De acordo com a PwC, 52% das empresas listadas na Fortune 500 em 2003 deixaram de existir nos vinte anos seguintes, seja por falência, aquisição ou fusão.

Tais ameaças mexem com várias estruturas corporativas, inclusive o conselho de administração, uma espécie de guardião da perenidade das empresas. Mas como esse colegiado pode lidar com a disrupção atual?

A resposta é usar ferramentas também disruptivas, como a IA. Sim, o recurso invadiu a sala do conselho, mas é preciso uma atenção com ele, segundo Gustavo Donato, vice-presidente de Conhecimento e Aprendizagem da Fundação Dom Cabral (FDC). Para o especialista, a IA tem drenado recursos financeiros preciosos das companhias sem, muitas vezes, apresentar qualquer retorno sobre o investimento.

O problema desse cenário envolve a falta de letramento tecnológico adequado por parte dos tomadores de decisão, o que gera a criação de expectativas irrealistas e leva à aprovação de projetos mal executados.

Donato ressalta que há uma inversão perigosa de prioridades e explica: a IA é ferramenta, mas a estratégia deve vir em primeiro lugar. De acordo com o especialista em foresight estratégico, tecnologia e inovação, as pessoas têm a tendência de ver uma novidade e se apaixonarem pela tecnologia em si, esquecendo-se de entende-la como motor de geração de valor para o negócio.

Os colegiados corporativos podem evitar essa armadilha seguindo um receituário básico, que começa com o ato de pensar no negócio e definir qual é a solução ou a geração de valor necessária.

Em segundo lugar, deve-se desenhar qual será a estratégia para alcançar esse objetivo, e apenas no terceiro passo é que se deve questionar qual tecnologia, inclusive IA, atenderia a essa estratégia. As etapas seguintes envolvem mitigar os riscos envolvidos e partir para a adoção diligente.

Embora o cuidado com o core business e as operações de curto prazo seja vital para garantir o fluxo de caixa e as margens da empresa, a verdadeira governança de excelência exige o que os especialistas chamam de “ambidestria”.

Ser ambidestro significa ter a capacidade de combinar o foco na entrega de resultados no presente com o desenho e a execução de iniciativas que garantam uma posição competitiva diferenciada no médio e longo prazos. Nesse último caso, a construção dos horizontes depende da aplicação da prospectiva estratégica ou foresight estratégico, como o tema vem sendo conhecido no mundo corporativo.

O artigo de quatro professores da renomada escola de negócios INSEAD corrobora a avaliação de Donato. Segundo o documento, qualquer receio de que a IA torne os humanos redundantes nos conselhos de administração é infundado. É exatamente o contrário: a IA permitirá que os conselhos sejam as instituições informadas, responsáveis ​​e proativas que precisam ser.  

IA pode ser ferramenta de suporte

Mulher usando um laptop no escritório com a expressão de que a IA pode ser ferramenta de suporte ao trabalho
Foto: Gorodenkoff / Shutterstock / Modificada com IA

“À medida que os negócios se tornam cada vez mais automatizados, os conselhos precisarão trabalhar de forma eficaz para manter suas organizações centradas no ser humano”, detalha o artigo, que lista cinco desafios em que a IA pode atuar como ferramenta de suporte para as estratégias do conselho.

1. Informação precisa

Os dados que chegam aos conselheiros podem ser seletivos, inclusive para mascarar falhas, chegam em cima da hora e são escritos para executivos experientes e não conselheiros. Nesse caso, a IA pode ser usada para sintetizar descobertas regulatórias, dados financeiros, feedback de funcionários e muito mais. Isso significa que os conselhos terão mais tempo para tomar decisões e pensar estrategicamente, áreas que muitos admitem ser deficientes.

2. Timing adequado

A IA pode ajudar os diretores a se prepararem para reuniões com mais rapidez, uma vez que os conselhos se reúnem algumas vezes ao ano. Além disso, a ferramenta pode recordar discussões anteriores com precisão, incluindo a integração de novas informações relevantes. Ela também pode formular perguntas pertinentes para serem feitas aos executivos. A governança muda de rumo e o trabalho do conselho passa a ser contínuo e antecipatório.

3. Foco na ação

A IA pode fornecer um fluxo quase contínuo de informações de qualidade. Ela também pode oferecer previsões eficientes, análises de cenários e avaliações de risco. Munidos dessas ferramentas, os conselhos administrativos podem agir com rapidez e visão de futuro.

4. Inteligência emocional

Um conselho funcional exige que seus membros tenham confiança e empatia uns pelos outros. Nesse sentido, a IA pode monitorar reuniões e identificar desinteresse, tensões, repetições e até mesmo fadiga, possibilitando intervenções. Também pode ajudar os conselhos a identificarem padrões de deferência e controle que surgem quando, por exemplo, ex-CEOs atuam como presidentes ou quando um presidente se torna excessivamente complacente com um CEO.

5. Senso de propósito

A IA não pode intervir diretamente em questões de senso de propósito, mas essa característica do conselho só é forte quando os outros quatro desafios fundamentais são abordados de forma eficaz. A IA ajudará os conselhos a enfrentarem os desafios da informação, do tempo, da ação e da emoção e, com isso, fortalecerem o senso de propósito.

O Australian Institute of Company Directors (AICD) também lista um receituário de como os boards podem trazer a IA para junto de si. A primeira recomendação é entender que a tecnologia não é nem mágica, nem muito menos neutra.

Explicando: é preciso ter dados de boa qualidade e treiná-los para responder questões importantes. E também é necessário estruturar um tratamento ético, com supervisão, para não reforçar preconceitos e criar uma falsa noção de segurança.

“Os conselhos de administração não precisam saber programar, mas precisam ter conhecimento de IA. Os diretores devem entender o que a IA pode e não pode fazer, os riscos que ela acarreta e como fazer as perguntas certas”, resume o AI for Cyber Defence – AICD (IA para Defesa Cibernética), que tem uma cartilha sobre governança de IA segura e responsável.