Qualquer empresa pode contratar ferramentas de inteligência artificial (IA) e analytics, mas existe uma atitude que faz a diferença entre as organizações que escalam com rentabilidade e as que apenas queimam recursos: a capacidade de transformar dados em evidências, evidências em decisões estratégicas, decisões em novos comportamentos, além de sustentar todo esse ciclo com uma cultura organizacional sólida.

Profissional analisando um painel de intelligence artificial (IA) e analytics com gráficos e métricas de performance em um monitor no escritório, enquanto trabalha em um computador.
Imagem gerada digitalmente

Essa é a principal provocação apresentada pelo diretor financeiro da Döhler SA, Cesar Döhler, ao compartilhar as lições e reflexões colhidas em recente imersão internacional sobre inteligência artificial, estratégia e potencial humano, na Kellogg School of Management, escola de negócios da Northwestern University.

IA como infraestrutura, não como projeto

De acordo com ele, um dos equívocos mais recorrentes nas corporações é encarar a IA como uma iniciativa isolada da área de tecnologia, com escopo fechado, início, meio e fim. “Enquanto a IA for tratada como um projeto pontual, seu impacto será superficial e passageiro”, destaca, ao sintetizar as discussões do programa.

Segundo o executivo, para gerar valor sustentável, a IA precisa ser integrada como infraestrutura de competitividade, permeando a cultura e a tomada de decisão diária.

Essa mudança de patamar exige governança rigorosa, protocolos de proteção de dados e gestão contra a dependência tecnológica. Mais do que adquirir softwares, a transição requer o desenvolvimento simultâneo de três pilares nas equipes: mindset, habilidades técnicas e ferramentas adequadas.

Leia também:

Uso de IA no Brasil: país é o 3º no mundo em utilização de inteligência artificial

“Como sinalizou o professor Mohan Sawhney durante a imersão, a diretriz clara para a liderança deve ser ‘pensar grande, começar pequeno e escalar rapidamente’”, resume Döhler.

Dado não decide nada

Embora o volume de informações disponíveis seja sem precedentes, os dados isolados têm valor limitado. O papel de analytics e dos modelos preditivos é reduzir o grau de incerteza do ambiente de negócios, mas eles não substituem o julgamento executivo final. “A combinação entre experiência executiva, dados e IA é o que realmente melhora a qualidade da decisão, mas a máquina não decide pelo líder”, aponta Döhler.

Para Döhler, a pergunta que qualifica a liderança madura deixa de ser ‘o que os dados dizem?’ e passa a ser ‘qual é a informação crítica que ainda não temos?’ 

Da imersão, surge também um alerta prático fundamental: a resolução da IA não deve ser aceita com ‘fé cega’; é indispensável checar, confirmar e cruzar dados de múltiplas fontes antes de deliberar.

Foco como pré-requisito

Diante do fascínio pelas novas tecnologias, muitas empresas caem na armadilha de pulverizar recursos em dezenas de pilotos simultâneos. No entanto, espalhar iniciativas não é sinônimo de inovação, mas sim de diluição estratégica. A resposta para o crescimento sustentável está na disciplina do foco, sintetizada no princípio Fewer, Bigger, Bolder (“Menos, Maiores, Mais Ousadas”). A agenda tecnológica exige concentrar capital e energia em poucas apostas realmente transformadoras.

“Como enfatizou o professor Joel Shapiro, liderar com eficácia consiste fundamentalmente em saber onde investir. Isso exige simplicidade, clareza metodológica e, acima de tudo, a coragem executiva de dizer não e abandonar projetos convenientes que não geram valor tangível para o negócio”, pontua o executivo.

Cultura decide a velocidade

Se a estratégia desenha o mapa, é a cultura organizacional que estabelece a velocidade real de execução. Uma estratégia ousada de inovação inserida em um ambiente que pune severamente o erro não produz experimentação, produz paralisia. Da mesma forma, pregar o cliente no centro, enquanto as metas e incentivos permanecem exclusivamente financeiros, resulta em decisões imediatistas de curto prazo.

Como reforça a máxima citada na imersão, “leaders cast a shadow” (os líderes projetam uma sombra): o comportamento e as atitudes da liderança no dia a dia moldam a cultura real muito mais do que os valores declarados na parede. 

A transformação organizacional efetiva não ocorre por decretos técnicos, mas pela mudança real no comportamento das pessoas, sustentada por confiança e segurança psicológica.

Leia também:

IA exige uma nova configuração para equipes de marketing 

O que sobra de humano

À medida que a inteligência artificial assume tarefas operacionais, analíticas e de processamento, o valor estratégico do trabalho desloca-se decisivamente para as competências essencialmente humanas. A tecnologia pode acelerar rotinas e qualificar insumos, mas o julgamento ético, o pensamento crítico, a empatia, a criatividade e a construção de confiança permanecem insubstituíveis. 

Paradoxalmente, quanto mais avançada e presente for a tecnologia nas empresas, mais vital e determinante torna-se a liderança humana.

Em sua avaliação final, Döhler deixa uma mensagem para o futuro dos negócios: ferramentas e dados são ativos poderosos, mas o legado e os resultados sustentáveis continuam dependendo de líderes guiados por valores sólidos, autoconhecimento e capacidade de desenvolver pessoas.