A justiça organizacional é uma expressão pouco ouvida e conhecida no mundo corporativo, mas seus princípios tornam-se cada vez mais relevantes e mostram-se essenciais para promover a saúde mental dos funcionários, bem como ajudá-los a serem mais produtivos. O tema foi desenvolvido em podcast da Fundação Dom Cabral (FDC), “Justiça Organizacional e Bem-estar nas Empresas”, visando difundir o conceito e seus benefícios entre colaboradores, líderes e membros da área de Recursos Humanos das organizações.
O podcast foi conduzido por Elisângela Furtado, professora e especialista em Gestão Estratégica de RH pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Carolina Tupinambá, advogada da área de Trabalho e Previdência Social, pesquisadora, professora da UFRJ e Uerj, e solucionadora de conflitos trabalhistas.
Mas, o que é justiça organizacional? As professoras explicam que o conceito engloba não apenas remuneração justa, mas respeito e reconhecimento do trabalho dos funcionários, o que evita problemas de saúde mental.
“O mundo do trabalho está cada vez mais complexo e com demandas multidisciplinares, como resultado da globalização e do avanço da tecnologia. Mistura-se muito a vida profissional e pessoal dos trabalhadores, o que gera preocupações com a saúde mental e o bem-estar dos funcionários”, explicou Carolina Tupinambá.
Índices de afastamento são preocupantes
Elisângela Furtado fundamentou este raciocínio com índices que considera preocupantes, registrados nos últimos dez anos. Segundo ela, em 2024 foi verificado o maior índice de afastamentos do trabalho devido a problemas de saúde mental, desde 2014. Além disso, de 2023 para 2024, houve um salto de 68% nos índices de afastamento. O burnout está entre as consequências negativas registradas devido à falta de justiça organizacional.
“O dilema dessa situação é que a insatisfação é silenciosa. O funcionário pode reagir à falta de justiça organizacional adoecendo ou até mesmo adotando comportamentos negativos no trabalho, que afetam sua produtividade”, disse Furtado.
Quais são as vantagens para as empresas?

Mas quais seriam as vantagens para as empresas ao estabelecerem procedimentos de justiça organizacional? Segundo Tupinambá, o ambiente com justiça organizacional e comportamento inclusivo traz grandes ganhos institucionais e econômicos para as corporações, com a melhoria da saúde mental e bem-estar dos funcionários. São muitos os benefícios para as empresas, dentre eles os listados abaixo.
- Redução do absenteísmo
- Menores índices de turnover
- Funcionários mais produtivos
- Funcionários mais motivados
- Colaboradores mais criativos
- Funcionários com autoestima elevada
- Menor resistência a mudanças
- Fortalecimento da diversidade
- Processos de seleção de pessoal mais precisos
Corporações não percebem que estão agindo sem justiça
Entretanto, além da possível insatisfação silenciosa dos funcionários, as empresas também se comportam de maneira obscura. Segundo Furtado, em geral, as corporações não percebem (ou ignoram) que estão agindo sem justiça organizacional. Como consequência desta lacuna, acabam sofrendo impactos na produtividade e precisam buscar ajuda externa para entender o que está ocorrendo. Isso acontece, por exemplo, em situações nas quais há falta de clareza nas ações, o que pode gerar sensação de injustiça por parte do funcionário.
“As organizações deveriam promover treinamento de seus líderes sobre como atuar com justiça organizacional”, complementou Tupinambá.
Legislação pró saúde mental é deficiente

Um outro aspecto preocupa os analistas em relação à ausência de justiça organizacional. Tupinambá afirmou que praticamente não há, no Brasil, regulamentação específica para neutralizar os riscos psicológicos envolvidos no trabalho. Há legislação mais clara sobre atividades profissionais com riscos ergonômicos, biológicos e químicos, mas os riscos psicológicos – que podem afetar todas as profissões – são negligenciados.
“A situação da saúde mental dos trabalhadores no Brasil é muito urgente. Nós figuramos, inclusive, como o país mais ansioso do mundo”, alertou Tupinambá.
A professora explicou que a NR-1 (Norma Regulamentadora número 1), que passou por revisão, dá os primeiros passos em relação à saúde mental dos trabalhadores, pois este aspecto foi recentemente incluído na legislação. No entanto, por enquanto as novas regras só existem em caráter educativo, sendo que a exigência das mudanças foi adiada para maio de 2026.