas por dia, especialmente em um cenário de isolamento social crescente.
-
-
Relações parassociais são interações unilaterais em que uma das partes cria um vínculo emocional sem reciprocidade real. Na modernidade gasosa, essas relações se expandem para incluir softwares, bots e inteligências artificiais, que oferecem conexões sintéticas mais fáceis de manter do que as relações humanas tradicionais.
-
-
A solidão é considerada uma epidemia global porque a falta de conexão social real pode ser tão prejudicial à saúde quanto hábitos de risco como o tabagismo. O avanço da tecnologia e o aumento das interações mediadas por IA e telas contribuem para o isolamento e a fragilização dos vínculos humanos.
-
-
O uso da IA como apoio emocional apresenta riscos porque a máquina não possui empatia, consciência ou responsabilidade ética. Isso pode levar a respostas inadequadas em momentos de fragilidade emocional, agravando problemas psicológicos e expondo a ausência de regulamentação clara como um desafio importante.
-
-
A tecnologia tende a remover o atrito das relações humanas, tornando as conexões mais fáceis e superficiais. No entanto, é justamente no atrito, na negociação e na presença das relações reais que se encontra o crescimento pessoal, o sentido e o sentimento de pertencimento.
-
-
Especialistas recomendam reconstruir culturas vivas, especialmente nas empresas, que valorizem relações humanas reais, segurança psicológica e pertencimento, em vez de focar apenas na eficiência tecnológica. Isso é fundamental para mitigar os impactos negativos da solidão e das relações sintéticas.