Os próximos tempos da IA envolvem o trabalho em colaboração entre pessoas e agentes virtuais, com as máquinas assumindo tarefas cada vez mais complexas e profissionais concentrados em atividades que exigem contexto, julgamento, criatividade e relacionamento.

A avaliação é de Sankar Venkatraman, LinkedIn Global Evangelist, que apresentou, durante o SP2B – que acontece em São Paulo entre 09 e 16.08, uma visão sobre inteligência artificial e o futuro do trabalho. Para ele, a transformação deve ser analisada menos pela substituição de empregos e mais pela redistribuição das tarefas que compõem cada função. “Os seres humanos serão os responsáveis por impulsionar a economia da inovação. Não será a IA”, disse.

O ritmo de adoção da tecnologia ajuda a dimensionar a mudança. Segundo dados apresentados pelo executivo, a internet levou sete anos para chegar a 100 milhões de usuários globalmente. O ChatGPT alcançou o mesmo número em dois meses, enquanto o DeepSeek chegou à marca em duas semanas.

Três fases da IA

Um slide que mostra três fases da inovação na adoção da IA nas empresas: 1) a IA auxilia os seres humanos; 2) equipes formadas por seres humanos e agentes, com a IA atuando como colega; 3) empresas administradas pela IA, com seres humanos supervisionando e acompanhando o processo, tudo ilustrado com ícones atraentes e descrições concisas.
Painel de apresentação de Sankar Venkatraman durante o evento (Foto: Rodrigo Conceição Santos)

A transformação da IA no ambiente profissional deve ocorrer em três fases nas companhias, sugeriu Venkatraman. A primeira é a que ocorre atualmente na maioria delas e na qual a tecnologia funciona como uma inteligência sob demanda. Ou seja: o profissional faz perguntas, solicita análises ou delega determinadas atividades, e a máquina executa o trabalho.

A segunda etapa será a consolidação da IA como um “colega digital”. Nesse modelo, pessoas e agentes passam a integrar as mesmas equipes e o profissional define o que precisa ser feito por humanos ou por máquinas. “A terceira fase envolve a atribuição de tarefas completas aos agentes. Os seres humanos continuarão liderando, mas agentes e pessoas trabalharão em colaboração uns com os outros”, disse.

A diferença, nesse estágio, é que profissionais não estarão apenas liderando outros profissionais. Eles também terão de coordenar sistemas capazes de executar atividades de forma autônoma.

Venkatraman usou o recrutamento como exemplo. Na primeira fase, a IA pode identificar as regiões do Brasil com maior concentração de profissionais de ciência de dados. Na segunda, pode localizar candidatos e agendar entrevistas. Na terceira, pode receber uma tarefa mais ampla, como contratar e fazer o onboarding de novos funcionários, acionando diferentes áreas da empresa.

Empresas terão de reorganizar o trabalho

Esse processo tende a atingir a estrutura das organizações, na avaliação do especialista do Linkedin. Assim, em vez de analisar apenas cargos, as empresas precisarão olhar para as tarefas que formam cada função. “Se vocês olharem para o trabalho de qualquer pessoa, seja um CEO ou um estagiário, ele nada mais é do que um conjunto de tarefas”, comparou.

Nesse modelo, atividades previsíveis e repetitivas são as mais adequadas para automação. Já tarefas que exigem contexto, colaboração, comunicação, liderança, julgamento e relacionamento, preservam o valor humano.

Competências valem mais que o cargo

Outro insight de Venkatraman é para o RH, especialmente na forma como contratam e desenvolvem profissionais.

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Em um ambiente no qual ferramentas e tecnologias mudam rapidamente, a formação adquirida no início da carreira não será suficiente para sustentar uma trajetória profissional inteira. “Por isso, as contratações devem privilegiar as competências e a paixão por aprender”, disse, salientando que o aprendizado contínuo passa também a ser parte da própria estrutura das organizações. 

Brasil avança em competências de IA

Gráfico de barras que mostra o grau de concordância de que os produtos de IA trazem mais benefícios do que prejuízos em vários países. O Brasil lidera, com 91% de concordância, destacando como a inovação gera percepções positivas, enquanto a Alemanha apresenta o menor índice de concordância. A média global é de cerca de 56%.
Painel durante a apresentação do executivo (Foto: Rodrigo Conceição Santos)

Liderança, gestão de pessoas, comunicação, empreendedorismo, colaboração e capacidade de julgamento são skills que continuam relevantes aos profissionais do futuro, justamente porque são menos suscetíveis à automação. E, nesse aspecto, o Brasil vai bem.

O país aparece entre os mercados que estão acelerando a adoção de competências relacionadas à inteligência artificial, de acordo com dados apresentados por Venkatraman no SP2B. 

Entre os membros brasileiros do LinkedIn, a presença dessas competências cresceu 19 vezes nos últimos quatro anos e o país está entre os seis primeiros do mundo em penetração de competências de IA.

A percepção sobre a tecnologia também é positiva. Segundo Venkatraman, 56% dos brasileiros consideram que a IA tem impacto líquido positivo para a comunidade e a sociedade. A média global é 55% e estamos no meio da tabela entre os 20 principais países, com China liderando esse índice com a porcentagem de 86%.

O empreendedorismo em IA é outro indicador do apreço brasileiro à tecnologia. No último ano, cerca de 6,8% das novas empresas fundadas no país são voltadas à IA.

Para Venkatraman, o movimento está relacionado à capacidade humana de criar novos negócios à medida que as máquinas ampliam a capacidade de execução. “À medida que as máquinas ficam melhores em ser máquinas, a capacidade inata dos seres humanos de serem criativos está impulsionando o crescimento do empreendedorismo”, afirmou.

Fluência, autonomia e criatividade

Uma mulher de óculos digita em um teclado, sentada à mesa de um escritório moderno, concentrada na tela do computador. Cercada por materiais de escritório e por um abajur em primeiro plano, ela personifica a inovação enquanto trabalha com eficiência nesse ambiente de trabalho contemporâneo.
Foto: Gorodenkoff/ Shutterstock

Por isso, fluência, autonomia e criatividade são relevantes no futuro do trabalho. Fluência, na explicação do especialista do Linkedin, é a capacidade de desenvolver competências e utilizar a IA de forma adequada. Não significa necessariamente saber construir sistemas complexos, mas sim entender quais tarefas podem ser delegadas às máquinas e como trabalhar com elas.

Já a autonomia está relacionada à liberdade para criar e empreender, enquanto a criatividade é apontada como um dos principais diferenciais humanos. “A criatividade é verdadeiramente humana. Nenhuma máquina vai criar sozinha sem que os cérebros humanos efetivamente determinem o que precisa ser feito.”

Para se preparar para esse cenário, Venkatraman sugere o desenvolvimento de quatro grupos de competências. O primeiro reúne competências cognitivas, como pensamento crítico, flexibilidade, agilidade mental e comunicação.

O segundo é formado pela autoliderança, incluindo autoconsciência, mentalidade empreendedora, curiosidade e aprendizado contínuo. O terceiro envolve competências interpessoais, como colaboração e relacionamentos, e o quarto corresponde às competências digitais. 

Nesse caso, o desafio vai além de aprender a utilizar ferramentas de IA: ele envolve compreender questões relacionadas à confiança, segurança e credibilidade das informações.

Pronto para delegar à IA?

A apresentação de Venkatraman no SP2B terminou com uma proposta para que os profissionais façam um inventário das próprias atividades. A orientação é listar entre 12 e 15 tarefas realizadas diariamente e dividi-las em três grupos: aquelas que a IA já consegue executar, aquelas que podem ser feitas em parceria com a IA e aquelas que dependem exclusivamente do profissional.

“O primeiro grupo reúne tarefas rotineiras e previsíveis. O segundo envolve atividades nas quais a tecnologia pode processar dados e gerar alternativas, enquanto o profissional fornece contexto, intuição e julgamento. O terceiro concentra as atividades essencialmente humanas”, detalhou.

A partir desse mapeamento, o profissional pode escolher uma tarefa e testar como a utilização da IA altera seu tempo de execução. O objetivo, segundo ele, não é simplesmente aumentar a quantidade de trabalho realizado, mas sim deslocar o tempo economizado para atividades nas quais a participação humana gera mais valor. “Vocês (profissionais) ainda têm o controle. Vocês continuam com as mãos no volante… Mas o trabalho será centrado no ser humano, e verdadeiramente ampliado pela IA”, concluiu Venkatraman.