Um estudo do National Center for the Middle Market (NCMM), da universidade estadual de Ohio, revela que um terço das médias empresas dos Estados Unidos forma um grupo de elite com perfil bastante definido: mentalidade inovadora, decisões rápidas e alocação recorde de capital em inteligência artificial (IA).
A avaliação foi destacada por Doug Farren, diretor executivo do NCMM, no 11º Fórum Anual de Médias Empresas, promovido pela Fundação Dom Cabral (FDC) em setembro.
O estudo identificou que, enquanto a maioria das organizações desse segmento luta para manter o ritmo, o grupo de elite (ou empresas com alta performance) alcançou um aumento médio de receita de 14% em 2025 e liderou as contratações em seus setores.
Ao analisar especificamente as empresas impulsionadas pela inovação, os dados apontam que 51% delas registraram expansão de receita igual ou superior a 10% em 12 meses, enquanto quase 70% expandiram ativamente seu quadro de funcionários.
Essas companhias integram a categoria dos “campeões de crescimento”, um grupo monitorado pelo NCMM desde 2012, que mantém expansão anual persistente na casa de dois dígitos. Antes da pandemia de 2020, os campeões de crescimento representavam 7% da receita do setor, engrenando uma forte aceleração contínua a partir de 2021.
P&D informal e ágil
O estudo mostrou ainda que uma das maiores vantagens competitivas das médias empresas em relação aos grandes conglomerados é a agilidade operacional. Diferentemente das gigantes corporativas, onde a pesquisa e desenvolvimento (P&D) exige processos formais e burocráticos, o mercado médio opera com P&D informal. Essa estrutura flexível permite que os líderes tomem decisões ágeis e realizem mudanças de rumo muito mais rapidamente do que seus concorrentes de grande porte.
Contudo, atuar sob limitação de recursos impõe concessões na chamada “economia de escolhas”. Embora o crescimento seja a prioridade declarada dos executivos, a lucratividade acaba prevalecendo quando a empresa é confrontada com decisões difíceis.

Em cenários de pressão de custos, 49% dos líderes afirmam que protegeriam integralmente a experiência do cliente, enquanto 53% admitem que sacrificariam investimentos em P&D ou inovação. Essa dinâmica revela uma inclinação defensiva em momentos de incerteza, priorizando a estabilidade imediata em detrimento do desenvolvimento de capacidades de longo prazo.
Revolução da IA
De acordo com Farren, outra característica envolve a IA: se no passado as crises econômicas levaram as médias empresas a reter caixa e congelar aportes, o ciclo recente registrou uma guinada tecnológica sem precedentes. Em meados de 2024, menos de 10% das empresas médias utilizavam inteligência artificial em suas operações. Apenas 18 meses depois, a taxa de adesão ativa à IA saltou para impressionantes 91%.
Esse movimento transformou a alocação de investimentos do setor. Enquanto os gastos com infraestrutura de TI mantiveram-se estáveis e os aportes em equipamentos e contratações diretas sofreram reduções, a inteligência artificial assumiu o topo das prioridades estratégicas.
Pela primeira vez na história do estudo, 25% das médias empresas destinaram o excesso de capital (Capex) primariamente à IA. Os ganhos operacionais explicam esse apetite: 45% das empresas de alto crescimento relatam saltos expressivos de eficiência por meio da automação e otimização de processos, em comparação com apenas 17% entre as de crescimento lento.
Desafio do capital humano
Apesar da rápida adoção, a implementação da IA não tem sido uma jornada isenta de atritos. Os pesquisadores alertam que a tecnologia não funciona como uma solução mágica imediata e que muitas companhias enfrentam dificuldades para extrair valor real dos investimentos.
O principal obstáculo das médias empresas reside na infraestrutura interna: ao contrário das grandes corporações, o mercado intermediário sofre com a escassez de equipes próprias de TI e enfrenta sérios gargalos para atrair e reter o capital humano especializado necessário para gerenciar a transição digital.
Comentando os achados do levantamento, Farren ressaltou que as médias empresas operam em um ecossistema moldado por prioridades concorrentes e que o sucesso final depende da habilidade dos líderes em equilibrar essas pressões.
Essa avaliação está alinhada com a opinião de Jay Anand, professor de estratégia da Universidade Estadual de Ohio, para quem as escolhas e concessões feitas pela liderança são essenciais para prever o desempenho futuro. Para Anand, as organizações que alinham suas decisões diárias à criação de valor sustentável de longo prazo estarão mais bem preparadas para navegar pelas incertezas globais.
Para Farren, esse cenário oferece lições valiosas inclusive para mercados emergentes como o Brasil, que abriga cerca de 70 mil médias empresas sujeitas a desafios estruturais e oportunidades de expansão bastante semelhantes aos vivenciados pela elite norte-americana.
Em tempo: a pesquisa da Universidade Estadual de Ohio, em colaboração com a consultoria CBIZ, entrevistou 400 executivos das áreas de construção, mercado imobiliário e produtos industriais e de consumo para mapear o que separa as empresas de elite daquelas de desempenho mediano.
O peso das médias nos EUA
Muitas vezes ignorado no debate público em comparação com startups incipientes ou gigantes corporativas listadas em bolsa, o mercado de empresas de médio porte nos Estados Unidos representa uma força financeira colossal. Formado por cerca de 200 mil organizações com faturamento anual entre US$ 10 milhões e US$ 1 bilhão, o setor é responsável por um terço de todo o Produto Interno Bruto (PIB) do setor privado norte-americano.
Se essa faixa do mercado intermediário fosse uma nação independente, ela figuraria como a terceira maior economia do mundo, posicionando-se logo atrás dos próprios Estados Unidos e da China.