• José Marcelo de Oliveira, conhecido como Jota, migrou da radiologia para CEO do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, valorizando a formalização do conhecimento e a liderança baseada na escuta ativa.
  • Sua experiência médica e acadêmica, aliada à formação corporativa, permite integrar o conhecimento técnico e a gestão hospitalar, facilitando decisões em contextos complexos como a pandemia.
  • A gestão de Jota enfatiza a confiança médico-paciente, o uso de tecnologias como telemedicina e inteligência artificial, e a motivação interna da equipe para inovação e eficiência no setor de saúde.
Resumo supervisionado por jornalista.

A trajetória de José Marcelo de Oliveira, ou Jota – como é conhecido no meio –, como CEO do Hospital Alemão Oswaldo Cruz começou em 2021, quando o Brasil ainda vivia as terceira e quarta ondas da Covid-19. 

Agora gestor em tempo integral, Jota viveu a experiência longa de atuar como médico radiologista e especialista em imagens, antes de migrar, paulatinamente, para a administração, o que incluiu o aprimoramento via MBA, depois de mestrado e doutorado em sua área de formação. 

A jornada do executivo não foi linear, mas, sim, construída gradualmente a partir da pesquisa e da vida acadêmica. Influenciado por referências familiares, com pai engenheiro químico e mãe administradora com atuação na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), Jota valoriza a importância da criação e da formalização do conhecimento. 

Conhecimento ampliado

A caminhada para se tornar um gestor em tempo integral e deixar a clínica médica gerou um certo desconforto no início, mas ele priorizou a perspectiva de longo prazo para a transição de carreira, o que o ajudou a ter um “território ampliado”, com a mescla do conhecimento técnico da medicina e a busca da formação corporativa. 

Para Jota, a mudança não representou uma perda e ele ressalta que continua sendo médico, mesmo atuando como CEO. Essa combinação de ser médico e gestor é determinante para seu papel atual, pois permite conhecer as “dores” e o modo de agir do médico e também ajuda a traduzir essa realidade para o mundo da gestão, apresentando-a, por exemplo, em reuniões de conselho.

O executivo também destaca o primeiro grande ciclo profissional vivido no grupo Fleury, onde ganhou reconhecimento como bom médico e referência técnica. Nesse período, ele encontrou os primeiros médicos gestores e executivos que se tornaram exemplos para sua transição. 

A experiência também o ajudou a lidar com a complexidade dos sistemas e a necessidade de tomar decisões. Sua atuação incluiu a liderança de equipes médicas e multidisciplinares, trabalhando em projetos de fusões, consolidação de mercados e aquisições de marcas de referência, demonstrando que o limite de crescimento só ocorre quando não há mais demanda.

Liderança pela influência

No Hospital Alemão Oswaldo Cruz, sua chegada coincidiu com as últimas fases da Covid. Embora menos letais devido à vacinação, ambas foram marcadas pela banalização da doença. O hospital viu picos de demanda, com o pronto-atendimento saltando de 5 ou 6 mil para 20 mil pacientes, muitos buscando diagnóstico sem necessidade de internação. 

À frente do hospital, Jota mantém o estilo de liderança pela influência, baseando sua gestão na máxima de que conhecimento é poder e aplicando sua base técnico-científica da medicina. Para ele, um ponto essencial na equação da influência é conseguir ativar a motivação interna de quem pode contribuir para a gestão. Seu estilo também é marcado pela sua dinâmica familiar, que sempre priorizou o diálogo. 

Relações que dependem da confiança

No dia a dia, Jota destaca que estimula seus liderados a seguirem métodos de análise e exploração de alternativas, destacando a importância da escuta. 

O CEO também vê a relação médico-paciente fundamentada na confiança, o que explica sua interpretação do fenômeno “Dr. Google”, ou seja, quando os pacientes trazem informações da internet para o consultório. 

“Se a informação for inadequada, o médico tem a obrigação de explicar. O ‘Dr. Google’ pode até ajudar, ao substituir o tempo transacional entre médico e paciente, mas a relação de confiança entre estes deve ser mantida”, reforça. “Uma população informada pode ter mais saúde e o médico bem treinado deve usar essa informação em seu favor, especialmente em temas de baixa complexidade”, argumenta.

Inteligência artificial pode ser benéfica aos pacientes e aos gestores

	
Paciente realizando uma teleconsulta médica via smartphone com profissional de saúde, promovendo a telemedicina e cuidados de saúde à distância.
Foto: olgsera/ Shutterstock

Sobre inovação, o CEO enxerga as tecnologias como complementares e positivas. É o caso da telemedicina, que ganhou maturidade, sendo impulsionada e, ao mesmo tempo, auxiliada pela pandemia. Jota destaca que um programa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz mostrou que a telemedicina foi resolutiva em mais de 90% dos casos.

A inteligência artificial, igualmente, pode ser bem aplicada, com interações com o paciente após a consulta, fornecendo, por exemplo, informações sobre como tomar medicamentos em uma linguagem mais acessível. 

O uso de equipamentos vestíveis (wearables) é outro ganho, ao aumentar a aderência do paciente ao tratamento, apoiando também no acompanhamento dos cuidados pós operatórios. 

“No futuro, a tecnologia pode ampliar a segurança pós-alta, encurtar o tempo de internação e permitir a interação com o paciente, monitorando sinais vitais e de deslocamento”, destacou.

Jota também compartilhou suas referências culturais:

  • Inhotim (BH): ele visita o museu de arte contemporânea e jardim botânico duas vezes, quando chega e quando vai embora da capital mineira e aplica a parte das reflexões advindas das experiências imersivas e obras de arte em seu dia a dia, quando possível, gerando resultados interessantes.
  • Cinema: recomenda o filme Quem quer ser um milionário. 
  • Livro obrigatório: Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, especialmente as edições que contêm o discurso do escritor na cerimônia de recebimento do Nobel. Para ele, o discurso complementa a motivação de escrita da obra prima do colombiano.

Confira a entrevista completa no YouTube e no Spotify:

Dúvidas mais comuns

José Marcelo de Oliveira, conhecido como Jota, é o CEO do Hospital Alemão Oswaldo Cruz desde 2021. Ele iniciou sua carreira como médico radiologista e especialista em imagens, migrando gradualmente para a gestão hospitalar após realizar mestrado, doutorado e MBA, combinando conhecimento técnico da medicina com formação corporativa.

Jota relata que a transição para gestor em tempo integral gerou desconforto inicial, mas ele priorizou uma visão de longo prazo. Ele destaca que continua sendo médico, o que lhe permite entender as necessidades dos profissionais de saúde e traduzir essa realidade para a gestão, facilitando a comunicação em reuniões de conselho.

Jota adota um estilo de liderança pela influência, baseado na valorização do conhecimento e na escuta ativa. Ele busca ativar a motivação interna dos colaboradores e prioriza o diálogo, refletindo sua dinâmica familiar, para construir relações de confiança e engajamento.

Jota entende que a relação médico-paciente deve ser fundamentada na confiança. Ele acredita que, mesmo com pacientes trazendo informações da internet, o médico tem a obrigação de explicar informações inadequadas e usar o conhecimento disponível para melhorar a saúde, especialmente em casos de baixa complexidade.

Jota destaca a telemedicina, que foi resolutiva em mais de 90% dos casos no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a inteligência artificial para interações pós-consulta e o uso de equipamentos vestíveis (wearables) para monitoramento e adesão ao tratamento. Ele acredita que essas tecnologias podem aumentar a segurança pós-alta e reduzir o tempo de internação.

Gestão hospitalar é a área que planeja, organiza e coordena recursos humanos, financeiros e materiais em instituições de saúde para garantir eficiência, qualidade e sustentabilidade. Suas principais atividades incluem gestão de pessoas, financeira, processos, recursos, tecnologia, planejamento estratégico e conformidade com normas legais.

O curso superior tecnológico em gestão hospitalar dura em média 3 anos (seis semestres) e é aberto a qualquer pessoa com ensino médio completo. Profissionais da saúde ou administração podem fazer pós-graduação ou MBA para especialização, ampliando conhecimentos para atuar na gestão estratégica e financeira de serviços de saúde.