A liderança na era da IA será cobrada por aquilo que a tecnologia não entrega: escuta, contexto e repertório. Foi o consenso de executivos reunidos na SP2B, realizada de 09 a 16 de agosto no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Fábio Coelho, presidente do Google Brasil, avaliou que o advento da IA precisa ser analisado dentro de um movimento mais amplo de democratização do acesso, da informação e do empreendedorismo. Em outras palavras: é possível que a humanidade utilize a IA para ampliar o alcance dos conhecimentos.

Segundo ele, a sociedade passou por diferentes ondas de transformação tecnológica nas últimas décadas, e a IA é o resultado dessas etapas.

Da internet às lideranças de IA

A primeira foi a ampliação do acesso à informação, com o advento da internet. Depois veio a democratização da produção de conteúdo, impulsionada pelos smartphones e pelas plataformas digitais. Para Fábio Coelho, esse processo ajudou a criar uma economia de criadores e abriu espaço para que pessoas de diferentes regiões e perfis transformassem conhecimento e interesses em negócios.

Na sequência, avançou o empreendedorismo digital. O executivo citou a experiência do Google no Brasil, que acelerou cerca de 480 empresas entre 2015 e 2025 e ampliou a atuação com um novo campus voltado a startups ligadas à inteligência artificial.

Agora, é preciso preparar o país para produzir tecnologia, ao invés de apenas utilizá-la: e isso exige novas visões de liderença. “Como é que se lidera alguém que sabe [ou pode saber rapidamente com uma pesquisa de IA] mais do que você?”, questionou Coelho.

A resposta é humanidade. Para ele, as características humanas ganham mais importância nessa nova era e habilidades como empatia, capacidade de ouvir, intuição e compreensão das diferenças pesarão a favor de quem lidera equipes.

De modo prático, Coelho defendeu uma liderança menos baseada em comando e mais orientada à criação de condições para que as pessoas possam trabalhar melhor. “Eu saio da frente, ajudo a remover obstáculos e mostro para as pessoas que elas têm valor”, afirmou.

Liderança feminina emergiu, mas estrutura do trabalho ainda não

No mesmo debate, a consultora e jornalista Ana Paula Padrão apresentou dados sobre escolaridade, fecundidade e renda para defender que as mulheres alcançaram mais espaços nas últimas décadas, mas as instituições e as relações sociais não acompanharam o mesmo ritmo.

Segundo ela, a média de anos de estudo das mulheres brasileiras chegou a 10,55 anos, enquanto a taxa de fecundidade caiu para 1,5 filho por mulher. Em 1960, eram 1,9 anos de estudo e 6,3 filhos por mulher.

A mudança alterou o papel econômico e social das mulheres e Ana Paula Padrão destacou ainda que 53% dos domicílios brasileiros têm uma mulher como principal ou única fonte de renda.

“O problema é que isso não foi acompanhado por uma redistribuição equivalente das responsabilidades de cuidado”, ponderou, para mostrar que a sobrecarga do trabalho para as mulheres atrapalham suas ascensões a cargos de liderança. “A brasileira mudou, mas a estrutura social do Brasil não mudou”, resumiu.

Assim, as mulheres viveriam hoje em uma estrutura de trabalho que ainda reproduz padrões de décadas passadas. A consequência aparece também nos indicadores de saúde. Ela citou mais de meio milhão de afastamentos oficiais do trabalho por transtornos mentais, estresse, depressão, ansiedade extrema e burnout no ano passado, sendo 63% deles envolvendo mulheres.

A questão, segundo a jornalista, não é uma desistência das mulheres das carreiras, mas uma rejeição a modelos de trabalho que concentram responsabilidades profissionais e domésticas sobre elas.

Entre os caminhos apontados por ela estão uma divisão mais equilibrada do tempo de cuidado, a criação de novos modelos de carreira para homens e mulheres e a construção de uma infraestrutura social de cuidado.

Liderança precisa criar espaço para o humano

Luiza Helena Trajano, fundadora e presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza e do Grupo Mulheres do Brasil, defendeu uma mudança na forma de enxergar liderança. Para ela, o líder é aquele que consegue levar as pessoas mais longe do que elas imaginavam ser capazes de chegar.

A executiva destacou a importância de aproximar propósito e resultado. Em sua trajetória, afirmou ter trabalhado com a ideia de que lucro e propósito não precisam ser objetivos opostos.

Luiza citou ainda a experiência recente do Grupo Mulheres do Brasil, que reuniu cerca de 20 mil mulheres em um summit com participantes de diferentes setores e classes sociais. Segundo ela, 60% das participantes eram da classe C, muitas enfrentando jornadas extensas de trabalho e responsabilidades domésticas.

A experiência reforçou, para a executiva, a necessidade de construir mudanças com participação coletiva. Ela defendeu a presença de mulheres em posições de poder, mas também destacou a importância da participação masculina nesse processo.

A meta apresentada pelo Grupo Mulheres do Brasil é chegar a 50% de mulheres em cargos de alta liderança até 2030. “Nós não vamos brigar com os homens. Nós vamos nos unir aos homens”, afirmou.

Experiência ganha valor no mundo da IA

A formação das novas gerações aparece como outro desafio.

“Mais do que temer máquinas substituindo pessoas, é preciso evitar que pessoas passem a agir como máquinas”

Camila Achutti, CEO da Mastertech

Segundo ela, a próxima geração terá o desafio de ganhar experiência contextual em um mundo dominado pela inteligência artificial. Isso coloca uma questão para escolas e empresas: como formar profissionais que não apenas saibam utilizar ferramentas de IA, mas também consigam interpretar situações, tomar decisões e acumular repertório?

A experiência, portanto, vale muito e será fundamental para definir novas lideranças. E isso tem relação com a forma como as pessoas aprendem no ambiente profissional. “A experiência não está apenas na execução de uma tarefa, mas na observação de colegas, na convivência e na compreensão de como uma organização funciona. “Comecei a trabalhar numa máquina de xerox. Mas eu não aprendia só a xerocar, aprendia a trabalhar, ao ver as outras pessoas trabalhando”, concluiu.