- Inovação exige equilibrar experimentação com disciplina, tolerância ao fracasso com implacabilidade contra incompetência, e colaboração com responsabilização individual para gerar resultados reais.
- Pesquisa com 130 organizações brasileiras identificou cinco paradoxos críticos: experimentação-disciplina, fracasso-incompetência, colaboração-responsabilização, segurança psicológica-transparência radical, e horizontalidade-liderança forte.
- Organizações brasileiras falham em gerir segurança psicológica e transparência radical, mantendo estruturas autocráticas que impedem crítica aberta e debate construtivo necessários para inovação de qualidade.
Inovação virou palavra obrigatória. Default. No brainer. Está presente em todos os lugares, o tempo todo. ‘‘Quem não inova, morre!’’: aposto que você já leu ou escutou essa frase nos últimos tempos. E aposto também que, ao se deparar com ela, você associou a inovação à liberdade, criatividade, experimentação e abertura. Talvez você tenha pensado até em organizações inovadoras como aquelas que têm políticas de férias ilimitadas, piscinas de bolinhas, espaços amplos e coloridos. O que não é problema (mesmo!) — desde que o pensamento não pare por aí… Parar nesse lugar é se aprisionar na armadilha do modismo: o olhar superficial, incompleto e quase místico. E cuidado! É tentador permanecer nesse lugar: ele é sedutor, pois requer menor esforço e é mais rápido.
‘‘Quem não inova, morre’’. Disso, não há dúvida. Afinal, inovar é construir o presente e o futuro, ao mesmo tempo. Então, o que significa inovar? E como inovar? Provavelmente essas duas perguntas estejam passando pela sua cabeça… Inovar é ir além da invenção. Inovar é ir além das ideias. Inovar é ter ideias que geram (ainda mais) resultado. É ter a coragem de mudar o que não funciona e de melhorar o que já funciona. É construir o curto e o longo prazo, ao mesmo tempo. Ao pesquisar mais de 130 organizações brasileiras, fica claro: inovar não nasce do conforto. Inovar é tensionar. Inovar é gerir paradoxos. É conviver e administrar tensões persistentes, intensas e contraditórias. Nossa pesquisa mostra que existem cinco tensões principais para o desempenho inovador.
A primeira grande tensão é experimentação e disciplina. Atenção: não é um ou outro. São os dois, ao mesmo tempo. Esse é o paradoxo com maior influência no desempenho inovador das organizações brasileiras. Em tempos em que a experimentação é ‘cool’, falar de disciplina quase soa antiquado. Mas, sem disciplina, a inovação fica presa na sua primeira fase: a da invenção. Vira ideia solta, piloto eterno, teste sem critério, desperdício de energia e recursos. Experimentar é essencial: é o que permite testar cenários novos, explorar e descobrir o desconhecido. Mas experimentar sem consistência, método, rigor e constância é desperdiçar energia, tempo, esforço e dinheiro. Para inovar, é preciso implementar, testar e gerar valor para a sociedade, para as organizações e para as pessoas.
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A armadilha é clara: se apaixonar pelo lado sedutor da inovação e ignorar o seu lado exigente. Querer liberdade, mas não rigor. Querer criatividade, mas não accountability. Querer velocidade, mas não método. Não funciona. A real inovação exige coragem para testar o novo e maturidade para sustentar o processo, ao mesmo tempo.
A segunda grande tensão desconforta: tolerar o fracasso e não a incompetência. Essa diferença parece óbvia, mas é não o é. Na prática, costuma ser colocada no mesmo lugar: os erros em “nome” da inovação… É preciso atenção! Fracassar faz, sim, parte da inovação. Afinal, inovar é entrar em territórios que ainda não dominamos e, as vezes, até desconhecemos. Mas não é qualquer fracasso, em qualquer lugar, de qualquer jeito que é tolerável. Organizações verdadeiramente inovadoras não toleram o erro advindo do subdesempenho, da complacência, do descuido, da negligência e da indisciplina. Quando tudo passa a ser relativizado em nome da “cultura inovadora”, a inovação dá lugar à complacência. A influência desse paradoxo sobre o desempenho inovador é clara: é preciso tolerar fracassos inerentes à inovação e ser implacável contra a complacência e o subdesempenho.

Os dados mostram que a combinação entre colaboração e responsabilização individual, terceiro paradoxo, também contribui positivamente para o desempenho inovador. A inovação precisa de diversidade de perspectivas, de debate e da construção conjunta. Mas, para isso, é preciso sair do conforto de se esconder na força do grupo. É preciso clareza, formal e informal, sobre quem decide, quem participa e quem responde. É preciso ter clareza das consequências. Só assim o aprendizado é sistematizado. Inovação sem responsabilização vira bola solta, bola sem dono e bola quicando. É preciso coragem de se responsabilizar pelos acertos e, especialmente, pelos erros. E, ao mesmo tempo, compreender que quem não divide o palco não ganha o jogo.
E o quarto e quinto paradoxos? Aqui é preciso muita atenção e, espero eu, inquietação. Segurança psicológica e transparência radical é o quarto paradoxo estudado, e horizontalidade e liderança forte, o quinto. Antes de entrarmos nos resultados da pesquisa é preciso dar um passo atrás: a influência da cultural nacional. Somos um país com um traço cultural forte: a distância de poder. Desde a década de 1970, nós, brasileiros, não evoluímos significativamente nesse eixo. E não se engane: a forma de demonstrar o poder mudou. E muito. Mas o sistema continua mais autocrático do que igualitário. E o que isso significa na prática? Dizer o que precisa ser dito para quem precisa ouvir continua sendo tarefa difícil. Discordar de quem lidera, expor críticas em público, tensionar ideias e confrontar o outro no coletivo ainda é percebido como alto risco. E como fica a horizontalidade? A transparência radical? O papel da liderança? A segurança psicológica?
Os dados indicam que o quarto paradoxo não possui efeito relevante no desempenho inovador das organizações brasileiras. Mais de 1.200 respostas e nenhum efeito significativo. A não significância é um alerta. Vermelho! Esse paradoxo não está sendo bem gerido. E aqui é preciso atenção: segurança psicológica não é dizer apenas o que quer. É escutar o que não quer. É desconfortável, sim. Sem essa via de mão dupla, a inovação perde qualidade e velocidade. Porque ideia boa não nasce apenas da liberdade de dizer. Nasce também de confronto, crítica e debate. Nasce da capacidade de escutar as críticas, especialmente as mais duras.
Os resultados do quinto paradoxo são um sinal de alerta. Vermelho, em negrito e em caixa alta. Essa é uma tensão desequilibrada. O que isso significa na prática? Não somos horizontais. Ao contrário: seguimos mais autocráticos e hierárquicos do que gostamos de admitir. Quase 90% dos executivos brasileiros concordam. Queremos estruturas mais horizontais, mas ainda operamos com forte concentração de poder. Desejamos autonomia, mas não responsabilidade.
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A pergunta, portanto, não é se a sua organização fala de inovação. Quase todas falam. A pergunta é outra: você está mesmo disposto a inovar ou só a inventar? Está mesmo disposto a lidar com o lado delicioso e o lado doloroso da inovação? Ou prefere se aprisionar no seu lado sedutor? Você está mesmo disposto a escutar o que não gostaria e a falar o que precisa ser dito, sem meias palavras? A ser implacável contra a complacência, a displicência e a negligência? A ter disciplina, cumprir os combinados com rigor, criticar e debater coletivamente? A não falar sobre as pessoas, mas para as pessoas? A matar o seu novo projeto, se for necessário? A não ter a resposta completa, mas construí-la em conjunto? A não se sentir confortável e a manejar essas tensões, todos os dias?
Para inovar e ter uma organização que inova, é preciso coragem. Individual e coletiva. É preciso estar disposto. Então, pergunte-se: estou mesmo disposto? Eu espero que a resposta seja sim. Porque ‘‘quem não inova, morre!’’. E quem inova, também. Mas renasce. A escolha é sua: inovar ou inventar?
*Luisa Tanure é mestre em Administração pela FDC e sócia e consultora da BTA