Em muitas famílias empresárias, as palavras “herdeiro” e “sucessor” são tratadas como sinônimos. Na prática, porém, essa diferença é decisiva para a continuidade dos negócios, para a preservação do patrimônio e para a qualidade das relações familiares. Ser herdeiro é uma condição legal, que está relacionada ao evento de receber um patrimônio e à participação em uma história que foi construída por gerações anteriores. Ser sucessor, por outro lado, é uma construção!

O sucessor é aquele que se prepara para assumir um papel na continuidade da família empresária, seja na gestão, no conselho, na governança familiar ou em outros espaços estratégicos de decisão. Ao longo dos anos acompanhando famílias empresárias no Programa de Desenvolvimento de Acionistas e Famílias Empresárias (PDA), da Fundação Dom Cabral, observamos que muitas tensões familiares nascem justamente dessa confusão. Em muitos casos, filhos e filhas são conduzidos naturalmente para posições executivas sem clareza sobre desejo, preparo ou vocação. Em outros, aqueles que não querem atuar na operação são vistos como pouco comprometidos, quando, na verdade, poderiam contribuir de forma muito relevante como acionistas responsáveis, conselheiros, membros de fóruns familiares ou guardiões do legado.

A longevidade de uma empresa familiar não depende apenas de estabelecer “quem vai tocar o negócio”, mas sim de de preparar pessoas capazes de compreender seus papéis, tomar decisões com responsabilidade e sustentar vínculos entre família, propriedade e empresa. Alguns dados reforçam esse desafio. Em pesquisa da Fundação Dom Cabral sobre famílias empresárias longevas de alto crescimento, 71% das empresas médias brasileiras são de controle familiar. No entanto, dessas, apenas 10,1% estão na terceira geração do controle da sociedade. O mesmo estudo aponta que somente 24% possuem planejamento sucessório formalizado para a alta liderança da gestão. Esses números mostram que a sucessão não é apenas uma preocupação futura, ela é um tema central para a continuidade dos negócios e precisa ser trabalhada antes da transição.

Existe uma ideia equivocada de que o desenvolvimento deve ser reservado apenas àqueles que ocuparão cargos de liderança ou sucessão executiva na empresa familiar. Na prática, todos os membros de uma família empresária precisam ser preparados. Mesmo que um integrante da família não trabalhe na empresa, ele poderá participar de decisões importantes sobre patrimônio, dividendos, investimentos, venda de ativos, entrada de novos sócios, sucessão, governança, futuro e diversificação dos negócios.

Por isso, o desenvolvimento do acionista começa pela consciência do seu papel. É preciso compreender a história da família, os valores que sustentaram a construção do patrimônio, os desafios enfrentados pelas gerações anteriores e a responsabilidade de participar de decisões que impactam todo o sistema familiar e empresarial. Um futuro acionista bem preparado entende que patrimônio não é apenas benefício, é também compromisso.

Já o sucessor dos negócios precisa avançar em uma trilha adicional de desenvolvimento. Além de compreender sua posição como acionista, ele precisa desenvolver competências para liderar, influenciar, decidir e construir legitimidade diante dos sócios, dos executivos e da organização. Essa legitimidade não nasce apenas do sobrenome. Ela é construída por meio de preparo, entregas consistentes, capacidade de escuta e articulação, maturidade emocional e visão de futuro.

Uma família empresária saudável não exige que todos sigam o mesmo caminho. Ao contrário, reconhece que cada pessoa pode contribuir de diferentes formas para a continuidade do legado: alguns estarão na gestão, outros no conselho, outros na governança familiar e outros como acionistas preparados, conscientes e comprometidos com decisões responsáveis.

O ponto central é que nenhum desses papéis deveria ser exercido sem preparo. Famílias que deixam essa conversa para quando o fundador se afasta, quando há uma crise ou quando a próxima geração precisa assumir rapidamente, tendem a viver processos mais tensos e reativos. Já aquelas que investem cedo no desenvolvimento de seus núcleos familiares criam melhores condições para conversas maduras, escolhas conscientes e transições mais saudáveis. Sucessão bem conduzida não começa quando alguém sai. Começa quando a próxima geração é convidada a compreender, com profundidade, o que significa fazer parte de uma família empresária.

Ilustração sobre negócios familiares com duas pessoas se cumprimentando em frente a um quebra-cabeça, sugerindo parceria, colaboração e construção conjunta de estratégias
Imagem gerada digitalmente

Preparar líderes, acionistas, conselheiros e as novas gerações para lidar com a complexidade das empresas familiares contemporâneas nunca foi tão importante. As transformações sociais, econômicas e familiares vêm trazendo novos contextos, diferentes arranjos de poder e expectativas mais amplas sobre o papel das futuras lideranças, exigindo novas formas de preparar, desenvolver e, sobretudo, engajar sucessores no processo de continuidade do legado familiar e empresarial.

No fim, o grande desafio das famílias empresárias não é apenas transferir patrimônio ou escolher quem ocupará uma posição de comando. É desenvolver pessoas capazes de sustentar aquilo que a família construiu, e preparar o que ainda poderá construir.

Nesse cenário, a educação também precisou se reinventar. Mais do que transmitir conhecimento, tornou-se fundamental construir experiências de aprendizagem capazes de conectar prática, reflexão, compromisso e impacto positivo, considerando a singularidade dos desafios vividos pelas famílias empresárias. Programas dessa natureza cumprem um papel essencial ao ampliar a capacidade de diálogo, alinhamento e tomada de decisão entre os diferentes atores do sistema familiar e empresarial. Mais do que desenvolver competências técnicas, a educação torna-se um instrumento estratégico para fortalecer relações de confiança, aprimorar a governança e sustentar a capacidade de adaptação, continuidade e prosperidade dos negócios ao longo das gerações.

* Caroline Aguiar é gerente de negócios e soluções, e Selma Rodrigues é diretora do Family Business Center na Fundação Dom Cabral

Dúvidas mais comuns

Ser herdeiro é uma condição legal relacionada ao recebimento de patrimônio e à participação em uma história construída por gerações anteriores. Ser sucessor, por outro lado, é uma construção que envolve preparação para assumir um papel na continuidade da família empresária, seja na gestão, conselho, governança familiar ou outros espaços estratégicos de decisão. Essa distinção é decisiva para a continuidade dos negócios e a qualidade das relações familiares.

Muitas tensões nascem porque filhos e filhas são conduzidos naturalmente para posições executivas sem clareza sobre desejo, preparo ou vocação. Além disso, aqueles que não querem atuar na operação são frequentemente vistos como pouco comprometidos, quando poderiam contribuir de forma relevante como acionistas responsáveis, conselheiros, membros de fóruns familiares ou guardiões do legado. A falta de clareza sobre papéis distintos gera conflitos e desperdício de potencial.

Pesquisas mostram que 71% das empresas médias brasileiras são de controle familiar, mas apenas 10,1% estão na terceira geração do controle. Além disso, somente 24% possuem planejamento sucessório formalizado para a alta liderança. Esses números indicam que a sucessão não é apenas uma preocupação futura, mas um tema central para a continuidade dos negócios que precisa ser trabalhado antes da transição.

Sim. Existe uma ideia equivocada de que o desenvolvimento deve ser reservado apenas àqueles que ocuparão cargos de liderança. Na prática, todos os membros precisam ser preparados, pois mesmo quem não trabalha na empresa poderá participar de decisões importantes sobre patrimônio, dividendos, investimentos, venda de ativos, sucessão e governança. O desenvolvimento do acionista começa pela consciência do seu papel e compreensão da história familiar.

A legitimidade não nasce apenas do sobrenome. Ela é construída por meio de preparo, entregas consistentes, capacidade de escuta e articulação, maturidade emocional e visão de futuro. O sucessor precisa desenvolver competências para liderar, influenciar e decidir, além de compreender sua posição como acionista e construir confiança diante dos sócios, executivos e organização.

Uma família empresária saudável reconhece que cada pessoa pode contribuir de diferentes formas: alguns estarão na gestão operacional, outros no conselho de administração, outros na governança familiar e outros como acionistas preparados e conscientes. O ponto central é que nenhum desses papéis deveria ser exercido sem preparo adequado, independentemente de qual seja a escolha de cada membro.

A sucessão bem conduzida não começa quando alguém sai, mas quando a próxima geração é convidada a compreender, com profundidade, o que significa fazer parte de uma família empresária. Famílias que deixam essa conversa para quando há crise ou quando a próxima geração precisa assumir rapidamente tendem a viver processos mais tensos e reativos. Investir cedo no desenvolvimento cria melhores condições para conversas maduras e transições saudáveis.

A educação tornou-se um instrumento estratégico que vai além de transmitir conhecimento técnico. Ela constrói experiências de aprendizagem capazes de conectar prática, reflexão, compromisso e impacto positivo. Programas de desenvolvimento ampliam a capacidade de diálogo, alinhamento e tomada de decisão entre os diferentes atores do sistema familiar e empresarial, fortalecendo relações de confiança e a governança para sustentar a continuidade ao longo das gerações.