A adoção de inteligência artificial na gestão de pessoas costuma ser associada a ganhos de eficiência e produtividade. No entanto, um projeto desenvolvido no Instituto Cória propõe uma abordagem diferente: utilizar dados ricos, automação e IA para elevar a qualidade operacional dos processos de feedback e desenvolvimento, tornando as análises mais consistentes, as devolutivas mais completas e os acordos mais fáceis de acompanhar ao longo do tempo. O objetivo da iniciativa é criar condições para que gestores dediquem mais atenção às atividades que dependem de interpretação, empatia e diálogo, especialmente em contextos híbridos de trabalho.
O estudo Inteligência artificial como ferramenta de apoio à liderança na oferta e recebimento de feedback foi publicado na revista DOM e tem como autores Juliana de Paula Rocha, Sabrina Soares Pereira e Silvio Araújo de Souza Neto, com orientação dos professores Fabian Salum e Shirlene Ribeiro, da Fundação Dom Cabral (FDC).
A iniciativa parte de um desafio recorrente nas organizações. Embora o feedback seja amplamente reconhecido como uma ferramenta de desenvolvimento, muitas vezes informações relevantes, pactuações e encaminhamentos acabam dispersos em diferentes registros ou se perdem entre uma conversa e outra. O problema tende a se agravar em modelos híbridos e distribuídos, nos quais a manutenção do alinhamento e da coesão das equipes exige mecanismos mais estruturados de comunicação e acompanhamento.
Nesse contexto, o projeto buscou responder a uma questão prática: como aumentar a qualidade do feedback como instrumento de acompanhamento e desenvolvimento, sem ampliar a carga operacional dos gestores nem enfraquecer a dimensão humana que sustenta o processo.
Da eficiência operacional à qualidade da execução
O diferencial da proposta está em tratar a tecnologia não apenas como ferramenta de produtividade, mas como um mecanismo para ampliar a qualidade da execução. Isso significa garantir maior consistência das análises, mais riqueza de informações para embasar decisões, rastreabilidade dos acordos estabelecidos e continuidade dos processos de desenvolvimento.
A solução proposta reúne registros históricos de feedback, pactuações, competências observadas, documentos institucionais e valores organizacionais em uma base estruturada de informações. Dessa forma, os gestores passam a contar com dados organizados e contextualizados para preparar suas devolutivas e acompanhar a evolução dos colaboradores ao longo do tempo.
Além de reduzir retrabalho e evitar a perda de informações, essa consolidação permite maior coerência entre avaliações, planos de desenvolvimento e ações posteriores. Em vez de reiniciar o processo a cada ciclo de feedback, a organização passa a construir uma trajetória contínua de acompanhamento e evolução.
Dados ricos e contextualizados para devolutivas mais completas
A arquitetura concebida para o projeto prevê o uso de inteligência artificial em momentos específicos do processo. Antes das conversas, a tecnologia auxilia na organização das informações, na recuperação de registros anteriores e na formulação de sugestões de linguagem mais assertivas e empáticas. Após a interação, pode apoiar a elaboração de sínteses e o registro dos encaminhamentos acordados.
Na prática, a automação da coleta, consolidação e entrega dos dados permite que os líderes realizem devolutivas mais completas, precisas e personalizadas. Em vez de dedicar tempo à busca de informações dispersas, os gestores recebem uma visão estruturada do histórico, dos compromissos assumidos e das competências observadas, podendo concentrar esforços na interpretação dos dados e na condução das conversas.
Essa é uma diferença importante em relação a sistemas tradicionalmente voltados para controle de processos ou registro de informações. O foco não está em automatizar decisões ou substituir o discernimento humano, mas em oferecer melhores condições para que ele seja exercido.
Os próprios resultados da pesquisa realizada com gestores e colaboradores reforçam esse entendimento. Os participantes reconheceram que a tecnologia pode contribuir para feedbacks mais claros e organizados, mas destacaram que aspectos como escuta ativa, empatia, sensibilidade e postura de liderança permanecem indispensáveis para a efetividade do processo.
Transparência que fortalece a credibilidade
Outro aspecto central do projeto é a preocupação com ética, conformidade transparência. A proposta prevê mecanismos de governança, rastreabilidade, auditoria e revisão humana para garantir que o uso da IA ocorra de forma responsável e alinhada aos valores da organização.
Essa transparência também se reflete na forma como as devolutivas são construídas e acompanhadas. Quando critérios, acordos e expectativas ficam registrados de maneira clara e acessível, aumenta a percepção de razoabilidade, coerência e utilidade do feedback. O resultado é uma maior credibilidade do processo e uma tendência maior de adesão dos colaboradores às ações de desenvolvimento decorrentes dessas avaliações.
Ao conectar feedbacks, competências e planos de desenvolvimento individual, a ferramenta também reduz o risco de que recomendações importantes desapareçam na rotina operacional. Em vez de serem tratados como eventos isolados, os feedbacks passam a integrar um processo contínuo de desenvolvimento de pessoas.
Tecnologia a serviço do diálogo
O estudo chama atenção para um aspecto frequentemente negligenciado nos debates sobre IA aplicada à gestão: a diferença entre apoiar relacionamentos e controlar comportamentos.
Por isso, um dos indicadores considerados para avaliar o sucesso da iniciativa é verificar se a ferramenta é percebida pelos usuários como “suporte ao diálogo e não como mecanismo de controle”.
A preocupação aparece em diferentes etapas da proposta. A arquitetura mantém a responsabilidade das decisões com as lideranças e utiliza a tecnologia para organizar dados, recuperar históricos e estruturar informações que apoiem as conversas. Como descreve o artigo, a solução foi concebida para manter “o líder como responsável pela mediação, pelo contexto e pelas decisões, usando a tecnologia como suporte para dar mais consistência ao processo”.
Ao atacar gargalos operacionais relacionados à preparação, ao registro e ao acompanhamento dos feedbacks, a iniciativa procura ampliar a qualidade da execução das estratégias de desenvolvimento de pessoas. A expectativa é que a combinação entre dados consolidados, processos estruturados e inteligência artificial permita que líderes gastem menos energia com tarefas administrativas e mais tempo com aquilo que continua sendo exclusivamente humano: compreender contextos, interpretar nuances, construir confiança e promover o desenvolvimento das equipes.