• O governo instituiu tributação de 5% sobre os rendimentos das LCAs e LCIs, antes isentas de Imposto de Renda, para ajustar as contas públicas e corrigir distorções no crédito.
  • A taxação pode reduzir a atratividade desses títulos, encarecendo a captação de recursos para os setores agrícola e imobiliário, elevando preços de alimentos e imóveis.
  • Setores produtivos alertam que a medida ameaça empregos, limita acesso ao crédito habitacional e pode gerar reação negativa no mercado financeiro e na economia.
Resumo supervisionado por jornalista.

As recentes iniciativas do governo para tributar ativos de investimentos ligados ao agronegócio e ao setor imobiliário vêm preocupando o mercado produtivo, que teme o aumento de preços dos alimentos e dos imóveis, além de abalos na construção civil. Em meio ao embate entre Executivo e Legislativo sobre a elevação do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), o governo decidiu taxar os dois setores, com o objetivo de ajudar a promover o ajuste fiscal nas contas do país.

A Medida Provisória (MP), publicada em 11 de junho, estabeleceu tributação de 5% nos rendimentos das Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e das Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), que até então eram isentas de recolhimento de Imposto de Renda, justamente para impulsionar o agronegócio e o setor imobiliário do país. A mesma MP também estabelece cobrança única de 17,5% de IR sobre investimentos que já pagam o imposto; aumento da tributação sobre o faturamento das empresas de apostas online (bets) de 12% para 18%; e equiparação de alíquotas da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) para fintechs.

Atratividade dos títulos pode cair

Segundo matéria publicada no site da BBC News Brasil, no caso das LCAs e LCIs, o anúncio da MP foi alvo de críticas também de economistas e parlamentares, que destacaram a incapacidade do governo em reduzir despesas, optando por fazer o ajuste fiscal por meio do aumento da carga tributária. Além disso, agentes do mercado financeiro e dos setores afetados avaliam que a taxação de títulos atualmente isentos pode reduzir a atratividade desses investimentos. Isso tornaria mais cara a captação de recursos pelo setor imobiliário e agrícola, o que pode resultar em aumento de preços dos imóveis e de alimentos.

As LCIs e LCAs são títulos de renda fixa (investimentos em que a remuneração é conhecida ou pode ser calculada com antecedência). Ainda segundo a BBC News Brasil, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) informou que as LCAs somavam um estoque de R$ 560 bilhões em abril deste ano, e as LCIs, de R$ 455 bilhões. O fim das isenções de IR também atingiu papéis como o Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI); o Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA); a Letra Imobiliária Garantida (LIG); e o Certificado de Depósito Agropecuário (CDA).

Leia também:

COP30: desafios do agro sustentável vão além das questões financeiras

Agronegócio representa 26% dos empregos

Foto: Chanelle Malambo – peopleimages.com/ Adobe Stock

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirma que a taxação dos títulos incentivados corrige distorções no sistema de crédito e permite recalibrar o decreto do IOF. Mas os setores produtivos reagem. A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) afirmou, em nota, que “a medida, se confirmada, deve comprometer uma das principais fontes de financiamento privado a um dos maiores setores da economia brasileira – que representa um quarto do PIB e 26% dos empregos”.

Já nota técnica assinada pela CBIC, Abrainc, Secovi-SP, SindusCon-SP e AELO, todas ligadas ao setor imobiliário, diz que a alíquota proposta de 5% sobre as LCIs pode elevar a taxa de financiamento habitacional em até 0,7 ponto percentual, impactando diretamente o valor das parcelas e reduzindo a base de famílias elegíveis para o crédito habitacional.

“O setor responde por 13% dos empregos formais no Brasil e movimenta 97 atividades econômicas. Qualquer medida que restrinja o acesso ao crédito habitacional ameaça a capacidade de compra da população e a arrecadação pública, já que o setor representa 9% da arrecadação de impostos no país”, afirmou Renato Correia, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).

Perda de vantagem competitiva

Embora defendida por especialistas em questões tributárias e fiscais, a MP é criticada também por agentes do setor financeiro.

“Essas aplicações são amplamente utilizadas por investidores conservadores, e seu apelo está diretamente ligado à isenção de Imposto de Renda. Qualquer mudança nesse regime pode gerar uma barreira emocional no investidor, que tende a recuar diante da percepção de perda de vantagem competitiva”, afirmou Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.

Em entrevista à CNN Brasil, o deputado federal e cientista político Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PL-SP) afirmou que, devido à MP, o mercado teme uma fuga de investidores e o encarecimento do crédito.

“Todas as medidas de aumento de impostos estão indo contra a atividade econômica, em especial o agronegócio e o setor imobiliário. O governo está dando um tiro no pé se quer baratear os alimentos e gerar empregos no setor imobiliário. Essas linhas de crédito não deveriam ser tributadas. O governo está considerando apenas a questão fiscal, mas deveria haver um corte bem amplo de gastos”, disse o parlamentar.

Reação pode virar “bola de neve”

Já segundo matéria no site da VEJA Negócios, as mudanças na tributação podem provocar uma perigosa ‘bola de neve’. O texto cita um relatório enviado a clientes pela XP Investimentos, alertando que pode haver reação negativa sobre a emissão de títulos e a demanda pelos investimentos ainda em 2025.

Enquanto luta para aumentar a arrecadação com impostos e tenta combater a resistência contra estas medidas no Congresso Nacional, o governo continua enfrentando um cenário de inflação elevada no país. Em entrevista ao Jornal da Globo, o comentarista Bruno Carazza, mestre em Economia pela UnB, doutor em Direito pela UFMG e professor associado da Fundação Dom Cabral (FDC), afirmou que o governo continua lidando com a inflação em níveis elevados, o que tem motivado a elevação da taxa de juros.

Inflação continua em alta

Foto: RHJPhtotos/ Shutterstock

O comentarista lembrou que, no ano passado, a Selic esteve em baixa, chegando ao patamar de 10,50%. Enquanto a Selic caía, a economia foi crescendo, atingindo 4% no meio de 2024. Mas, neste cenário, a inflação começou a disparar, acendendo um alerta no Banco Central, que passou a subir os juros para “desacelerar a economia”.

“A inflação continua alta e isso preocupa o Banco Central. Tanto que seu presidente, Gabriel Galípolo, já afirmou que estamos entrando em uma era de juros altos por muito tempo”, analisou Carazza.

Dúvidas mais comuns

LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio) e LCIs (Letras de Crédito Imobiliário) são títulos de renda fixa que financiam os setores do agronegócio e imobiliário, respectivamente. Eles são importantes porque facilitam a captação de recursos para esses setores, que representam uma parcela significativa do PIB e do emprego formal no Brasil.

A Medida Provisória publicada em junho de 2025 instituiu uma tributação de 5% sobre os rendimentos das LCAs e LCIs, que antes eram isentas de Imposto de Renda. Essa mudança pode reduzir a atratividade desses investimentos, encarecer o crédito para os setores agrícola e imobiliário e, consequentemente, elevar os preços de alimentos e imóveis.

O governo optou por tributar esses títulos para ajudar no ajuste fiscal das contas públicas, corrigindo distorções no sistema de crédito e recalibrando o decreto do IOF. A medida visa aumentar a arrecadação em meio a um cenário de inflação elevada e necessidade de controle fiscal.

A tributação pode tornar mais cara a captação de recursos para os setores agrícola e imobiliário, resultando em aumento dos preços dos alimentos e imóveis. Além disso, pode elevar a taxa de financiamento habitacional, reduzir a base de famílias elegíveis para crédito e provocar uma reação negativa no mercado financeiro, com possível fuga de investidores.

Especialistas em tributação defendem a medida como necessária para o ajuste fiscal, mas agentes do setor financeiro e produtivo criticam a perda da isenção, que era um atrativo para investidores conservadores. Setores como a Associação Brasileira do Agronegócio e a indústria da construção alertam para impactos negativos no emprego, no crédito e na economia.

O IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) não é cobrado sobre LCIs e LCAs se o investimento for mantido por 30 dias ou mais, pois a alíquota do IOF sobre esses títulos é zero após esse período. Portanto, a tributação recente refere-se ao Imposto de Renda sobre os rendimentos, não ao IOF.

A tributação de 5% sobre os rendimentos das LCAs e LCIs está prevista para começar a valer a partir de 2026, conforme a Medida Provisória publicada em 2025.