A oitava edição do Índice de Confiança das Médias Empresas (ICME), elaborada pelo Centro de Inteligência de Médias Empresas da Fundação Dom Cabral, registrou um leve avanço de 1,1 ponto dentre as companhias pesquisadas. A elevação é um fator positivo, mas a pequena variação revela aversão ao risco e uma tendência de fragilidade na confiança empresarial: em todas as regiões do país, todos os setores registraram índices abaixo dos 50 pontos, o que é apenas mediano, considerando a escala de um a 100.
O novo ICME mediu o grau de confiança e o apetite para investimento das empresas no segundo semestre de 2025, em comparação ao primeiro semestre do ano. O ICME geral levantou variação positiva de 1,1 ponto, alcançando 45,5 pontos, frente aos 44,4 pontos do primeiro semestre. A variação, próxima à margem de erro, indica tendência de estabilidade em relação ao primeiro semestre de 2025. Mas a pequena melhora foi sustentada principalmente pelas “expectativas futuras”, que avançaram 1,6 ponto (de 46,5 para 48,1), enquanto as “condições atuais” registraram incremento mais moderado, de 0,8 ponto (de 42,3 para 43,1).
Indústria e Comércio confiam mais

Na análise por segmentos de atuação, Indústria e Comércio registraram os maiores aumentos no grau de confiança, ambos avançando 2,9 pontos. A Indústria passou de 42,3 pontos no primeiro semestre de 2025 para 45,2 pontos no segundo semestre, sinalizando recuperação relevante, após forte queda em 2024. Em relação ao Comércio, o índice subiu de 42,5 para 45,4 pontos. Já o setor de Serviços registrou leve retração, de 1,5 ponto, passando de 47,5 para 46, o que interrompe uma trajetória de maior confiança observada em 2024.
No recorte do índice por áreas geográficas, a Região Norte sofreu a maior retração, caindo 5 pontos, para 39,7 de um semestre para o outro. Esse é o menor valor da série histórica do Índice de Confiança das Médias Empresas, possivelmente refletindo o impacto direto do “tarifaço” dos EUA, que impôs alíquotas de até 50% sobre produtos como pescados, atividade de destaque na região, com cerca de 70% das exportações de tilápia destinadas ao mercado norte-americano. O Centro-Oeste, por sua vez, registrou queda de 3,5 pontos, alcançando 43,3. A perda pode estar relacionada à deterioração das condições do agronegócio, evidenciada pela escalada da inadimplência rural, que chegou a 3,49% no segundo trimestre de 2025.
Região Nordeste apresenta recuperação
Já a Região Nordeste apresentou leve recuperação, avançando para 47,7 pontos, em comparação com 46,8 pontos registrados no primeiro semestre deste ano. O Sudeste, principal centro econômico do país, também evoluiu discretamente, para 46,2 pontos, ante 45,4 pontos, indicando cautela entre os empresários diante de custos elevados e incertezas macroeconômicas. E a Região Sul permaneceu estável em 43,5 pontos, consolidando-se entre os níveis mais baixos do país e demonstrando lentidão na recuperação da confiança regional.
Em outros recortes, o Índice de Confiança das Médias Empresas mediu aspectos mais específicos ligados à confiança empresarial. O Índice de Condições Atuais (ICA) do ICME, composto pelos fatores Macroambiente, Microambiente, Dinâmica Setorial e Custos do Negócio, registrou aumento de 0,8 ponto no segundo semestre, alcançando 43,1 pontos, isto é, variação dentro da margem de erro, o que indica um padrão persistente de baixa confiança. Já o Índice de Expectativas Futuras (IEF) subiu 1,6 ponto, para 48,1. Apesar de permanecer abaixo do limiar de 50 pontos, o resultado indica leve recuperação na confiança dos empresários em relação às perspectivas para os próximos seis meses.
Expectativas de crescimento sofrem baque
Em relação às expectativas de crescimento, houve um baque entre o primeiro e o segundo semestre deste ano. No início de 2025, as projeções indicavam avanço robusto de 11,7% no faturamento em relação a 2024, mas as estimativas mais recentes reduziram esse crescimento a 5%. A mudança foi acentuada na Indústria e Serviços. A Indústria, que projetava crescer 12,3%, agora estima apenas 4,1%. Nos Serviços, a queda foi de 12,5% para 5,5%, ou seja, recuo de 7 pontos percentuais. O Comércio apresentou ajuste mais moderado, passando de 9,6% para 5,5%.
Esse cenário de avanços e recuos no segundo semestre reflete o ambiente macroeconômico brasileiro, marcado pela manutenção da taxa Selic em padrões elevados (15%), aumento do déficit fiscal e pressões inflacionarias. Além das tensões geopolíticas, que culminaram com a imposição de tarifas de 50% sobre exportações brasileiras de diversos segmentos aos EUA, impactando setores estratégicos e ampliando a incerteza nos negócios.
Investimentos sinalizam seletividade

No aspecto geral, a nova edição do Índice de Confiança das Médias Empresas sinaliza que as companhias tendem a menor expansão e maior seletividade na aplicação de recursos. No item investimentos, o ICME detectou um cenário de relativa estabilidade de um semestre para outro. A média geral de reinvestimentos foi de 3,97% do faturamento bruto anual, muito próxima dos 3,92% registrados no primeiro semestre de 2025. Essa manutenção indica inflexão na tendência de queda observada desde o segundo semestre de 2024, sugerindo que, apesar das incertezas econômicas e políticas, os executivos das Médias Empresas permanecem cautelosos, mas não reduziram ainda mais seus planos de investimento.
A cautela dos médios empreendedores ao investir encontra reflexos também na análise de sua política de contratação de pessoal. Neste item, a revisão foi significativa. A expectativa inicial de +3,3% caiu para -0,3%. A Indústria foi a mais afetada, passando de uma expectativa de +4,3% para -0,7%. Serviços e Comércio também recuaram, para +0,3% e -0,5%, respectivamente. O estudo sustentou que a retração no quadro de pessoal representa um ajuste preventivo focado em preservar margens e reforçar a eficiência, talvez impulsionado pelas oportunidades trazidas por tecnologias que permitem ganhos de produtividade.
ICME é um termômetro de intensões de expansão e recuo
Para entender a relevância do ICME, a confiança empresarial medida pelo índice é uma espécie de termômetro, mostrando aspectos como intensão de investimento ou recuo. O objetivo do índice é ajudar o médio empresário a ajustar suas estratégias, a partir do conhecimento de como pensam as demais empresas de seu setor. Um gestor que pensa em aumentar investimentos, enquanto o mercado sinaliza cautela, pode rever seu posicionamento. Já um empreendedor que está reduzindo investimentos, em um cenário no qual o ICME está em ascensão, pode refletir se não seria o momento de ousar um pouco mais.
O Centro de Inteligência da FDC Médias Empresas, responsável pelo ICME, reúne características robustas. São mais de 800 empresas clientes ativas e mais de 200 professores. Nos últimos 12 meses, os trabalhos envolveram 6.000 presidentes e dirigentes no Intercâmbio de Melhores Práticas e mais de 1.600 executivos capacitados nas diversas áreas da gestão empresarial.
Esta última pesquisa foi realizada com 781 empresas de médio porte, sendo 313 da Indústria, 66 do Comércio e 402 do setor de Serviços. Os dados foram coletados entre 14 de julho e 17 de agosto de 2025.
Recomendação é mitigar riscos e identificar oportunidades
Diante de tantas nuances nos aspectos investigados, os autores da pesquisa recomendam que “cabe aos executivos adotar uma gestão estratégica voltada à mitigação de riscos e à identificação de oportunidades de inovação, assegurando sustentabilidade e crescimento mesmo em um contexto de incerteza”.
O oitavo ICME é fruto do trabalho coordenado por Áurea Ribeiro, professora e pesquisadora da FDC, e doutora em Administração e Marketing, junto com Diego Marconatto, professor da FDC, pós-doutor em Negócios e especialista em Direito e Economia Internacional, e Plínio Monteiro, professor convidado da FDC, e doutor em Marketing, Estratégia e Data Analytics.