As profundas diferenças de renda, oportunidades e acesso a direitos existentes no Brasil estão relacionadas não apenas à trajetória histórica do país, mas também à maneira como suas instituições funcionam e distribuem poder e recursos. Transformar essas estruturas é uma das condições para reduzir desigualdades e ampliar as possibilidades de desenvolvimento econômico e social.
Essa é a reflexão central do ensaio Instituições mais inclusivas: desafios para a construção de futuros positivos, elaborado por Bruno Carazza, professor associado da Fundação Dom Cabral (FDC), publicado na revista DOM, em edição especial comemorativa dos 50 anos da FDC. O trabalho, inclusive, foi tema da apresentação do professor no encontro Caminhos para Futuros Positivos, realizado pela FDC no campus de São Paulo.
Carazza parte de indicadores que mostram como as desigualdades se manifestam no cotidiano. Segundo dados reunidos no ensaio, pessoas negras representaram 77% das 42.950 vítimas de homicídio registradas no Brasil em 2024. As diferenças aparecem também na renda: no primeiro trimestre de 2026, trabalhadores brancos recebiam, em média, R$ 4.626 mensais, ante R$ 2.704 entre pessoas pretas e R$ 2.810 entre pardas.

O professor relaciona parte dessas diferenças à formação histórica brasileira. Com base nos estudos de Daron Acemoglu, Simon Johnson e James Robinson, vencedores do Nobel de Economia de 2024, o ensaio mostra como colonialismo e escravidão contribuíram para formar instituições marcadas pela concentração de terras, renda e poder.
Mas a história, argumenta Carazza, não determina sozinha o presente. O ensaio recupera a análise da socióloga Márcia Lima, professora da USP e coordenadora do Afro-Cebrap, segundo a qual mecanismos contemporâneos de discriminação continuam reproduzindo desigualdades. Escola, mercado de trabalho e Justiça aparecem entre as instituições nas quais desvantagens podem se acumular ao longo da trajetória dos indivíduos.
Oportunidades começam em pontos de partida diferentes
Uma das questões levantadas no ensaio é o impacto das condições iniciais sobre as possibilidades de desenvolvimento das pessoas. Carazza recorre às reflexões do economista Eduardo Giannetti para discutir quantos talentos deixam de ser desenvolvidos porque milhões de brasileiros não tiveram, na infância, acesso aos recursos necessários para desenvolverem suas capacidades.
A desigualdade nas condições de partida também se reflete na baixa mobilidade social. Dados reunidos no ensaio mostram que, em 2021, metade da população adulta brasileira recebia menos de um salário mínimo por mês. Ao mesmo tempo, os movimentos de ascensão tendem a ocorrer em distâncias relativamente curtas dentro da pirâmide de renda e podem ser revertidos em períodos de crise e desemprego.
O problema ultrapassa a dimensão individual. Uma sociedade que limita o desenvolvimento das capacidades de parte expressiva de sua população também reduz seu potencial de consumo, produtividade e crescimento econômico. Segundo análise de Carazza, com base nos estudos avaliados, instituições mais inclusivas tendem a favorecer políticas públicas de melhor qualidade, ampliar oportunidades para pessoas e empresas e contribuir para uma distribuição mais ampla de renda e recursos.
A educação ocupa papel importante nesse processo. O ensaio recupera estudos segundo os quais países que investiram na universalização do ensino conseguiram formar populações mais escolarizadas e preparadas para economias de maior produtividade, com reflexos posteriores sobre renda e igualdade salarial.
Instituições também moldam a economia

Carazza amplia a discussão para a relação entre poder político e desenvolvimento econômico. A partir do conceito de instituições extrativistas desenvolvido pelo estudo analisado (Acemoglu, Johnson e Robinson), ele mostra como estruturas políticas concentradoras podem favorecer determinados grupos, reduzir a concorrência e a inovação e influenciar a distribuição dos recursos da sociedade.
O ensaio também aborda mecanismos de rent seeking (busca de renda por grupos organizados), que procuram obter vantagens por meio de benefícios tributários, crédito subsidiado, proteções setoriais e outros instrumentos. Levantamento citado por Carazza estima que, em 2024, o governo federal destinou pelo menos R$ 627,6 bilhões — equivalentes a 5,3% do PIB — a benefícios tributários, desembolsos do BNDES, fundos regionais e financiamento à pesquisa e inovação. O autor utiliza o dado para defender uma avaliação mais rigorosa da efetividade desses incentivos.
Esse ponto ganhou um desdobramento durante sua apresentação no Caminhos para Futuros Positivos. Carazza ressaltou que políticas de incentivo fazem parte das estratégias econômicas de diferentes países, mas precisam estabelecer objetivos, metas e contrapartidas.
“Os incentivos são concedidos sem nenhum tipo de contrapartida, sem nenhum tipo de meta e, aí, não sem razão, os resultados são muito ruins”, afirmou o professor durante o evento, ao comentar experiências brasileiras.
A discussão não significa, portanto, eliminar instrumentos de apoio à atividade econômica, mas avaliar se os recursos públicos empregados contribuem efetivamente para objetivos de desenvolvimento e geram retorno para a sociedade.
Mudanças também dependem das lideranças
Um dos desafios apontados por Carazza é justamente como modificar instituições quando grupos beneficiados pelo modelo existente possuem poder para resistir às mudanças.
No ensaio, o professor apresenta diferentes possibilidades para tornar as instituições mais inclusivas, como aprimorar regras de financiamento e governança partidária, regulamentar a atividade de lobby, ampliar avaliações de impacto das políticas públicas, estabelecer metas e condicionantes para benefícios fiscais e fortalecer mecanismos de consulta e participação social. Ao mesmo tempo, ressalta que soluções importadas de outros países não podem ser simplesmente reproduzidas no Brasil, dadas as especificidades históricas e institucionais nacionais.
Durante o encontro realizado pela FDC no final de agosto, Carazza enfatizou especialmente o papel das lideranças nesse processo. Para ele, transformações institucionais precisam envolver empresas, sociedade civil, academia e agentes do setor público.
“Essas mudanças precisam vir de baixo para cima. E o papel das elites é fundamental”, afirmou durante sua apresentação. Segundo Carazza, lideranças com capacidade de influência precisam participar da formulação de propostas e da construção de consensos.
O professor citou as reformas da Previdência e Tributária como exemplos de mudanças nas quais formulações e mobilizações realizadas fora do governo também contribuíram para o avanço das agendas. Para Carazza, experiências desse tipo mostram a possibilidade de a sociedade participar da construção de transformações institucionais.
Essa participação ganha urgência porque algumas mudanças também produzem resultados apenas no longo prazo.
Ao comentar as discussões do evento, Carazza destacou educação, reformas institucionais e liderança entre os temas recorrentes e defendeu a necessidade de combinar investimentos de longo prazo com decisões no presente.
“Temos uma série de decisões que precisam ser tomadas agora e precisamos de liderança e engajamento da sociedade”, afirmou, durante o encontro.
O ensaio termina justamente atribuindo às lideranças uma responsabilidade na transformação das instituições. Para Carazza, empresários, executivos e dirigentes dos setores público e privado e da sociedade civil podem contribuir para a construção de consensos capazes de ampliar a inclusão e reduzir mecanismos que perpetuam desigualdades.