Desenvolver uma visão global dos negócios ainda costuma ser associado a executivos expatriados, profissionais de multinacionais ou lideranças diretamente envolvidas com operações internacionais. Mas a sucessão recente de crises geopolíticas, instabilidades econômicas, guerras, mudanças climáticas e rupturas nas cadeias globais de suprimentos ampliou o impacto dessas transformações sobre empresas de todos os portes e setores.
Hoje, mesmo gestores que atuam exclusivamente no mercado nacional são afetados por decisões tomadas do outro lado do mundo. Oscilações no preço de commodities influenciam custos locais, crises energéticas alteram cadeias de abastecimento e eventos climáticos extremos impactam produção, logística e operações empresariais. Em relatório sobre cadeias globais de valor, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) destaca que a fragmentação internacional da produção ampliou a interdependência econômica entre países e aumentou a exposição das empresas a riscos sistêmicos globais.
“Não tem como fugir das questões globais”
A própria OCDE passou a tratar o desenvolvimento de competências globais como uma habilidade essencial em um mundo marcado por crescente conectividade econômica, social e política. Segundo a organização, “global competence” envolve a capacidade de analisar questões locais, globais e interculturais, compreender diferentes perspectivas e agir de forma responsável em contextos interdependentes:
“A gente sabe que até a padaria da esquina é afetada pelo preço do trigo. Não tem como fugir das questões globais”, afirma Livia Barakat, professora e coordenadora técnica do Executive MBA da Fundação Dom Cabral (FDC). De acordo com ela, o desenvolvimento deste olhar global ocorre a partir de quatro pilares: mobilidade internacional de alunos, presença de estudantes estrangeiros em sala de aula, inserção de conteúdos globais na grade curricular e atuação de professores com experiência internacional. “Os profissionais precisam ampliar a capacidade de leitura do cenário internacional”, destaca.
Livia comenta que muitos gestores ainda não possuem plena consciência de que o mindset global já funciona como uma ferramenta imediata de sobrevivência empresarial, tanto para identificar oportunidades quanto para reduzir riscos gerados por transformações internacionais que impactam negócios locais quase em tempo real. “Muita gente nunca nem ouviu falar de mindset global”, diz a professora. “Hoje, eu diria que grande parte ainda não tem essa plena consciência, mas algumas lideranças já começam a ser despertadas para isso”, completa.
Dimensões do mindset global

O desenvolvimento do mindset global acontece a partir de três dimensões, segundo a professora: capital intelectual, capital emocional e capital social. O capital intelectual está ligado à capacidade analítica e à compreensão das dinâmicas globais. O capital emocional envolve abertura ao novo, adaptação e disposição para lidar com ambiguidades. Já o capital social está relacionado à construção de redes, influência e habilidade de atuar em ambientes multiculturais.
“O ambiente acadêmico é um ambiente seguro para testar ideias, rever preconceitos e ampliar a visão de mundo”, afirma Livia. Segundo ela, muitos executivos ainda carregam estereótipos culturais que acabam se tornando barreiras para negócios internacionais e tomadas de decisão mais sofisticadas.
A exposição a diferentes culturas e experiências ajuda justamente a desenvolver maior flexibilidade estratégica. Em vez de apenas reagir a crises, líderes passam a construir repertório para antecipar movimentos, interpretar tendências e identificar riscos antes que eles atinjam diretamente suas operações.
Essa necessidade de adaptação aparece de forma crescente em relatórios globais sobre risco e negócios. O World Economic Forum, por exemplo, vem apontando tensões geopolíticas, conflitos econômicos, desinformação e eventos climáticos extremos entre os principais fatores de risco para empresas e economias nos próximos anos:
Nesse contexto, resiliência, adaptabilidade e visão sistêmica passaram a ocupar um papel central no desenvolvimento de lideranças.
Livia destaca que é fundamental trabalhar essas competências por meio de experiências práticas, atividades colaborativas e trocas entre executivos de diferentes setores e origens. O programa inclui desde trabalhos em grupo até fóruns com CEOs e lideranças empresariais internacionais, criando oportunidades para desenvolvimento de networking e ampliação de repertório.
No caso da FDC, o desenvolvimento do mindset global dos alunos é mensurado ao longo do programa. Segundo Lívia, algumas turmas apresentaram crescimento de até 45% nos indicadores comparando o início e o fim da formação.
Em um ambiente de negócios marcado por instabilidade constante e impactos globais cada vez mais imediatos, compreender fenômenos internacionais deixou de ser apenas um diferencial competitivo. Para muitas lideranças, começa a se tornar uma condição de sobrevivência estratégica.