- A PwC transformou seu modelo de negócio de auditoria tradicional para plataforma de soluções integradas personalizadas, construídas colaborativamente com clientes e parceiros tecnológicos.
- Marco Castro, CEO reeleito da operação brasileira, fundamenta essa transformação na centralidade das pessoas, pois a consultoria produz conhecimento e experiência através de seus 5 mil funcionários, não produtos físicos.
- A liderança moderna na PwC abandona comando e controle em favor de transparência, horizontalidade e diálogo, reduzindo barreiras hierárquicas para que conhecimento especializado prevaleça sobre cargo.
Marco Castro, CEO da operação brasileira da PwC, foi reeleito para o cargo em 2025, no tradicional processo de escolha dos sócios da consultoria e auditoria. Além de uma gestão marcada pelos resultados, o executivo é um exemplo de longevidade: começou na PwC como trainee em 1984, aos 17 anos.
Nessa entrevista para o Legacy Talks, da Fundação Dom Cabral (FDC), Marco explica que durante as mais de quatro décadas em que vivenciou a evolução tecnológica no trabalho, um dos destaques foi entender a importância de se adaptar rapidamente.
Para ele, a cultura da PwC o induziu a assumir o protagonismo do seu próprio desenvolvimento. O processo incluiu planejar os próximos passos da carreira, identificar quais formações adicionais precisaria ter, além de buscar ativamente as experiências mapeadas.
Marco explica que foi a diversidade de experiências da PwC que o motivou a construir uma carreira longa na mesma empresa. Como iniciou na área de auditoria, ele relata o fascínio de poder estar a cada dia em um ambiente de negócios diferente. Isso significou conhecer desde o chão de fábrica de uma indústria até a operação de uma agência de publicidade, além das viagens de trabalho para filiais em outros estados e países.
“Essa dinâmica alimentou minha curiosidade, pois sempre busquei me aprofundar nos temas e nunca me contentar em ficar na superfície”, explica.
A disciplina, por sua vez, é um mantra que veio da orientação materna. Tendo estudado boa parte da vida em escolas públicas, ele credita grande parte do seu desenvolvimento à mãe, que acompanhava seus estudos de perto e era frequentemente mais rigorosa nas cobranças das lições de casa do que os próprios professores. “Ela me incentivava a ler e estudar além do exigido”, pontua.
Empresa centralizada nas pessoas
Para Marco, a visão atual da PwC afasta-se do modelo histórico de uma empresa puramente de auditoria, consolidando-se como uma plataforma de soluções integradas.
As mudanças incluem o fim dos “produtos de prateleira” e foco na personalização. Isso acontece porque o nível de sofisticação e complexidade do mercado atual exige o fim das soluções padronizadas. Hoje, a companhia atua diagnosticando problemas e construindo soluções específicas para cada situação, muitas vezes elaboradas em conjunto com o próprio cliente.
Como não detém todas as soluções internamente, a PwC também se empenha em criar alianças e parcerias com grandes empresas de tecnologia do mercado, como SalesForce e SAP, e até com eventuais concorrentes, somando forças para resolver os problemas dos clientes.
Importante nessa jornada é a centralidade nas pessoas. Como a empresa não fabrica produtos físicos, sua “produção” real é baseada no intelecto, na experiência e no conhecimento aplicado de seus cerca de 5 mil funcionários no Brasil.
“A PwC é uma parceira para ajudar empresas mais tradicionais a se reinventarem. A tecnologia e a consultoria da companhia são pontes para que os clientes não se tornem irrelevantes frente a novos competidores do mercado”, completa.
A ambição, igualmente, faz parte da cartilha de Marco para a companhia, o que explica o compromisso de dobrar o tamanho do negócio ao longo do seu atual ciclo de mandato, que vai até 2030. No receituário do sócio-presidente está a aposta forte na adoção de tecnologias, na qualificação da equipe e no potencial inexplorado do mercado brasileiro.
Fim do comando e controle
Para avançar em suas metas, Marco destaca que a liderança e o trabalho em equipe estão interligados e se baseiam na colaboração, na horizontalidade e na valorização do indivíduo.
Para ele, a liderança moderna precisa ter um afastamento da filosofia de “comando e controle”. Segundo o executivo, ela não deve ser fundamentada apenas em dar ordens de cima para baixo, mas sim em ter a sensibilidade de ouvir as pessoas, entender seus pontos de vista e manter uma postura de total transparência e abertura para o diálogo.
“Um líder só é completo se tiver a consciência de que está sendo observado o tempo todo e de que exerce uma influência gigantesca sobre seus liderados”, argumenta Marco. O executivo defende que a atitude e a coerência entre o que o líder fala e o que ele efetivamente faz são fundamentais.
Em sua experiência na PwC, ele se descreve como um gestor focado em resolver conflitos, buscando pontos em comum e a conciliação. Em momentos de crise ou divergência, Marco reforça que a sensibilidade de ouvir todos os lados e propor o diálogo é o único caminho possível.
Transparência da liderança
Marco adota uma postura de transparência, por considerá-la o caminho certo para exercer uma liderança coerente e próxima de sua equipe. É essa “vulnerabilidade” que ele enxerga como essencial na liderança, pois ela humaniza o ambiente de trabalho e traz conforto para as equipes, especialmente para os profissionais mais jovens.
Um líder só é completo se tiver a consciência de que está sendo observado o tempo todo e de que exerce uma influência gigantesca sobre seus liderados
Ao compartilhar de forma transparente que também tem família, enfrenta dilemas pessoais e passa por dias em que não está no seu melhor, Marco busca desconstruir o mito do líder “super-herói”, aquele que desempenha perfeitamente o tempo todo, independentemente do que aconteça.
Ele acredita que demonstrar essa humanidade traz benefícios diretos para a saúde e o desenvolvimento do time, incluindo a redução da pressão excessiva. “Mostrar que o líder tem altos e baixos evita que os profissionais mais novos criem modelos irreais de perfeição. Isso impede que eles se cobrem ou se policiem em excesso, o que costuma fragilizar as relações”, resume.
Mostrar que o líder tem altos e baixos evita que os profissionais mais novos criem modelos irreais de perfeição
Marco destaca que, ao verem a vulnerabilidade na liderança, as pessoas entendem que também podem se permitir o tempo necessário para se curarem de perdas, doenças ou dificuldades pessoais, lembrando que a gravidade de um problema varia muito de pessoa para pessoa.

Fim das entregas isoladas
Ao defender uma liderança moderna, o CEO da PwC destaca a importância de estimular ativamente as equipes, pedindo que os indivíduos nunca subestimem a capacidade que têm de influenciar e transformar o ambiente em que atuam.
Outro ponto importante é o fim das entregas isoladas. Na sua visão de negócios, Marco alerta que não existe mais espaço para o profissional que se fecha em uma sala para produzir sozinho. Para ele, o modelo ideal e necessário exige que todos construam as soluções juntos.
No trabalho em equipe valorizado por ele, o que prevalece é o conhecimento e não necessariamente o cargo. Marco avalia que as barreiras hierárquicas tendem a desaparecer para dar voz ao especialista do assunto, permitindo que um assistente possa ser tão útil e contribuir tanto quanto um profissional sênior ou mais experiente.
O conceito de “trabalhar junto” se estende para fora da organização. O executivo explica que, diante da complexidade atual, as empresas precisam construir soluções em conjunto com o próprio cliente e estabelecer alianças com parceiros de mercado.
Recomendações
Apaixonado por cinema e leitor ávido, Marco indica filmes e livros que o estimulam:
Filmes
Ainda estou aqui: um título nacional recente que ele avaliou como brilhante.
Conclave: elogiado pela fotografia, atuações e a dinâmica da história. Para ele, os diálogos são impressionantes e geram reflexões profundas que ele chega a utilizar algumas das falas no seu próprio dia a dia.
Séries
Line of duty: focada em um grupo de policiais que investiga casos de corrupção dentro da própria polícia. Ele nota, de forma bem-humorada, que os temas de compliance vistos ali guardam certa relação com a rotina de auditoria.
Segurança em jogo: Série de temporada única que ele aprova bastante, destacando especificamente que o seu terceiro episódio foi um dos mais tensos a que já assistiu na vida
Livros
Pequenas coisas como essas: Obra da autora irlandesa Claire Keegan.
O Homem ilustrado: livro de Ray Bradbury, lançado em 1951. “Mesmo sendo antigo, é um livro extremamente atual”, opina.