O sucesso da inteligência artificial (IA) nas organizações depende não apenas da tecnologia, mas também da forma como as empresas constroem significados, lidam com as emoções e estruturam processos de decisão. Essa é a avaliação do doutor em Administração pela FDC, Fábio Gomes Prieto e da economista, docente da FDC e com ampla atuação em gestão da inovação, Kadígia Faccin, autores do artigo Estratégia em tempos de inteligência artificial: sensemaking, emoções e governança na tomada de decisão organizacional, premiado pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (Anpad).
De acordo com os autores, para que a tecnologia gere valor de longo prazo, a gestão organizacional necessita coordenar a construção de sentido (sensemaking), gerir sentimentos coletivos e estabelecer decisões com legitimidade.
Prieto e Kadígia destacam que parte das iniciativas de IA falha e entrega resultados aquém do esperado, mas não por limitações técnicas. O insucesso está mais ligado a desafios organizacionais, culturais e institucionais.
A questão, segundo os dois especialistas, é que a maior parte da literatura sobre estratégia e IA permanece concentrada em aspectos técnicos, econômicos ou de desempenho. Em função disso, os estudos tradicionais negligenciam os processos interpretativos, emocionais e institucionais que moldam a adoção e o uso estratégico da tecnologia.
IA além dos aspectos técnicos
Para mudar esse cenário, a dupla propõe um framework conceitual com três componentes principais.
1. Sensemaking (construção de sentido)
Trata do processo coletivo pelo qual indivíduos e grupos constroem significados compartilhados para reduzir a incerteza e a ambiguidade geradas pela opacidade dos algoritmos. Envolve a atuação de líderes traduzindo sistemas complexos em narrativas organizacionais (sensegiving) e a negociação contínua de sentido entre técnicos e profissionais de ponta.
2. Emoções
Representa os microfundamentos afetivos que moldam a atenção, o julgamento e a disposição para agir na estratégia. Reconhece que a adoção de IA altera relações de poder e identidades, ativando emoções coexistentes como o medo, incluindo a ameaça profissional e erros do sistema; a ansiedade, por incertezas éticas, técnicas e regulatórias; e o entusiasmo pelas oportunidades de inovação.
3. Governança adaptativa
Consiste nos arranjos institucionais e arenas deliberativas e colaborativas, que envolvem diferentes áreas (negócios, tecnologia, jurídico, riscos, comunicação). Esses arranjos estabelecem transparência procedimental, mecanismos de contestação, monitoramento e critérios de responsabilização quando a autoridade de decisão é parcialmente compartilhada com sistemas algorítmicos.
A aplicação desse framework pode gerar vários resultados corporativos positivos, de acordo com Prieto e Kadígia. Um deles é o alinhamento harmonioso entre os fatores de construção de sentido, emoções e governança. Nesse caso, é possível prever um aumento da probabilidade de converter iniciativas de IA em vantagem competitiva sustentável de longo prazo.
As corporações também ganham ao reconhecer e legitimar emoções como o medo e a ansiedade, pois evitam a resistência silenciosa, comportamentos defensivos e o cumprimento mínimo de tarefas, canalizando o afeto coletivo para a aprendizagem organizacional e para a adaptação contínua.
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Estratégia sem escolhas rígidas
Já os arranjos de governança colaborativa aumentam a confiança interna e externa, reduzem assimetrias de informação e garantem que as decisões apoiadas por sistemas inteligentes respeitem as normas e valores compartilhados.
Os autores do artigo também avaliam que o framework capacita a empresa a encarar a formulação e implementação estratégica não como escolhas rígidas, mas como um processo social contínuo de experimentação e ajustes necessários para lidar com sistemas opacos, mutáveis e parcialmente autônomos.
A conclusão dos dois especialistas é que o sucesso estratégico na adoção da IA demanda muito mais do que investimentos financeiros e capacidades puramente técnicas. Para eles, a vantagem competitiva de longo prazo não decorre apenas da posse de algoritmos sofisticados, mas sim da capacidade da organização de gerir e integrar as dimensões humanas, interpretativas e institucionais que acompanham a inovação tecnológica.
Prieto e Kadígia reforçam ainda que a inteligência técnica dos algoritmos só se reverte em vantagem competitiva se for sustentada por uma arquitetura organizacional psicologicamente segura, legítima e em constante aprendizado.
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