Atuar em home office pode ser um desejo de grande parte dos trabalhadores, mas ao menos nas pequenas e médias empresas (PMEs), a maioria considera que o modelo presencial ainda é o mais adequado. É o que mostra análise feita pela Sólides, empresa de soluções tecnológicas para recursos humanos, que entrevistou sua base de clientes – 35 mil companhias – e descobriu que, em 2024, 89,7% das vagas abertas por estas PMEs adotaram o formato presencial.
Segundo matéria veiculada no Valor Econômico, a mesma pesquisa da Sólides levantou que, em 2024, apenas 6% das PMEs ofereceram vagas no modelo híbrido e 4,2% no modelo remoto. Em 2023, os índices foram 87,8%, 7,6% e 4,5%, respectivamente. Entre janeiro e setembro de 2024, as micro e pequenas empresas foram responsáveis por gerar seis em cada dez empregos formais no Brasil, totalizando mais de 1,2 milhão de vagas no período. Esses dados fazem parte de uma pesquisa realizada pelo Sebrae a partir de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
O que pensam os executivos
Mas o que pensam os executivos responsáveis pela escolha do modelo presencial, híbrido ou remoto? Alessandro Garcia, coCEO e cofundador da Sólides, dá um panorama da visão das PMEs.
“Ainda há muita coisa que funciona melhor presencialmente, como o aspecto cultural da empresa”, diz. Um outro detalhe é que não são todos os trabalhadores que atuam bem no modelo remoto. “Pessoas muito expansivas e dinâmicas precisam estar em contato com outros indivíduos. Deixá-los isolados pode causar adoecimento”, afirma.
Modelos flexíveis podem crescer
Mas nem tudo está a favor do modelo presencial. Garcia diz que os modelos flexíveis têm espaço para crescer no futuro, com a transformação digital e a modernização das PMEs.
“Muitos preferem o modelo antigo de trabalho para ter mais controle visual das operações. Aí a questão não é de produtividade, mas de controle”, argumenta. Mas, segundo Garcia, a implementação de tecnologias apropriadas tornará possível mensurar a performance por produtividade e o empregador se sentirá mais confiante de que o trabalho está sendo executado.
Vigilância de trabalhadores não é recomendada
Roberta Rosenburg, especialista em desenvolvimento de líderes e fundadora da consultoria F.Lead, pensa de forma semelhante a Garcia. Para ela, a sensação de segurança de que o trabalhador está produzindo porque está sendo vigiado é uma ilusão.
“O colaborador pode estar no escritório, sentado na cadeira, e ainda assim não ser produtivo”, argumenta.
É preciso ter metas e processos claros
Uma gestão remota ou híbrida não precisa ser medida por horas trabalhadas, mas sim por metas e objetivos alcançados, de acordo com Rosenburg. Se a empresa não tem processos muito claros, como medir a produtividade?
“Não estabelecer metas específicas e entregáveis com prazos definidos é o que mais dificulta a liderança remota”, adverte a executiva.
Reuniões precisam ser constantes

A especialista destaca a importância de realizar reuniões constantes e conversas individuais – conhecidas como “one-to-one” – para entender os sentimentos do funcionário e quais problemas enfrenta. Segundo Rosenburg, uma boa alternativa para trabalhadores sem escritório é a organização de encontros regulares em coworkings para fortalecer o senso de equipe.
Com 183 funcionários, a empresa de seguros de viagem Coris optou pelo modelo híbrido de trabalho. Bruno Venancio, diretor de recursos humanos, diz que a grande vantagem, tanto para a empresa quanto para o funcionário, é a questão de o colaborador ter mais tempo em casa e diminuir o deslocamento. Ele observa que os profissionais estão com uma “cabeça mais saudável” após a mudança para o híbrido.
“Nós tínhamos dois ou três casos de burnout e pessoas afastadas por transtornos de saúde mental. Não podemos virar as costas para as questões psicológicas dos funcionários”, afirma, acrescentando que, apesar das vantagens do modelo híbrido, alguns funcionários reconhecem baixo rendimento no home office e optam pelo trabalho no escritório.
Absorção de cultura da empresa
No Grupo GCB, uma holding especializada no mercado financeiro e de capitais com 156 funcionários, a opção é pelo modelo presencial. Na percepção do CEO Gustavo Blasco, os trabalhos híbrido e remoto dificultam a absorção de cultura pelos empregados, o alinhamento entre as equipes, a transmissão do conhecimento, a empatia e a correta execução dos processos. Mas apesar da preferência pelo presencial, Blasco diz que há casos em que a flexibilidade pode ser aplicada.
“O trabalho remoto pode funcionar bem para atividades que demandam execução e entregas objetivas, mas que não envolvem cargos de gestão”, pondera, acrescentando que programadores e desenvolvedores, na área de tecnologia, são exemplos de profissionais que podem atuar em home office.
Home office ajuda a reter talentos

Já a Clicksign, que promove assinatura digital e eletrônica de documentos, com 205 funcionários, optou pelo trabalho totalmente remoto. Michael Bernstein, cofundador da empresa, explica que ela foi criada em 2010 já em home office e comenta que há uma verba mensal para ajudar o funcionário com a estrutura de trabalho em casa. O empregado que prefere trabalhar de forma presencial, todavia, pode usufruir de um escritório mantido pela companhia. Bernstein acredita que o home office ajuda a empresa a reter talentos.
“Nossos colaboradores estão extremamente satisfeitos com o trabalho remoto. Eles elogiam a liberdade de escolha e a confiança que a empresa deposita em cada um”, diz.
Para manter a equipe conectada, Bernstein realiza reuniões periódicas com os líderes e observa a participação ativa nas discussões e decisões online. São usadas ferramentas como Slack, Google Meet e Google Docs”. Na opinião da Clicksign, o home office é positivo pela possibilidade de contratar pessoas de qualquer lugar. E os colaboradores ganham flexibilidade para morar onde desejarem.