• A medição dos riscos psicossociais nas empresas é essencial para identificar problemas como assédio e implementar medidas eficazes de controle para proteger a saúde dos colaboradores.
  • Escalas psicométricas validadas cientificamente são utilizadas para avaliar fatores como esforço, recompensa, sobrecarga e autonomia, fornecendo dados que sustentam a gestão desses riscos no ambiente corporativo.
  • A adoção de programas integrados e a modernização da fiscalização pelo Ministério do Trabalho são fundamentais para ampliar a prevenção dos riscos psicossociais, garantindo a sustentabilidade e a redução do turnover nas organizações.
Resumo supervisionado por jornalista.

Para Tatiana Pimenta, CEO e fundadora da Vittude, empresa especializada em programas de saúde mental corporativa, as organizações devem integrar soluções para criarem programas efetivo de mapeamento de riscos psicossociais. Ela defende a abordagem direta de casos críticos, inclusive quando se trata de questões envolvendo assédio. 

Confira, nesta entrevista exclusiva, realizada durante o Café com RH, um evento focado em profissionais de RH das maiores empresas do país, promovido pela Fundação Dom Cabral (FDC), no campus São Paulo, as visões e orientações da especialista.

Os riscos psicossociais podem ser medidos?

Sim, existem algumas metodologias para isso, mas essencialmente escalas psicométricas estudadas há bastante tempo. Há pesquisadores que vêm estudando a parte de esforço, recompensa e alguns fenômenos, como a sobrecarga e autonomia do trabalho, além de avaliarem como esse tipo de situação consegue comprometer ou favorecer a saúde do indivíduo.

O que se recomenda é o uso de escalas psicométricas validadas cientificamente, ou seja, que tenham publicações sobre seus resultados e que mostrem como eles foram apurados. Os riscos psicossociais precisam ser medidos de forma que se consiga dar suporte para que a empresa faça, de fato, a avaliação de risco e, principalmente, estabeleça medidas de controle que sejam eficientes. O objetivo é identificar onde o trabalho, aquela organização ou aquele design, podem estar comprometendo a saúde do indivíduo. E a partir daí, estabelecer medidas de  controle capazes de mitigar essas ocorrências.

Essa medição inclui os vários tipos de assédio?

Mulher em um escritório parece estressada e sobrecarregada por riscos psicossociais no ambiente de trabalho, lidando com pressão, atrasos e conflito.
Foto: People Images/ Shutterstock

Se há assédio, precisamos medir. Não adianta esconder, porque as pessoas estão adoecendo e isso está custando mais para a organização. Precisamos saber onde está, qual é o percentual, qual é a severidade, como isso está afetando a saúde do indivíduo e que medidas são necessárias para combatê-lo. 

As empresas ainda têm receio de encarar esse problema?

Sim, e eu sempre digo que não se deve ter medo de encará-los, porque se não for possível identificar o problema, será difícil definir uma medida de controle para a questão. Não adianta falar que não há assédio e documentar isso no Programa de Gerenciamento de Risco (PGR), quando a empresa está afastando pessoas pelo INSS o tempo inteiro, ou está perdendo seus talentos. Temos que pensar que o assédio está afetando o resultado das organizações. Há empresas que trocam o time quase todo ano, porque o turnover é tão alto que não sustenta a operação. Não é sobre multa ou sobre o que eu preciso prestar de contas para o Ministério do Trabalho, é sobre a sustentabilidade do negócio.

Em sua visão, o Ministério do Trabalho deve se modernizar? 

Um analista de dados analisando riscos psicossociais no ambiente de trabalho usando tecnologia e gráficos digitais.
Foto: K2L Family Stock/ Shutterstock

Sim, o que a gente espera é, talvez, um Ministério do Trabalho mais moderno, conseguindo usar dados e tecnologia para conseguir chegar ao maior número de empresas possível. Tínhamos um contingente muito pequeno de auditores fiscais e era humanamente impossível conseguir dar conta de todas as empresas.

O que a gente via, na prática, é que as grandes empresas eram fiscalizadas, mas quem mais emprega no Brasil são as médias e pequenas empresas. Essas ficavam descobertas de fiscalização. Se eu começo a ter a parte eletrônica atuando de forma mais efetiva, isso consegue dar mais visibilidade para o governo, apontado de onde ele tem que partir e de que forma que ele tem que atuar.

Você comentou é que algumas empresas têm muitas soluções para o avaliar riscos psicossociais, mas não têm um programa. Pode explicar isso?

Exato. E é interessante porque a gente vê muitas empresas com investimentos altíssimos em saúde mental, só que não funcionam. As pessoas continuam adoecendo e não está funcionando, porque, em geral, existem várias coisas fragmentadas, por exemplo, um programa de apoio ao luto, outro de suporte e terapia e outro de assistência, mas nenhum se conversa. Os dados não estão conectados com as informações das operadoras de saúde. Quem faz gestão acaba não tendo acesso e não se sabe onde aplicar o recurso de forma efetiva.

Um dos fatores interessantes, quando a gente faz um mapeamento de risco, é conseguir ter uma visibilidade de onde as pessoas estão. Isso permite maior assertividade. Eu preciso tratar essa população, preciso cuidar dessa área, trabalhar essa liderança. Não é necessário trabalhar a liderança inteira da organização, em muitos casos, mas alguns setores demandam reforços.

Como se pode tornar as corporações mais seguras do ponto de vista psicossocial?

Encarando o problema de frente. Não adianta ter medo de medir. Tem muita empresa que diz: “nossa, mas eu não quero medir isso, porque vou gerar uma prova contra mim mesmo”. Não estamos falando sobre prova, mas sobre conseguir olhar o problema e adotar ações para resolvê-lo.

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Dúvidas mais comuns

Riscos psicossociais são fatores do trabalho que afetam negativamente a saúde mental, emocional e física dos trabalhadores, como excesso de demanda, falta de autonomia, assédio, má liderança e ambiente tóxico. Eles podem causar estresse, ansiedade, burnout, depressão e queda de produtividade.

Os riscos psicossociais podem ser medidos por meio de metodologias como escalas psicométricas validadas cientificamente, que avaliam aspectos como esforço, recompensa, sobrecarga e autonomia no trabalho. Essa medição permite identificar onde o ambiente de trabalho pode estar comprometendo a saúde do indivíduo e estabelecer medidas de controle eficientes.

Medir o assédio é fundamental porque ele causa adoecimento dos colaboradores, impactando negativamente a saúde individual e os resultados da organização. Ignorar o problema pode levar a afastamentos frequentes, alta rotatividade e prejuízos para a sustentabilidade do negócio. Conhecer a severidade e a incidência do assédio permite adotar medidas eficazes para combatê-lo.

Os principais riscos psicossociais incluem carga de trabalho excessiva, prazos irreais, falta de autonomia, assédio moral e sexual, conflitos interpessoais, má comunicação, ambiente hostil, insegurança no emprego e desequilíbrio entre vida pessoal e profissional. A NR-1 exige que esses riscos sejam identificados e controlados no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) das empresas.

As empresas devem encarar os riscos psicossociais de frente, sem medo de medir e identificar os problemas. É importante integrar soluções e programas que conectem dados e ações, permitindo uma gestão assertiva dos riscos. Isso inclui tratar populações específicas, reforçar lideranças e implementar medidas de prevenção e suporte psicológico.

Espera-se que o Ministério do Trabalho se modernize, utilizando dados e tecnologia para ampliar a fiscalização, especialmente em médias e pequenas empresas que empregam a maioria dos trabalhadores. A fiscalização eletrônica pode dar mais visibilidade e direcionar ações para prevenir e controlar os riscos psicossociais de forma mais eficaz.

Os riscos psicossociais podem causar estresse crônico, ansiedade, depressão, burnout, insônia e problemas físicos como fadiga e dores musculares. No desempenho, resultam em distração, erros, acidentes, queda de produtividade, absenteísmo e alta rotatividade, afetando negativamente o ambiente organizacional e os resultados da empresa.