Para os líderes e gestores de médias empresas, o desafio atual da IA não é adotar a tecnologia por modismo, mas saber filtrar a enxurrada de possibilidades e priorizar projetos alinhados à estratégia de negócios. Essa é a avaliação do CEO da Adalink, Helbert Costa, palestrante do primeiro dia do 11º Fórum Anual das Médias Empresas, evento organizado pela Fundação Dom Cabral (FDC).
“A verdade é que ninguém quer a inteligência artificial pela tecnologia em si. O que as empresas realmente buscam são as consequências práticas de sua implementação: melhorar a produtividade, reduzir riscos operacionais, elevar a qualidade das entregas ao cliente e aprimorar os produtos da empresa”, definiu Costa. “Portanto, a IA que funciona é aquela que gera resultado mensurável e destrava valor real”, completou.

De acordo com ele, um dos maiores erros cometidos pelas organizações, impulsionadas pelo entusiasmo em torno da tecnologia, é iniciar múltiplos projetos ao mesmo tempo. No entanto, as estatísticas não mentem: 87% dos projetos de inteligência artificial falham. Para evitar o desperdício de recursos, as médias empresas precisam seguir um passo a passo estruturado e pragmático.
O primeiro deles é o foco, executando um projeto de cada vez. O segundo passo consiste no mapeamento e na valorização da experiência da própria base da empresa. A IA não conseguirá realizar com sucesso aquilo que a equipe já não possui competência prática para avaliar ou executar, de acordo com o especialista. Portanto, o treinamento da IA deve começar com o compartilhamento do conhecimento interno e dos processos que dão trabalho no dia a dia da operação.
Pular essa etapa e pedir conselhos estratégicos genéricos diretamente para uma IA pública, sem contextualização prévia, resulta em respostas padronizadas e idênticas às que todos os seus concorrentes receberão.
“A IA opera por probabilidades estatísticas e tende a dar respostas comuns para perguntas comuns”, disse Costa.
“Para ter uma IA que funcione de verdade, ela precisa absorver o conhecimento proprietário da empresa e depois fornecer conselhos contextualizados com base nessa bagagem. E, finalmente, ser direcionada para a execução prática”.
ROI mais rápido nas médias empresas
Para médias empresas que buscam retorno financeiro ágil, Costa aconselha que o foco deve estar em casos de uso específicos e de alta eficiência, em vez de centralizar o conhecimento do mundo em um único agente complexo e caro. Os principais geradores de ROI rápido incluem:
- análise de compras: agentes de IA capazes de analisar compras históricas e fornecer insights imediatos para redução de custos, como alertar se a empresa está pagando até 23% a mais do que a média histórica por um insumo, sugerindo substitutos com qualidade equivalente;
- estrategistas e assistentes pessoais: ferramentas que apoiam os tomadores de decisão com base nos dados reais do negócio, otimizando o planejamento diário;
- gestão de recursos humanos: aplicação de análises preditivas inovadoras. Costa cita o caso de cruzamento de dados de cancelamento de clientes como ponto de partida para prever com precisão quais colaboradores pretendem pedir demissão. Isso permite ações preventivas de retenção de talentos e melhoria de clima organizacional.
- gerenciamento de projetos: centralização de tarefas de WhatsApp, dados, comercial e financeiro por meio de assistentes virtuais de IA integrados, que agilizam a comunicação e o acompanhamento das metas organizacionais de forma centralizada.
Processo é o maior gargalo
Para que uma média empresa alcance a alta produtividade sem cair em armadilhas operacionais, ela deve gerenciar três pilares essenciais de forma integrada, que são as ferramentas e dados, pessoas e processos. Nesse último caso, a problemática é maior.
Costa argumenta que esse é o maior gargalo corporativo, uma vez que os processos atuais das empresas foram desenhados para serem executados por humanos, numa época em que a IA não existia.
“Tentar simplesmente encaixar a IA em um fluxo de trabalho antigo apenas fará com que o funcionário opere a IA para aumentar sua própria produtividade isolada, sem gerar valor real ou sistêmico para o negócio”, argumentou.
De acordo com ele, ainda mais crítico é o fato de a IA não melhorar processos ruins, mas apenas acelerar a ineficiência. Ele lembra que, se a empresa possui um processo falho e insere IA nele, passará a ter um processo ruim e rápido.
“Readequar a estrutura de processos e eliminar etapas redundantes antes de automatizar é obrigatório. Se a metodologia ou processo da empresa tem mais de quatro anos, ele provavelmente já é obsoleto e precisa ser revisitado e adaptado para o novo modelo mental tecnológico”, detalhou.
No caso dos dados, Costa lembrou que é preciso avaliar se as ferramentas atuais estão prontas para a integração e identificar onde estão armazenadas as informações. Curiosamente, com a facilidade de criação de sistemas customizados de IA, muitas médias empresas não precisam mais ficar reféns de softwares de prateleira (SaaS) caros e engessados, que estão perdendo valor de mercado, podendo criar seus próprios sistemas internos simplificados para resolver gargalos específicos.
Em relação às pessoas, o especialista lembrou que dar acesso a ferramentas avançadas sem a devida preparação e engajamento humano é inútil. “A cultura organizacional e a prontidão das pessoas são determinantes para que a tecnologia seja de fato integrada ao cotidiano”, finalizou.