1,6 grau celsius. Esse foi o aumento da temperatura global em 2024, divulgado pelo Serviço Copernicus para as Alterações Climáticas (C3S) nas primeiras semanas de 2025. Foi o ano mais quente já registrado mundialmente e o primeiro em que a temperatura média global ultrapassou a marca de 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industrialização (1850 e 1900), sendo o limite de elevação determinado no Acordo de Paris para evitar consequências mais graves. As mudanças climáticas deixaram, há muito tempo, de ser um problema do futuro ou uma constatação remediável, e se tornaram uma realidade do presente que nos ameaça.

Sandra Waddock, professora de Gestão e Responsabilidade Social da Carroll School of Management do Boston College, defende que o imperativo emergencial da ação climática requer que as organizações não apenas se transformem, mas que essa transformação esteja profundamente conectada ao ecossistema no qual os negócios operam. O posicionamento de agentes políticos, públicos, ativistas e entes não-governamentais precisa demandar essa mudança, e as escolas de negócio possuem um papel importante nesse processo.

Nesse contexto, a Fundação Dom Cabral, em conjunto com a iniciativa Imagine Brasil, por ela criada, realizou um estudo para avaliar como as escolas de negócio que hoje são referência global têm incorporado o tema das mudanças climáticas em suas operações, estratégias e educação. A pergunta que buscamos responder é: “Are global Business Schools walking the talk?” (em outras palavras, as escolas de negócio globais estão dando exemplo e agindo da forma como pregam?). 

Andrew Hoffman, professor de Empresas Sustentáveis da Universidade de Michigan, ao moderar um painel em um Workshop organizado pelo Conselho da Ciência da Educação no National Research Council (NRC), sintetizou quatro caminhos para abordar as mudanças climáticas no currículo das Escolas de Negócio:  

  1. Oferecer disciplinas ou cursos obrigatórios no currículo; 
  2. Oferecer disciplinas eletivas;
  3. Incluir conteúdos relacionados ao clima de forma transversal (ex. via casos de ensino);
  4. Promover atividades extracurriculares, como eventos e palestras. 

Anant Sundaram, Professora de Administração na Tuck School of Business, presente no mesmo painel, destacou que cursos e disciplinas que miram especificamente o tema permitem uma análise mais profunda, mas acabam ficando restritas a áreas específicas. Por outro lado, a infusão do tema das mudanças climáticas ao longo de todo o currículo de maneira mais transversal, possibilita uma visão mais ampla das implicações das mudanças climáticas em diversos campos da gestão, mas com menor profundidade para o endereçamento efetivo do tema. 

O melhor caminho, portanto, varia de acordo com a instituição e suas necessidades e pode envolver uma combinação de diferentes estratégias. Para Sudaram, a permanência e relevância do tema na formação dos futuros líderes de negócios depende de uma estrutura conceitual sólida adotada pelas Escolas de Negócio, com o desenvolvimento ágil de materiais didáticos de alta qualidade para suporte ao ensino e a produção de pesquisa original. 

Resultados do estudo FDC

A pesquisa conduzida pela FDC permitiu compreender o estágio atual dos debates e ações em torno da emergência climática e o papel das Escolas de Negócio no enfrentamento desse desafio global. Ela é inovadora pois estende o olhar não apenas para aspectos curriculares, mas também envolve a visão estratégica das Escolas de Negócio, suas operações e governança e a transversalidade do tema nas atividades das instituições. 

Ligada aos trabalhos da iniciativa Imagine Brasil, o estudo mapeou inicialmente as Top 50 Escolas de Negócio do Ranking do Financial Times para avaliar como as mudanças climáticas estão inseridas no currículo e atividades, além de realizar um benchmarking com sete escolas que se destacaram. 

Mapeamento das Top 50 do Financial Times

A análise das Top 50 Escolas de Negócio do ranking do Financial Times considerou quatro formas principais de integração das mudanças climáticas: i) a partir de centros de pesquisa; ii) promovendo eventos específicos para discutir a temática; iii) incluindo disciplinas relacionadas a mudanças climáticas em programas existentes (ex. MBA, graduação, mestrado); iv) ou lançando programas específicos, em geral de curta duração, sobre o tema.

O mapeamento revelou que a maioria já incorpora, de alguma forma, o tema das mudanças climáticas em seus currículos e atividades, ainda que com diferentes níveis de profundidade e enfoque. 

Das Escolas de Negócio avaliadas, 30% possui centros de pesquisa voltados para questões climáticas, 22% tem programas específicos sobre o tema, 32% oferece disciplinas dedicadas às mudanças climáticas. Outros 32% promovem eventos temáticos sobre o tema, sendo que todas as escolas realizam pelo menos uma dessas ações. 

Algumas instituições se destacam por iniciativas robustas e inovadoras, como a London Business School com o Wheeler Institute Climate Initiative, e a ESADE com sua Sustainability Week

Apesar de avanços, a abordagem ainda tende a focar em conformidade regulatória e vantagens competitivas, deixando espaço para perspectivas mais integradoras e voltadas para o propósito dos negócios. Há, portanto, uma oportunidade para escolas como a FDC se diferenciarem ao adotar uma visão civil e sistêmica, promovendo parcerias com instituições do Sul Global e articulando o tema das mudanças climáticas com os desafios sociais e econômicos locais. 

Um exemplo é a recém-lançada Rede de Escolas para a Amazônia Sustentável, liderada pela FDC em parceria com a Universidad de Los Andes (Colômbia), tendo também como membros o ESAN (Peru), a IESA (Venezuela) e a Universidad San Francisco de Quito – USFQ (Ecuador).

Benchmarking com referências globais

A segunda etapa do estudo foi um benchmarking com sete escolas globais que se destacaram por suas ações, para identificar boas práticas e avaliar o estágio de implementação de iniciativas específicas voltadas para as mudanças climáticas. Foram elas:

  • INSEAD (França)
  • IE Business School (Espanha)
  • London Business School (Reino Unido)
  • ESADE Business School (Espanha)
  • HEC Paris (França)
  • University of Oxford | Saïd Business School (Reino Unido)
  • Gordon Institute Business Science – GIBS, University of Pretoria (África do Sul)

O benchmarking mostrou que instituições europeias, como INSEAD, IE Business School, ESADE, HEC Paris e Oxford Saïd, apresentam políticas e práticas avançadas na integração da sustentabilidade e das mudanças climáticas em seus currículos, operações e engajamento com a sociedade. Essas escolas adotam abordagens estruturadas, que incluem a incorporação de conteúdos climáticos em disciplinas obrigatórias e eletivas, envolvendo um trabalho extenso com o corpo docente para endereçar a temática de forma direta ou transversal, como foi feito pela IE Business School. 

Algumas escolas se destacam pela criação de centros de pesquisa, como o Climate Climate & Earth Center da HEC Paris e programas específicos, como o Climate Emergency Programme da Oxford Saïd Business School. O INSEAD, por exemplo, criou um curso de atualização para seu alumni do MBA acerca de temas de sustentabilidade, para todos os que fizeram o programa antes dessas temáticas se tornarem centrais para os negócios. 

De forma geral, a abordagem das escolas é baseada nas implicações para os negócios e considerações estratégicas. Os programas visam capacitar os alunos com o conhecimento e as ferramentas para integrar a sustentabilidade em suas futuras decisões de negócios, seja para obter vantagem competitiva, gerenciar riscos, ou para alinhar-se às regulamentações em evolução e às preferências de clientes e investidores.

Tendências Regionais

Na Europa, há uma demanda crescente por programas curtos e customizados em sustentabilidade e mudanças climáticas. Em contrapartida, na África, a GIBS enfrenta mais desafios estruturais e contextuais para avançar na agenda climática, lidando com a necessidade de equilibrar urgências sociais e ambientais. Ainda assim, iniciativas como o MBA com foco em liderança climática e a participação na Business Schools for Climate Leadership Africa mostram um comprometimento crescente e adaptado à realidade local. 

As escolas pesquisadas também investem em estratégias para medir o impacto da educação sobre os alunos e adotam metas climáticas claras, como a neutralidade de carbono. A maioria das ações tem foco nos Escopos 1 e 2, mas algumas começam a considerar iniciativas no Escopo 3, como repensar seus módulos no exterior. 

A produção de relatórios de sustentabilidade avaliados por agências externas como a EcoVadis, garante profissionalismo e comprometimento com os avanços pretendidos. A integração entre ensino, pesquisa e práticas institucionais é frequentemente guiada por uma liderança comprometida e por políticas internas de sustentabilidade.

Em muitos países da América Latina, os desafios sociais e econômicos assumem prioridade frente às questões ambientais. Por isso, a recomendação central é que as escolas da região encontrem maneiras de aproveitar o contexto social e econômico — como desigualdade, pobreza e desenvolvimento local — para impulsionar o progresso em sustentabilidade. 

Em vez de tratar a sustentabilidade e, em particular, as mudanças climáticas, como uma pauta isolada, o tema deve ser transversal e conectado com as urgências reais e oportunidades de transformação da sociedade. Essa abordagem integrada fortalece o papel das escolas de negócio como agentes catalisadores de impacto, ao mesmo tempo em que reforça sua relevância e compromisso com o futuro da gestão responsável. E isso vale tanto aqui quanto no mundo, como revelou a pesquisa da FDC.

* Lívia Barakat é Professora da FDC, Matheus Coutinho é Analista de Estratégia Internacional da FDC, Felipe Alves é Pesquisador e Viviane Barreto é Diretora de Estratégia Internacional da FDC