- A inteligência artificial generativa está transformando rapidamente processos e modelos de negócios, com previsão de reconfigurar 86% das empresas até 2030.
- A adoção da IA exige líderes corajosos que priorizem o elemento humano, promovendo aprendizado e gestão da mudança para moldar ações presentes com visão de futuro.
- O setor corporativo enfrenta desafios como futurofobia e sobrecarga mental, demandando foco na gestão das pessoas e uso responsável da tecnologia para garantir futuros positivos.
O desenvolvimento de ferramentas tecnológicas, em especial a inteligência artificial generativa (GenAI), trouxe um período de rápidas transformações em processos, mentalidades e na necessidade de aprendizagem, e isso tanto para pessoas quanto para organizações. Pesquisa mostra que, até 2029, 80% dos problemas de atendimento ao cliente serão resolvidos com o uso da IA, por exemplo. Além disso, a previsão é de que a ferramenta vai reconfigurar 86% dos negócios e modelos de negócios até 2030.
Essas mudanças se refletem de várias maneiras no ambiente corporativo, especialmente no lado humano. Muitas funções devem ser eliminadas e novos cargos surgirão – porém, não serão necessariamente pelas pessoas que perderam os seus cargos anteriores. Além disso, temas como segurança, privacidade e proteção de dados passam a ser de maior preocupação nas empresas.
“Embora todas essas mudanças tragam novas preocupações para as organizações e seus gestores, precisamos lembrar que o ser humano deve ser sempre prioridade, à frente das novas ferramentas”, pontuou a diretora de Diversidade e Inclusão (DEI) da Toughtworks e professora da Fundação Dom Cabral (FDC), Grazi Mendes, durante o 10º Fórum Anual de Médias Empresas, realizado ontem (2), na capital paulista.
Em painel que abordou futuros positivos para as médias empresas, a visão de Grazi foi consenso. “Precisamos pensar em seres humanos e não em recursos humanos”, disse Patrícia Prado, diretora de Data&AI na Accenture. “Estamos usando IA desde 2022, quando o ChatGPT foi lançado. Então, a IA não é futuro, é presente. O que precisamos fazer é reformular perfis, nos reorganizar e usar o melhor das pessoas, deixando a IA para aquilo que elas não estão tendo tempo”, completou.
Futuro positivo depende da liderança
Para Grazi, os líderes precisam ter coragem para construir um futuro positivo, e isso necessariamente passa pelo elemento humano. “As pessoas aspiram algo melhor e a tecnologia pode ajudá-las nisso. Mas, para tanto, é preciso aprendizado, atenção e coerência. Antes de apenas propor mudanças baseadas em tecnologia, as lideranças precisam compreender que a forma como imaginam o futuro deve moldar as ações de agora, do presente”, destacou.

Adriano Amui, professor da FDC, avaliou que o momento atual é de “caos”. “Se as médias empresas não se adequarem a este mundo acelerado, seu fim está decretado. Precisamos transformar o caos em valor”, provocou, validando que a sociedade está em momento de transformação. “Temos de nos cercar de pessoas competentes e olhar esse momento como oportunidade”, salientou. Também com olhar para as pessoas, ele acrescentou que as empresas que estão bem posicionadas têm algo em comum: líderes que sabem engajar os colaboradores e fazer a gestão da mudança.
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Do caos às oportunidades
Não existe futuro no singular, mas sim no plural, na visão de Sabina Deweik, professora da FDC. “Estamos vivendo um cenário de policrise, no qual as crises são sistêmicas e os líderes das empresas precisam ser protagonistas dos futuros que querem criar”, disse ela, que se autodefine como futurista e caçadora de tendências.

De acordo com a professora, o momento atual traz questões que afetam as pessoas: “Estamos falando de ecoansiedade, do medo de ficarmos ultrapassados ou obsoletos (Fobo) diante da velocidade das transformações, de sobrecarga mental e de conflitos entre gerações. Existe uma ‘futurofobia’ corporativa”, explicou, mencionando que a solidão é uma nova epidemia.
Também em sua avaliação, o futuro é dicotômico, com um viés tecnológico e outro humano. “Precisamos resgatar o humano e agir sobre nosso futuro. Vamos viver futuros paradoxais, tecnológicos e humanos, e o grande desafio não é introduzir a tecnologia, mas, sim, fazer a gestão das pessoas e de como elas usam as ferramentas disponíveis”, disse.
IA orquestradora de futuros
A IA é uma tecnologia potente e grande orquestradora de mudanças, na avaliação de Gustavo Donato, professor da FDC e conselheiro Global do Grupo Stefanini. “Mas não adianta ter um projeto de IA se não houver uma preparação para ele”, ponderou durante a sua apresentação, focada em como grandes empresas enxergam o futuro. “Temos uma lição de casa que exige disciplina, formação das nossas pessoas, uma reengenharia responsável dos nossos modelos de negócio e sim: isso tem de trazer tecnologia e visão”, completou.

Donato avaliou ainda que as novas soluções devem trazer, cada vez mais, hiperpersonalização. Porém, antes de qualquer mudança, as organizações precisam pensar no valor dessa transformação, seus riscos e desafios. “É preciso fazer o básico bem-feito, ter disciplina e priorizar a formação das pessoas. Eu não tenho medo da inteligência artificial, mas tenho grande apreensão por estarmos, em muitos casos, deixando de usar a inteligência natural”, concluiu.