- Maite Leite, vice-presidente do Santander Brasil, se define como uma profissional inquieta que valoriza a mudança e a instabilidade, acreditando que essas características são essenciais para o desenvolvimento e o aprendizado em um ambiente de constantes transformações.
- Com uma carreira marcada por experiências em instituições financeiras de renome, Leite destaca a importância de autoconhecimento, determinação e construção de redes de confiança como pilares do seu sucesso, além de encarar crises como oportunidades de aprendizado.
- Em uma reflexão sobre as novas gerações, a executiva enfatiza a necessidade de resiliência emocional e profundidade técnica, alertando para os desafios que jovens enfrentam em um mundo dominado por informações instantâneas e superficiais.
Uma profissional inquieta, que “tomou gosto pela mudança” e que está sempre buscando algo novo e em transformação. É desta forma que se autodefine Maite Leite, vice-presidente Institucional do Santander Brasil, um banco com 60 mil funcionários, o equivalente à população de uma cidade de porte médio. Em entrevista à série FDC Legacy Talks, da Fundação Dom Cabral, que conversa com líderes e mostra suas experiências e estratégias, a executiva contou como conduziu o leme de sua carreira, muitas vezes navegando em mares revoltos.
Atuando há décadas no mercado financeiro, Leite ocupou diversos cargos como executiva ou líder, no Brasil e exterior, sendo CEO do Deutsche Bank no Brasil, e agora no grupo espanhol Santander. Nascida em uma família com três meninos e três meninas, a executiva atribui à figura materna forte o incentivo ao protagonismo e a busca por independência e autonomia.
Para ter sucesso na carreira, Leite desenvolveu “uma metodologia própria” de crescimento, focada em estudos de situações complexas e gestão de transformações.
“Tomei gosto pela mudança. Sou uma pessoa inquieta, que está sempre buscando algo novo e em transformação. E foram justamente as mudanças que me ajudaram a desenvolver muita confiança e ter precisão na abordagem das equipes, conseguindo gerar inspiração, agregação e engajamento. No exercício da gestão, procuro combinar aspectos comportamentais e técnicos”, definiu Leite.
Brasileiros estão acostumados a lidar com crises
A executiva preza tanto a mudança – que vê como geradora de oportunidades em vez de criadora de desconforto –, que prefere “a instabilidade, no lugar da estabilidade”. Ela disse acreditar que os brasileiros têm um diferencial competitivo, por serem acostumados a lidar com crises, instabilidades e inseguranças, “em um mundo fluido”, em constante transformação.
Leite destacou quatro características que a levaram a alcançar o sucesso: profundidade técnica; determinação; autoconhecimento e criação de network de confiança. Ela dá um recado importante a líderes que buscam um bom desenvolvimento da gestão:
“É muito importante não se amedrontar com as ondas altas, com situações de grande dificuldade. Devemos encarar as dificuldades como um mar de oportunidades para conquistar aprendizado. As situações de crise e adversidade ajudam a ganhar musculatura, a conseguir respostas e diagnósticos rápidos. Por isso, em meu ponto de vista, acredito que o que é difícil é sempre estimulante”, defendeu a executiva.
Trajetória marcada por aprendizado e conquistas
Leite iniciou a carreira como estagiária no Citi, onde trabalhou por cerca de dez anos. Segundo ela, o Citi foi sua melhor escola, onde aprendeu sobre riscos, processo e produto. No ABN Real, conheceu o valor da liderança para sua formação e de outros líderes e compreendeu a importância de “propósito e legado”. No Deutsche Bank, onde se tornou CEO, o desafio era a complexidade em uma organização muito sofisticada. Foi onde aprendeu aspectos técnicos e de desenvolvimento da qualidade de profissionais.
No Santander, Leite atua como uma líder multidisciplinar, conciliando o trabalho em áreas diversas, como marketing, comunicação, experiências, macroeconomia, cultura, sustentabilidade e relações governamentais. O desafio é levar unidade a todas essas disciplinas e garantir que tenham relevância para o negócio e para o posicionamento institucional do banco, gerando um maior atributo de valor no relacionamento com os clientes.
“Sou uma profissional generalista e não uma especialista, o que me ajuda a coordenar todos esses papéis. Não sou especialista em nada do que faço, mas sou uma boa gestora de pessoas, de processos e de transformação, sempre buscando o aprendizado”, explicou a executiva.
A executiva e o maestro
O comentário acima levou o apresentador do Legacy Talks, Thomaz Castilho, a comparar o trabalho de Leite ao de um maestro, que não sabe tocar todos os instrumentos, mas consegue conduzir a música tocada pelo conjunto de competências envolvidos em uma orquestra.
A vice-presidente Institucional do Santander também comentou o papel relevante dos bancos na educação financeira de seus clientes, funcionários e da sociedade em geral. Isto já é uma exigência regulatória do setor, mas trata-se de tarefa bastante complexa.
“Em um país com uma taxa de juros de 15%, a educação financeira é muito importante. Tanto para aqueles que buscam crédito, quanto para os que têm sobra de recursos e devem aplicá-los no mercado financeiro. É preciso conquistar muito entendimento e consciência para lidar com o dinheiro. Isso se estende das pessoas físicas às micro e grandes empresas”, comentou.
Novas gerações precisam de resiliência e profundidade
Leite também demonstrou preocupação com o preparo que novas gerações, sejam elas atuantes em bancos ou outros mercados, precisam ter para lidar com novos cenários atuais. Segundo ela, os mais jovens precisam conquistar “resiliência emocional” para lidar com os desafios do mundo atual.
Outro aspecto que atinge as novas gerações é o que Leite classificou como “profundidade”. A executiva observou que, em uma sociedade com tantas redes sociais e um mundo com aspecto “instantâneo”, no qual só se lê as manchetes rapidamente, sobre todos os assuntos, não há profundidade em nada e é preciso levar este conceito e comportamento aos mais jovens. Segundo ela, a sociedade tem um “olhar efêmero e instantâneo” muito influenciado pelas redes sociais.
“Acredito que o que vai determinar o sucesso das novas gerações é a combinação de tornar-se mais resiliente emocionalmente, com mais preparo para lidar com um mundo hostil e desafiador, com maior profundidade técnica e emocional”, defendeu a executiva.
Confira a entrevista completa no YouTube e no Spotify: