• O Lead Independent Director (LID) está se consolidando como figura central na governança corporativa para enfrentar desafios éticos, estratégicos e reputacionais complexos.
  • Estudos mostram que 46% das empresas nos EUA e diversas companhias no Brasil adotam o LID para garantir independência, mediação entre CEO e conselho, e fortalecer decisões estratégicas.
  • A crescente adoção do LID indica uma evolução da governança corporativa rumo a maior diversidade de perspectivas, ética e responsabilidade coletiva nos conselhos.
Resumo supervisionado por jornalista.

Estamos diante de uma virada silenciosa, mas decisiva, na dinâmica dos conselhos de administração. À medida que os desafios éticos, estratégicos e reputacionais se tornam mais complexos, cresce também a demanda por vozes verdadeiramente isentas nas instâncias decisórias. É nesse cenário que o Lead Independent Director (LID) vem se consolidando como uma figura central na evolução da governança corporativa.

O LID é, essencialmente, um conselheiro independente que atua como coordenador e porta-voz dos demais conselheiros, também independentes. Ele garante que suas contribuições tenham espaço qualificado nas deliberações, especialmente quando o presidente do conselho não é independente. O líder também atua como mediador em tensões sensíveis entre o CEO e o board, exercendo papel crítico na preservação do equilíbrio e da legitimidade do colegiado.

A prática já é madura em mercados como os Estados Unidos, onde 46% das companhias de capital aberto contam com um LID, conforme estudo da Deloitte. No Reino Unido, Canadá e Austrália, o cargo é igualmente difundido, sendo considerado essencial em conselhos que buscam fortalecer a supervisão estratégica e a proteção dos interesses de longo prazo.

Leia também:

Existe momento correto para um CEO vir a ser conselheiro?

LID ganha espaço no Brasil

No Brasil, embora o LID ainda não seja uma exigência legal, sua adoção vem ganhando espaço em companhias que buscam excelência em governança, especialmente aquelas listadas no Novo Mercado da B3. 

É o caso da Localiza, que estruturou seu conselho com base nas melhores práticas internacionais e prevê a designação de um conselheiro independente com função de liderança e articulação. 

Outro exemplo é a Vale, que, diante de suas demandas de governança e da complexidade de seu contexto empresarial, adota o LID como figura-chave para garantir a fluidez do diálogo entre independentes e administração, fortalecendo a escuta e a imparcialidade nas decisões estratégicas.

O estudo “Conselheiros Independentes: Boas Práticas”, realizado pelo EY Center for Board Matters, em abril de 2024, entrevistou 143 membros de conselhos e executivos de grandes empresas brasileiras, para mapear as principais práticas e desafios relacionados aos conselheiros independentes. 

O levantamento mostrou que 97% dos conselhos já contam com membros independentes, sendo que suas maiores contribuições, segundo os respondentes, são trazer visão externa (23%), garantir imparcialidade e neutralidade (18%), agregar conhecimento e experiência do setor (14%) e promover profissionalismo e rigor (13%). Entre as qualidades mais valorizadas entre esses profissionais estão a habilidade para desafiar decisões do conselho de forma construtiva (15%), comunicação, liderança e empatia (15%) e altos padrões éticos (14%).

Leia também:

Conselheiros admitem urgência de letramento em ESG, mostra pesquisa

Cargo deve ter independência preservada

Para garantir a independência, os principais critérios apontados foram não ser empregado ou administrador atual ou recente da empresa (24%), não ser fornecedor ou auditor nos últimos três anos (19%), não ter vínculo de parentesco com administradores ou acionistas relevantes (18%) e não ser acionista (17%). O estudo também revela que a percepção de perda de independência cresce com o tempo de atuação: 37% consideram que ela se perde após cinco anos, 26% entre cinco e dez anos, e 22% após mais de dez anos.

LID
Foto: Aruta Images/ Shutterstock

Entre os principais desafios para ampliar a presença de conselheiros independentes, destacam-se a pressão de acionistas contrários à presença desses membros (21,2%), a escassez de candidatos qualificados (20,1%) e a baixa disposição para investir na busca de independentes (17,4%). Além disso, 68% dos participantes acreditam que conselheiros independentes devem acionar órgãos reguladores caso os interesses dos acionistas minoritários estejam em risco, reforçando o papel estratégico desses profissionais para fortalecer a governança e proteger a equidade entre os stakeholders. 

Mais do que uma formalidade, o LID representa um novo patamar de maturidade. Ele amplia a diversidade de perspectivas, fortalece a ética nas decisões e cria um canal legítimo para o contraditório — essencial em tempos de transformação. Nos próximos anos, a tendência é que esse papel ganhe mais protagonismo. 

À medida que os desafios de governança se tornam mais sofisticados, a liderança no conselho não será apenas sobre quem preside a mesa, mas sobre quem garante que todas as vozes sejam ouvidas. Se o século XX foi o século dos conselhos orientados ao controle, o século XXI será o da governança orientada ao diálogo e à responsabilidade coletiva. E o LID está no centro dessa evolução.

* Geovana Donella, professora convidada da Fundação Dom Cabral (FDC), atuando no Programa de Desenvolvimento de Conselheiros (PDC)

Dúvidas mais comuns

O Lead Independent Director (LID) é um conselheiro independente que atua como coordenador e porta-voz dos demais conselheiros independentes, garantindo que suas contribuições sejam consideradas nas deliberações, especialmente quando o presidente do conselho não é independente. Ele também medeia tensões entre o CEO e o conselho, preservando o equilíbrio e a legitimidade do colegiado.

No Brasil, o papel do LID vem crescendo em empresas que buscam excelência em governança, como as listadas no Novo Mercado da B3. Empresas como Localiza e Vale adotam o LID para fortalecer o diálogo entre conselheiros independentes e a administração, promovendo imparcialidade e fluidez nas decisões estratégicas diante de desafios éticos e reputacionais complexos.

Para garantir a independência, um conselheiro não deve ser empregado ou administrador atual ou recente da empresa, não pode ter sido fornecedor ou auditor nos últimos três anos, não deve ter vínculo de parentesco com administradores ou acionistas relevantes e não pode ser acionista significativo. A percepção de perda de independência aumenta com o tempo de atuação no conselho.

Os principais desafios incluem a pressão de acionistas contrários à presença desses membros, a escassez de candidatos qualificados e a baixa disposição das empresas para investir na busca por conselheiros independentes. Além disso, há a preocupação com a manutenção da independência ao longo do tempo.

Conselheiros independentes trazem visão externa, garantem imparcialidade e neutralidade, agregam conhecimento e experiência do setor, e promovem profissionalismo e rigor nas decisões. Eles são essenciais para fortalecer a ética, proteger os interesses de acionistas minoritários e garantir a equidade entre os stakeholders.

Os pilares fundamentais da liderança eficaz incluem propósito, pessoas, comunicação e resultados. Esses elementos ajudam a alinhar visão e valores, cuidar da equipe, garantir comunicação clara e alcançar metas, unindo humanidade com performance para uma governança mais sólida e responsável.

O LID representa um novo patamar de maturidade na governança, ampliando a diversidade de perspectivas, fortalecendo a ética nas decisões e criando um canal legítimo para o contraditório. Com desafios cada vez mais sofisticados, o LID garante que todas as vozes sejam ouvidas, promovendo uma governança orientada ao diálogo e à responsabilidade coletiva.