• A indústria farmacêutica brasileira, representada pelo Aché, amplia o acesso a medicamentos ao produzir genéricos após a quebra de patentes, como no caso da semaglutida.
  • A expiração da patente da semaglutida no Brasil gerou pelo menos dez pedidos de registro na Anvisa para produção nacional, o que deve reduzir significativamente o preço do tratamento.
  • A estratégia da indústria nacional foca na democratização do acesso a medicamentos essenciais, resultando em 60% dos remédios consumidos no Brasil sendo produzidos localmente.
Resumo supervisionado por jornalista.

A quebra da patente da semaglutida, molécula original do Ozempic, ilustra o modelo de atuação da indústria farmacêutica nacional, segundo José Vicente Marino, CEO do Aché Laboratórios Farmacêuticos. Com a expiração da patente no Brasil, a futura fabricação do genérico das “canetas emagrecedoras” reforça o papel da farma local na ampliação do acesso a medicamentos.

Marino avalia que existem pelo menos dez pedidos de registro na Anvisa, a agência reguladora do setor, feitos por indústrias brasileiras interessadas em produzir medicamentos com a substância. O impacto dessa entrada maciça de concorrentes nacionais será a queda no preço do tratamento, impulsionada pela lei de oferta e procura.

Para o CEO do Aché, em um ou dois anos o acesso a novas versões da semaglutida deverá ser uma realidade, democratizando o tratamento de saúde. O executivo, inclusive, compara o impacto dessa ampliação ao uso da penicilina no passado.

O exemplo da semaglutida repete o que já aconteceu com outros tratamentos essenciais. Marino cita as estatinas, usadas para reduzir o colesterol, cujo custo mensal despencou de R$ 400 para cerca de R$ 30 após a perda da patente e o posterior desenvolvimento do produto por farmacêuticas brasileiras.

A visão da indústria farmacêutica nacional foi aprimorada com os três anos na liderança do Aché, mas a experiência profissional do executivo vem sendo refinada ao longo de anos, passando do foco inicial em marketing e vendas para a alta liderança executiva. Essa movimentação também aconteceu no seu perfil corporativo, que foi direcionado de uma visão de “otimismo ingênuo”, do início da carreira, para um realismo pragmático, como pontua nessa entrevista.

Gestão profissionalizada

Foto: thodonal/ Adobe Stock

Sua primeira grande experiência corporativa foi na Best Foods, antiga Refinações de Milho Brasil, onde aprendeu de fato a essência de marketing e vendas. A passagem pelas multinacionais também foi significativa, caso da Johnson & Johnson, cujo mantra era priorizar pacientes, médicos e a sociedade antes dos acionistas.

A transição de uma multinacional para a Natura, empresa nacional de capital aberto, trouxe aprendizados sobre relação com investidores e sustentabilidade. Nessa época, ele se juntou ao Instituto Akatu, que neste ano completa 25 anos.

Seu currículo conta ainda com passagem pela Avon, atuação como chairman da Track & Field (onde ainda atua no conselho de administração), um mestrado acadêmico que o levou a dar aulas por dois anos e o programa OPM da Harvard Business School.

Com a entrada no Aché, ele tem aproveitado o melhor de dois mundos. “Ela tem o rigor e a governança de uma empresa de capital aberto, com auditorias e publicação de resultados trimestrais, mas mantém o capital fechado, o que lhe permite tomar decisões estratégicas sem a pressão de ter que agradar o mercado financeiro a curto prazo”, resume.

Marino lembra que o Aché pertence a três famílias fundadoras, sendo a gestão totalmente profissionalizada. Organizacionalmente, a farmacêutica conta com cerca de 6.200 colaboradores espalhados por fábricas, pesquisa, administração e campo.

Um em cada 10 projetos chega ao mercado

No mercado, o Aché se posiciona em buscar os melhores tratamentos para os pacientes, com a mentalidade de tentar tornar obsoletos os próprios produtos, constantemente, por meio da inovação.

Marino ressalta ainda que o setor lida com um grande dilema entre custo e acesso, uma vez que o processo de desenvolvimento é lento, de cinco a sete anos, e de alto risco, pois apenas cerca de 10% dos projetos que entram em fase clínica chegam ao mercado.

O CEO é claro ao diferenciar o modelo de negócios da indústria nacional em relação às grandes farmacêuticas multinacionais. Nessas últimas, o foco é a inovação disruptiva. Elas desenvolvem as moléculas inéditas e os medicamentos biológicos de alta complexidade, cujos tratamentos costumam ser caros, com doses que custam milhares de reais.

Ao contrário delas, a indústria nacional foca na ampliação do acesso, ou seja, a estratégia consiste em pegar produtos cujas patentes acabaram de vencer, como aconteceu com as estatinas no passado e como deve ocorrer com a semaglutida, e desenvolver a própria versão. Como resultado desse modelo voltado para o acesso, 60% de todos os medicamentos consumidos no Brasil são produzidos pela indústria nacional.

Comunicação é destaque na cultura corporativa

Uma mulher liderando uma reunião de negócios com equipe em ambiente de escritório moderno, destacando liderança feminina e trabalho em equipe.
Foto: People Images/ Shutterstock

Para Marino, o maior desafio da liderança é conseguir alinhar pessoas com perfis e mindsets muito diferentes em prol de um mesmo objetivo. Ele detalha que a principal ferramenta para orquestrar e engajar suas equipes é a cultura organizacional, que define como a fundação de todas as estratégias da empresa.

O executivo destacou que a sua atuação junto às equipes é marcada por algumas diretrizes e práticas claras, entre elas a comunicação constante e a transparência. Uma das iniciativas implementadas por ele é a realização de reuniões trimestrais com toda a empresa, dos cientistas ao chão de fábrica.

“A verdadeira cultura é definida por “o que você faz quando ninguém está vendo”, lembra o CEO, que defende essa postura como alinhamento fundamental para que profissionais que trabalham sozinhos na rua, por exemplo, tomem as decisões corretas baseadas naquilo em que a empresa acredita.

Como resultado de sua filosofia de liderança, Marino considera que o maior legado que construiu até o momento no Aché foi a formação do seu time corporativo. Ele se orgulha de ter criado uma equipe de “craques”, que vibram na mesma sintonia e estão totalmente preparados para levar a companhia para frente, mesmo quando ele não estiver mais presente.

Entre os conselhos fora do dia a dia, ele recomenda ir além do aperfeiçoamento profissional.

“Um líder precisa cuidar do próprio corpo e da mente, com exercícios, boa alimentação e hobbies, pois liderar exige que a pessoa esteja ‘inteira o tempo inteiro com energia’, para guiar os outros”, resume.

Indicações de livros

“Outlive”, de Peter Attia: ele recomenda esta obra sobre medicina e longevidade, que aborda as quatro grandes doenças e ensina o que os seres humanos devem fazer para viver mais e com mais qualidade.

“Mindset”, de Carol Dweck: um livro sobre o “mindset de crescimento” que, segundo ele, ajuda não apenas na vida profissional, mas também na vida familiar e na criação dos filhos, combatendo o conformismo de um mindset fixo.

Dicas de entretenimento

Para cuidar da mente e do coração, a grande indicação de Marino é a música. O CEO acredita que ela traz muita inspiração e enxerga até mesmo um lado espiritual na poesia das composições. Ele sugere que as pessoas aprendam a tocar um instrumento, revelando que se diverte tocando um pouco de violão e guitarra para relaxar.

Confira a entrevista completa no YouTube e no Spotify:

Dúvidas mais comuns

A indústria farmacêutica brasileira tem um papel fundamental na ampliação do acesso a medicamentos, especialmente ao produzir versões genéricas de medicamentos cujas patentes expiraram, como a semaglutida. Isso contribui para a redução dos preços e democratização do tratamento para a população.

A quebra da patente da semaglutida permite que indústrias farmacêuticas nacionais produzam versões genéricas do medicamento, aumentando a concorrência e reduzindo o custo do tratamento. Isso deve ampliar o acesso ao medicamento em um a dois anos, beneficiando os pacientes.

Enquanto as multinacionais focam na inovação disruptiva, desenvolvendo moléculas inéditas e medicamentos biológicos complexos e caros, a indústria nacional concentra-se em ampliar o acesso, produzindo versões genéricas de medicamentos cujas patentes expiraram, tornando os tratamentos mais acessíveis.

Cerca de 60% de todos os medicamentos consumidos no Brasil são produzidos pela indústria farmacêutica nacional, o que demonstra sua importância na oferta de tratamentos acessíveis e na redução dos custos para os pacientes.

O desenvolvimento de novos medicamentos é um processo lento, que pode levar de cinco a sete anos, e de alto risco, pois apenas cerca de 10% dos projetos que entram em fase clínica chegam ao mercado. Além disso, há um dilema constante entre custo e acesso.

A cultura organizacional é a base das estratégias do Aché, promovendo alinhamento e engajamento das equipes por meio de comunicação constante e transparência. Reuniões trimestrais com todos os colaboradores reforçam essa cultura e ajudam na tomada de decisões alinhadas aos valores da empresa.

José Marino destaca a importância da comunicação constante, transparência e formação de equipes alinhadas com os objetivos da empresa. Ele também recomenda que líderes cuidem do corpo e da mente para manter energia e equilíbrio necessários para liderar com eficácia.