• O Brasil exerce influência global crescente através de cinema, moda e entretenimento, consolidando uma estratégia de soft power multissetorial que substitui a tradicional dependência de hard power militar ou econômico.
  • A indústria audiovisual gerou R$ 70,2 bilhões no PIB em 2024, enquanto marcas brasileiras como PatBO e Artemisi vestem celebridades internacionais, posicionando o país como hub de lançamentos globais e não apenas mercado consumidor.
  • O fenômeno "Brazilian Core" e prêmios como Creative Country of the Year em Cannes Lions 2025 demonstram que a autenticidade e diversidade cultural brasileira se tornaram diferenciais competitivos requisitados no mercado internacional.
Resumo supervisionado por jornalista.

O poder de um país influenciar as decisões e comportamento de outras nações acontece tradicionalmente por meio da coerção militar ou econômica, movimento conhecido como ‘hard power’. Mas, não se trata da única via para isso, como apontou o cientista político Joseph Nye, criador do conceito de ‘soft power’.

Os exemplos do “poder brando” incluem a influência, entre outros, da indústria de entretenimento e da moda. É o caso do cinema de Hollywood e do K-pop sul-coreano. Nesse último caso, o investimento em cultura foi uma estratégia nacional da Coreia do Sul para sair de uma crise econômica nos anos de 1990.

O Brasil aparece agora como um protagonista dessa tendência, a partir de várias indústrias, entre elas a do entretenimento e do estilo. Em outras palavras, o país está – literalmente – na moda.

“O Brasil está finalmente deixando para trás a histórica ‘síndrome de vira-lata’ para assumir um protagonismo multissetorial estratégico. O reconhecimento que vemos hoje no cinema, na ciência e no esporte é coroado por uma presença sem precedentes na indústria do entretenimento, onde o país deixou de ser apenas um mercado consumidor para se tornar um hub de lançamentos globais para estrelas como Beyoncé e Rosalía”, disse Camila Moutinho, stylist brasileira com trajetória internacional na moda e na música, que já trabalhou com nomes como SZA e Kendrick Lamar, além de produções para o Grammy com Kehlani, FLO e Tinashe. Ela, que atualmente, integra a preparação da turnê internacional da cantora Kali Uchis, destaca que esse novo posicionamento valida nossa cultura como um ativo de exportação de alto valor: “a moda brasileira, ao vestir ícones internacionais com marcas como PatBo e Artemisi, prova que nossa autenticidade e diversidade não são apenas traços identitários, mas diferenciais competitivos que tornaram o ‘produto Brasil’ altamente requisitado e trendy no mercado global.”

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O Brasil está na moda

Fachada do edifício com o logo da Motion Picture Association ao lado do nome
Foto: Julian Prizont-Cado / Shutterstock

No caso do cinema, as premiações internacionais, inclusive no Oscar, são a ponta do iceberg de um mercado com impacto de R$ 70,2 bilhões no PIB em 2024. Essa estimativa é de um estudo da Motion Picture Association (MPA) do Brasil sobre a indústria do audiovisual.

Como aposta o site Fast Company, para cada R$ 10 milhões gerados pelo setor, outros R$ 12 milhões são adicionados por outros segmentos. 

Apesar de a TV aberta ainda ser a líder, com 47% do impacto citado do audiovisual no PIB e a geração de 44% dos empregos diretos, o cinema, incluindo exibidores, representou 5% da contribuição no PIB setorial e 22% dos empregos.

O apelo brasileiro vai além das telas, como demonstra o chamado Brazil (ou Brazilian) Core, fenômeno registrado pela BBC como a tendência de “se vestir como brasileiro”. A reportagem mostra que não se trata de um movimento novo, mas que registra algumas características, entre elas o uso da camisa verde e amarela da seleção.

Com a Copa do Mundo em 2026, essa pegada deve se repetir, turbinada com outros itens, incluindo os chinelos Havaianas e os acessórios coloridos, completados por roupas com motivos tropicais.

Entre os impulsionadores do Brazilian Core estão os artistas pop, entre eles Hailey Bieber, esposa de Justin Bieber e filha da brasileira Kennya Deodato, com o ator Stephen Baldwin. Kennya, por sua vez, é filha do ícone Eumir Deodato, músico internacionalmente reconhecido.

Mulher street style com vestuário de alfaiataria em tons lilás e rosa, usando havaianas, na cidade
Imagem gerada digitalmente

Um dos aspectos dessa tendência é ressignificar uma estética praieira para ambientes urbanos mais formais, caso da Noruega, que misturou as Havaianas com alfaiataria na semana de moda de Copenhague.

Ter sangue brasileiro como Hailey Bieber necessariamente não é importante. Beyoncé, por exemplo, funcionou como vitrine VIP da marca brasileira PatBO, criada pela mineira Patricia Bonaldi.

Segundo o site oficial da marca, a própria stylist da cantora americana foi quem acionou Patrícia para vestir a artista. O trabalho de confecção de uma peça única levou cerca de 60 dias de trabalho artesanal. O resultado pode ser visto na turnê Renaissance: um vestido todo bordado à mão e extremamente brilhante.

As notícias mais recentes incluem a participação da marca brasileira na famosa semana de moda de Nova Iorque. Não é a primeira vez da PatBO no evento, um dos mais importantes do mundo, mas ela é a única do Brasil da edição de 2026.

Embora as referências da coleção sejam latinas, incluindo Frida Kahlo, várias personalidades nacionais foram inspiração da marca, entre elas Carmen Miranda, a maior artista brasileira com carreira na Hollywood dos anos 1940 e 1950, e Carmen Mayrink Veiga, socialite conhecida nos círculos de alta costura, como exemplo da elegância brasileira.

Outra marca nacional, a Artemisi, também faz o papel de embaixadora do país no exterior. Ela foi a primeira empresa brasileira a colaborar com a Adidas Originals. Na avaliação do site Consumidor Moderno, essa participação “cruza a fronteira entre moda, arte e tecnologia”, entregando mais do que design para a criação do primeiro tênis de Mayari Jubini, líder criativa da Artemisi, para a fabricante alemã.

A projeção internacional da designer vai além: nomes como Julia Fox, Katy Perry e Demi Lovato já usaram roupas de Mayari. Outra cliente recorrente é Anitta, que por si só, é uma referência do soft power do Brasil, sendo a primeira brasileira a alcançar o topo da parada global da Spotify.

Para além da moda e cinema, em 2025, o Brasil foi eleito Creative Country of the Year em Cannes Lions e bateu recorde de turismo, com 9,2 milhões de visitantes. Em publicação recente, a revista britânica The Economist aponta o Brasil como força emergente da cultura latino-americana. Até a tradicional obra “Memórias póstumas de Brás Cubas” viralizou, impulsionada pela tiktoker americana Courtney Henning Novak, que aprendeu português e declarou que esse é seu livro favorito. Sim, o Brasil está na moda, e em muitos segmentos.

Dúvidas mais comuns

Soft power é o poder de influenciar as decisões e comportamento de outras nações através da atração e persuasão, em contraste com o 'hard power' que utiliza coerção militar ou econômica. Segundo o cientista político Joseph Nye, criador do conceito, a sedução é sempre mais eficaz que a coerção, e valores como democracia, direitos humanos e oportunidades individuais são profundamente sedutores. Os recursos de soft power incluem a influência da indústria de entretenimento, moda, cinema e cultura em geral.

O Brasil está consolidando seu soft power através de múltiplos setores, especialmente cinema, moda e entretenimento. O país deixou de ser apenas um mercado consumidor para se tornar um hub de lançamentos globais para artistas internacionais como Beyoncé e Rosalía. Marcas brasileiras como PatBO e Artemisi vestem ícones internacionais, enquanto o cinema gera impacto de R$ 70,2 bilhões no PIB em 2024. Além disso, o Brasil foi eleito Creative Country of the Year em Cannes Lions em 2025 e é reconhecido pela revista The Economist como força emergente da cultura latino-americana.

A moda brasileira prova que a autenticidade e diversidade do país são diferenciais competitivos altamente requisitados no mercado global. Marcas como PatBO e Artemisi vestem celebridades internacionais, com a PatBO sendo a única marca brasileira na semana de moda de Nova Iorque em 2026. A Artemisi foi a primeira empresa brasileira a colaborar com a Adidas Originals, e suas criações são usadas por personalidades como Julia Fox, Katy Perry e Demi Lovato. Esse reconhecimento internacional valida a cultura brasileira como um ativo de exportação de alto valor.

O cinema brasileiro representa 5% da contribuição no PIB setorial do audiovisual e gera 22% dos empregos diretos do setor. Para cada R$ 10 milhões gerados pelo cinema, outros R$ 12 milhões são adicionados por outros segmentos da economia. As premiações internacionais, inclusive no Oscar, são apenas a ponta do iceberg de um mercado que impactou R$ 70,2 bilhões no PIB em 2024, consolidando o Brasil como protagonista no entretenimento global.

O Brazilian Core é a tendência de 'se vestir como brasileiro' registrada pela BBC, que vai além das telas e ressignifica uma estética praieira para ambientes urbanos mais formais. A tendência inclui o uso da camisa verde e amarela, chinelos Havaianas, acessórios coloridos e roupas com motivos tropicais. Artistas pop como Hailey Bieber e Beyoncé funcionam como impulsionadores dessa tendência, e com a Copa do Mundo em 2026, essa pegada deve se intensificar ainda mais no mercado global.

A Coreia do Sul utilizou o investimento em cultura como estratégia nacional para sair de uma crise econômica nos anos de 1990, criando fenômenos globais como o K-pop. O Brasil segue modelo semelhante, utilizando cinema, moda e entretenimento como ferramentas de influência internacional. Essa abordagem multissetorial permite que o país assuma um protagonismo estratégico, deixando para trás a histórica 'síndrome de vira-lata' e consolidando sua presença no mercado global.

Além da moda e cinema, o Brasil utiliza múltiplos setores como ferramentas de soft power. Artistas como Anitta, primeira brasileira a alcançar o topo da parada global do Spotify, representam a influência cultural do país. O turismo também cresceu significativamente, com 9,2 milhões de visitantes em 2024. Até mesmo a literatura brasileira viralizou, com a obra 'Memórias póstumas de Brás Cubas' ganhando popularidade internacional através de criadores de conteúdo como a tiktoker americana Courtney Henning Novak.

O Brasil consolidou seu reconhecimento como potência cultural através de múltiplos indicadores: foi eleito Creative Country of the Year em Cannes Lions em 2025, bateu recorde de turismo com 9,2 milhões de visitantes, e é apontado pela revista britânica The Economist como força emergente da cultura latino-americana. Esse reconhecimento resulta do protagonismo multissetorial em cinema, moda, música e entretenimento, onde marcas e artistas brasileiros conquistam espaço em plataformas globais de prestígio, validando a cultura brasileira como um ativo estratégico de exportação.